06. O que ele não precisa saber – Parte 2

1193 Palavras
Thiago — Está me dizendo que aquele cara acordou do coma depois de três meses? — pergunto novamente ao homem, e ele apenas meneia a cabeça em concordância. Isso com certeza não estava entre o que eu esperava saber. Carolina tem agido discretamente e permanece exatamente onde a deixam, sem causar problemas. Tudo porque sabe que eu a vigio, que continuarei vigiando, e que, se cometer um erro, sua mãe sofrerá as consequências. Ainda que eu acredite que sua mãe nem sentiria qualquer dor neste momento, continua se embriagando sem parar, incapaz de lidar com a notícia da morte do marido. É como se estivesse continuamente revivendo aquele dia, presa ao luto de forma excessiva. — Talvez essa seja uma boa oportunidade para mim. Quem sabe ele fique feliz por ter recebido uma c****a tão bem domesticada porque abri mão dela — profiro com um sorriso no rosto. Quando perceber quão obediente Carolina se tornou, tem a obrigação de me agradecer por isso, porque fui eu quem gastou tanto tempo para treiná-la, ensinando-a como viver bem dentro de um relacionamento. Se ela abaixa a cabeça e obedece agora, é porque eu a condicionei muito bem. — Você vai querer se encontrar com eles em breve? — me indaga, e é claro que quero vê-lo de perto. Preciso observar o que fará com Carolina depois de descobrir que foi o pai dela quem o feriu. Não posso permitir que tente me culpar, como a sua avó tentou. — Sim, converse com pessoas próximas, pergunte se ele já está recebendo parceiros de negócios e me informe tudo o que for importante — ordeno, e ele concorda. — O mais importante: não tire os olhos de Carolina. Não quero que ela crie problemas para mim. — Como quiser, senhor — assegura, e eu espero que meus planos continuem indo bem. Porque, goste ou não, tive que abrir mão de algo que não esperava por conta do interesse deles. Não podem me roubar ainda mais sem que eu revide. *** Carolina A avó de Gael cuidou de tudo para garantir que meu corpo estivesse em sua melhor forma, que eu estivesse apta a fazer a inseminação artificial sem que corrêssemos o risco de o bebê ser prejudicado. Fiquei um pouco tocada por sua preocupação, mas sei que tudo tem a ver com o desejo de ter um bisneto saudável. Sou apenas um meio para um fim, e não posso reclamar, pois cobrei o meu preço para ajudá-la. Fiz minha escolha e agora sigo pelo caminho que foi aberto através dela. O que mais me preocupa no momento é o que Gael dirá quando sua avó contar que decidiu usar seus espermatozoides na mulher que ele não quer ver. Gostaria de dizer a ele para não se preocupar, que não quero problemas, que tudo o que desejo é livrar minha família das algemas que pus nela ao me casar com Thiago. Entretanto, creio que nenhuma das minhas justificativas será suficiente quando meu pai quase o matou. — Olha só quem está andando livremente — o som de sua voz percorre meu corpo, anunciando o perigo próximo. Não há como ignorá-lo sem que meu coração entre em colapso. Ele não deveria estar aqui. Tenho certeza de que a avó de Gael não tem motivos para lhe dar informações sobre mim, mas no que estou pensando? Thiago sempre me encontrou. Não importou quantas vezes tentei escapar, ele sempre me achava e me arrastava de volta. Mas agora foi ele quem se livrou de mim. Não pode voltar atrás no que foi feito. — Eu disse que ganharia sua liberdade, não disse? Veja, eu te ajudei, mesmo você me odiando tanto — profere com um sorriso que poderia enganar qualquer um, mas que não me comove. Sei bem o que ele pode esconder por trás daqueles olhos. — Não seria a chance perfeita para me devolver os favores que te fiz? — Já fiz tudo o que pediu, Thiago. Agora tem que liberar minha mãe. Depois disso, nada mais nos ligará — digo, esperando que aceite encerrar esse ciclo antes que se torne ainda mais problemático. Entretanto, ele nunca ouviria meus conselhos. — Eu é que digo quando o nosso envolvimento acaba, Carolina. Por enquanto, ainda tenho sua mãe, por isso é muito importante que não se esqueça de que sou eu quem dita as regras — murmura, aproximando-se o suficiente para me enojar, um desejo de vomitar crescendo dentro de mim. Quero empurrá-lo, gritar para que saia de perto, mas se fizer qualquer birra que o desagrade, ele descontará na minha mãe. Não sou mais o alvo acessível para suas frustrações. Agora, minha mãe é sua vítima. — Quando nos casamos, não disse que ficaria comigo para sempre? — inquere, sua voz um fiapo, mas me incomoda como um terremoto. Meus ossos gelam e minhas palmas suam frio instantaneamente. — Foi a pior escolha da minha vida — respondo, e ele agarra meu rosto, forçando-me a encará-lo como bem deseja. — Melhor tomar cuidado com o que diz. Você não sabe como posso reagir — sussurra em meu ouvido. — Tenha uma boa consulta com seu médico — finaliza, confirmando o que eu já havia imaginado. Ele estava apenas me espionando, esperando o momento certo para atacar. Com a mente repleta de culpa e um enjoo que não me largava, encontrei-me com o médico, que imediatamente notou minha palidez. Perguntou o que eu havia comido e como me sentia, mas nada do que eu pudesse dizer explicaria o caos que minha vida se tornou, essa bola de neve que não posso parar. Fiz a melhor escolha que podia no momento, mas ainda estou casada com um homem que não quer me ver, enquanto sua avó quer que eu tenha um filho dele. Isso não é um começo r**m demais para qualquer relacionamento? Alguns dias se passaram antes que eu fosse liberada para a coleta de óvulos. O médico fez questão de passar todos os meus resultados para a avó de Gael, garantindo que eu estava em um período ótimo para seguir com a gravidez. Porém, mesmo com os vários dias que se passaram, continuo não sendo parte da vida de Gael. Ele se mantém no seu canto, e eu no meu, ambos evitando o que nos liga. Sua avó, por outro lado, está radiante com o desenrolar dos acontecimentos. m*l pode esperar para ver seu bisneto nascer. Ela está dando passos muito longos, mas como poderia reclamar, se sou a pessoa ajudando nisso? Não sei se o humor pode afetar a coleta, mas meu estado de espírito era péssimo. Tudo o que conseguia pensar era que Thiago poderia aparecer na minha frente novamente. Não acho que esses encontros me fariam bem, especialmente neste momento. Não quero que ele descubra sobre a inseminação. Tenho medo do que poderia tentar fazer contra a criança, e isso me incomoda muito mais do que qualquer coisa que possa tentar contra mim. Como a avó de Gael pode cogitar, nem que por um segundo, que eu tenha a possibilidade de trazer sorte à sua família? Está claro que já estou trazendo meu azar para eles.
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