Capítulo 4 - Conhecendo O Terreno Do Inimigo

3204 Palavras
Anne ― Você não tem noção, ele me perseguiu até o portão aqui de casa! ― Exclamei indignada, enquanto Yasmim mexia na minha geladeira. ― Dá para você parar de comer minhas coisas e prestar atenção no que estou falando? ― Ofeguei. Odiava falar com as pessoas não olhando para mim. ― Estou com fome, lá em casa não tem nem pão ― resmungou com a boca cheia de farelos. Ela abriu meu armário, pegou um copo e encheu com leite. Folgada, esse poderia ser o nome dela! ― Me deixa só pegar mais um pedaço desse bolo aqui ― respirei fundo, contendo minha irritação. ― Pega tudo o que você quiser comer, mas por favor senta aqui ― disse eu, com os dentes cerrados. ― Pronto, Senhorita Still! ― Virou os olhos com tédio. Sentada na cadeira ela encarava-me com deboche. ― Ele veio com papo de que não sabia que eu trabalhava na lanchonete e que era tarde para eu andar na rua ― tentei imitar sua voz ridiculamente i****a. ― Mas ele não sabia mesmo ― levantou os ombros. ― Vai defender esse cara agora? Nem o conhece ― murmurei, me sentindo ofendida com sua afirmação. ― Ele é só o xerife, mulher, não tem bola de cristal ― encheu a boca com uma mordida do bolo que minha mãe trouxe. ― Ainda disse que "foi m*l" que ele estava irritado aquele dia e "não sou machista" ― imitei-o novamente. ― Então está resolvido, ele se desculpou pelo m*l entendido ― continuava a comer. Sua solução para tudo às vezes me irritava. ― Não é tão fácil assim, me senti ofendida ― eu estava zangada. ― Para de frescura! Vamos fazer um quarteto: eu e o policial bonitão e você com o Xerife Molhador de Calcinhas! ― Suspirou, fazendo uma expressão horrorosa de t***o. ― Não sei por que eu ainda dou conversa para você. Só pensa em safadeza ― Reclamei, batendo a mão na testa. ― Ah, e você não? Vai me dizer que não achou ele um gato? ― Estreitou os olhos. ― Ele é bonito ― resmunguei, já me arrependendo. ― É o quê? Não ouvi direito ― se fez de surda. ― Não vou repetir! ― Fiz pouco caso. Ela fazia apenas para me irritar. ― Já vi que vocês dois juntos é um perigo, sai faíscas ― falou rindo. ― Por isso quero distância dele, porque toda vez que ele aparece quem se ferra sou eu ― cobri meu rosto com as mãos. ― Quero esquecer tudo que vi naquela noite, foi horrível. ― Sim, você precisa esquecer e para começar a gente podia ver um filme antes do trabalho. Concordei. Sabia que esse filme significaria ela limpar minha geladeira e parte dos armários. Yasmim e eu somos amigas desde o colegial, ela sempre foi louca da cabeça e demorou um pouco até nos tornarmos melhores amigas. Nunca fui a garota super correta e estudiosa, andava sempre com o irmão dela, o Lyon, e sempre nos metíamos em algum problema na escola e foi através dele que a conheci. Temos uma amizade duradoura mesmo ela sendo bem diferente de mim, compactuamos segredos, sonhos e medos. Se eu precisar de uma parceira, cúmplice ou um álibi para encobrir um crime, ela estará pronta. ~◊~ Quando adentramos pelas portas do Best Burguer, meu subconsciente me alertou para a pessoa que vi sentada em uma das mesas, acompanhada de alguns rapazes. Não acredito que ele havia voltado para atormentar minha vida, fazia mais de um ano que eu não o via e olhando-o ali tão perto foi como se revivesse algumas cenas que gostaria de esquecer. ― Fica calma ― Yasmim sussurrou percebendo minha reação. ― Estou calma ― disse para mim mesma, respirando pausadamente. Ao me ver ele sorriu de lado e acenou assim que me viu, coloquei um dos meus sorrisos mais cínicos e acenei de volta. ― O que ele está fazendo aqui, pai? ― Foi a primeira pergunta que fiz. Ele largou as notas e me encarou. ― Veio te ver eu acho, não para de te olhar ― apontou com os olhos para a mesa onde ele estava, da qual nem fiz questão de me virar para ter certeza. ― Eu não tenho nada para falar com ele ― falei rudemente. A última coisa que queria era me aproximar dele novamente. ― Minha filha, eu não tenho culpa, não posso impedi-lo de vir aqui. Ele e os amigos são clientes ― falou calmamente. Meu pai não dizia, mas ele ainda gostava do Mike. ― Vão se arrumar logo, que estão atrasadas há dez minutos ― disse olhando o relógio na parede, fingindo estar irritado com nosso atraso. ― Foi m*l, tio Rick! ― Yasmim brincou, batendo continência e fazendo meu pai rir. ― Dessa vez passa! ― Ele semicerrou os olhos. Quando voltamos para o salão a mesa de Mike me chamava. Droga! Retirei o bloquinho e a caneta do bolso do meu avental e andei calmamente até eles. ― Boa noite, o que vão querer? ― Sorri, encarando brevemente os rostos em minha frente. ― Anne, senti sua falta! ― Ele disse todo sorridente. Seus olhos me encaravam com expectativa. Mike era um homem bonito, os cabelos loiros e compridos e olhos azuis que pareciam uma piscina transbordando. Nós formávamos uma boa dupla na época em que namorávamos, no entanto, nosso namoro mudou quando descobri que nosso relacionamento não era mais somente entre eu e ele. ― Que pena, Mike, pois eu não senti ― fingi um lamento. ― Cansou da Itália? ― Ironizei. Não estava a fim de medir minhas palavras com ele. ― Sempre delicada! ― Riu e passou a mão sobre os cabelos que pareciam mais loiros. ― Na verdade, voltei a passeio, tinha que vir aqui te dar um oi ― novamente passou a mãos pelos cabelos. Tinha esquecido o quanto ele se achava o máximo. ― Então o que vão querer? ― Perguntei mais uma vez. ― Eu queria você! Poder conversar um pouco... ― Mike tocou meu braço, seu tom de voz soou baixo. ― Esse pedido está indisponível! ― Fiz uma expressão de pesar. Ele fez uma cara triste e sorriu em seguida. ― Para começar, nos traga cervejas. ― Pediu. Os outros apenas concordaram com ele. ― O que ele disse? ― Uma Yasmim curiosa perguntou assim que me aproximei do balcão. ― Que sentiu minha falta e blá blá blá. Nojento! ― Muito cara de p*u ele, te trai e depois vem com papinho ― disse enojada. Antes de saber da traição Yasmim adorava o Mike. ― Se ele ficar de gracinha eu arranco as bolas dele ― sussurrei. ― Eu te ajudo!  ― Minha amiga disse prontamente. Christian ― Sim, Jimmy, eu não sabia que ela trabalhava lá ― disse a ele enquanto tomávamos um café no corredor ― Eu não sabia também, Christian, frequentei aquele lugar pela segunda vez, tenho poucos amigos aqui ― argumentou. ― E você ainda a ofendeu, não é?! Não sei por que ele precisava ficar me lembrando desse fato. ― Mas já me desculpei, o problema é que a garota é brava ― fiz uma careta. ― Lá parece ser um trabalho cansativo para ela. ― Está preocupado agora? ― Escondeu o riso. Cerrei os olhos encarando-o. ― Claro que não, foi só um comentário ― dei de ombros. ― Não está mais aqui quem falou ― levantou os braços se rendendo. Não deve ser agradável trabalhar em uma lanchonete até tarde, mas não estou preocupado, era apenas uma observação mesmo . ― Tem alguma novidade no caso? ― Indaguei mudando de assunto. ― Não, perguntei na refinaria se alguém conhecia algum Roi, mas ninguém soube dizer nada. ― Não vai ser muito fácil descobrirmos alguma coisa agora ― dei um gole no meu café tentando pensar em alguma coisa. ― Temos que ficar de olho no armazém, o problema é saber quando e a hora que alguém vai aparecer por lá ― Jimmy observou. ― O dia que segui os Connors era madrugada, imagino que seja o horário que eles se encontrem e também depois da morte dos irmãos eles terão que achar outros para fazerem o serviço ― constatei alisando minha barba. ― Tem razão, podemos nos revezar indo lá. O que acha? ― Jimmy sugeriu. Era uma boa ideia, mas acho que dessa vez ir sozinho não daria certo. ― Talvez... Vou para minha sala, se quiser está liberado. ― Nossa, obrigado, irei para casa dormir ― demos um toque de mãos. Entrei na minha sala e fiquei rodando na cadeira enquanto bebia mais um copo café. Meus olhos pousaram no guarda-chuva vermelho que estava encostado em um canto e um sorriso cintilou em meus lábios ao lembrar-me de como ela estava brava naquele dia e não podia negar que tinha gostado. Uma ideia passeou em minha mente e ri mais ainda do quão i****a eu poderia ser ao fazer isso, mas não seria nada m*l vê-la de novo. Registrei duas ocorrências, ambas de roubos a mão armada, então meus planos de visitar a moça brava sem nome, teriam que ficar para outro dia. O movimento no departamento é calmo, durante a madrugada as ocorrências são maiores e isso é bom para manter-me sempre em alerta. Gosto do clima agitado, porém odeio quando as coisas saem do meu controle. Ainda estava me habituando à cidade, aqui as coisas funcionam de maneira lenta e a verdade é que o xerife antigo não estava dando conta e tudo virou uma bagunça. Espero colocar as coisas nos eixos em breve. ... Sentei-me à mesa e fiquei observando a paisagem pela janela, pelo céu notei que iria chover de novo e minha ideia voltou como um furacão. Alexandria tinha um clima agradável, mas achava que chovia demais nessa época do ano, o que acabava deixando um clima cinza e frio. Entrei no meu quarto e troquei de roupa, vestindo um jeans preto e minha jaqueta. Peguei o guarda-chuva da garota que havia trazido na noite passada e o meu capacete. Ainda lembrava o caminho de sua casa, não ficava tão longe da minha quanto imaginei. Avistei sua casa, estacionei a moto no meio fio e segui até o portão que estava destrancado, o que facilitaria muito caso ela não quisesse me receber. Percorri a pequena calçada e bati na porta. Ouvi o barulho de chaves e a porta ser destrancada, mas não era a fera que estava ali. Pelo que lembro era uma das garçonetes da lanchonete, ela me encarou com surpresa e analisou meu corpo sem ao menos disfarçar. ― Olá ― cumprimentei-a com um aceno. Ela era bonita assim como a amiga, porém mais alta e loira. ― Olá!! ― Ela sorriu ainda me analisando. Poderia ficar sem graça, mas já estava acostumado com alguns olhares. ― A sua amiga está? ― Perguntei. ― Está sim, só um minuto... Anne, visita para você! ― Ela gritou ali mesmo da porta quase estourando meus tímpanos. Ri com meu pensamento. Agora ela tinha um nome. ― Pode entrar! ― Ela me deu passagem. Observei ao redor e tinha um gato deitado no sofá. ― Quem é Yasmim? ― Ouvi sua voz se aproximando. Mantive-me em pé, talvez tivesse que sair correndo. Quando ela me viu paralisou no meio da sala, vestia roupa de pijama uma calça amarela e blusa com estampa de ursinho e cabelos desgrenhados. Segurei o riso o máximo que consegui, ela estava muito engraçada com cara de espanto. ― O que você está fazendo aqui? ― Oi, vim entregar isso ― mostrei o guarda-chuva. ― Acho que vai chover hoje! Sua amiga pigarreou, estava ao lado da porta ainda. ― Eu vou embora, a gente se vê mais tarde ― ela disse. ― Mas você não ia ficar aqui? ― Anne aumentou o olhar e cerrou os dentes encarando a amiga. ― Não vai dar, lembrei que tenho que ir no... No dentista! ― Ela falou pegando uma bolsa em cima do sofá. ― Até depois! ― Acenou para nós com um sorriso nos lábios. ― Até ― respondi eu. Em segundos ela praticamente evaporou. O rosto de Anne estava vermelho de novo, mas acho que não era de raiva e sim pela roupa, pois tentava esconder cruzando os braços. ― Gostei da sua roupa ― sorri de canto. ― Se veio só para devolver o guarda-chuva já pode ir ― ela se aproximou e tentou pegar ele da minha mão, mas levei-o para trás de mim. Ela bufou, já dando seus sinais de irritação. Eu não queria tirar uma fera da jaula hoje. ― Podemos conversar um pouco, Anne? ― Enfatizei seu nome com um sorriso vitorioso. ― Droga, a Yasmim me paga! ― Posso sentar? ― Perguntei ao me acomodar no sofá. Hoje eu não estava a fim de brigar, uma boa conversa seria bom. ― O que você quer afinal? ― Indagou sem paciência voltando a cruzar os braços. ― Apenas conversar, acho que nossos últimos encontros não foram muito bons ― disse seriamente e cruzei a perna. ― Foram péssimos! ― Rebateu. Não sei se ela notava, mas batia o pé no chão com impaciência. Acariciei o gato branco, a pelagem macia e brilhante. Seus olhos piscaram e ele se levantou gostando do carinho. ― Ele gostou de mim. ― passei a mão em sua cabeça. ― É uma fêmea! ― Me corrigiu, expelindo audivelmente o ar de sua boca. ― Desculpa, não percebi, não sou muito bom em diferenciar gatos de gatas ― continuei acariciando-a e quando vi ela já estava no meu colo ronronando e brincando com minha mão. ― Jessie é uma vendida! ― Anne balbuciou. Acho que ficou com ciúmes. ― Jessie? Gostei! Eu tinha um gato que se chamava Tenório... ― Ela começou a rir com a mão na boca. ― Nome mais feio ― cerrei os olhos com seu comentário. Tenório era um nome original, sempre gostei de dar nomes que não existem aos animais, isso os tornam sempre únicos. ― Podia me oferecer um café? ― Ela me encarou incrédula. ― Qual é? Vamos começar de novo. Por favor ― praticamente implorei. Anne me observou por um tempo, claramente ela não curtiu meu pedido, mas seguiu para cozinha a passos largos batendo os pés como se quisesse quebrar o azulejo do chão. Jessie continuava em meu colo apreciando minhas carícias em sua cabeça. Ela retornou com uma xícara, me entregou-a com má vontade e minha mão roçou na dela causando um pequeno choque elétrico, imagino que ela sentiu também, pois afastou a mão em reflexo. ― Obrigado! ― Agradeci com um sorriso. Café é minha bebida preferida, mas precisa ser quente e forte. Ela sentou-se um pouco distante no sofá e ficou me observando como se esperasse alguma reação, o que automaticamente me fez pensar que ela poderia ter envenenado meu café. Eu estava com medo, talvez não teria sido uma boa ideia vir em sua casa. Com cautela levei a xícara aos meus lábios e assim que o líquido tocou minha boca senti o quão doce estava. Ela se julga esperta, mas bem, não está tão r**m assim. Poderia ser pior. ― Huum!! Muito gostoso teu café ― sorri, para reforçar meu contentamento. Ela não escondeu a frustração e vibrei por dentro. Poderia ser pior se fosse sal, ela foi até boazinha comigo. Seu olhar continuava sobre mim tentando arrancar alguma expressão de desgosto. Segui tomando o café como se fosse o melhor que já tivesse tomado. ― Vai ficar quanto tempo na cidade? ― Ela perguntou me surpreendendo já que estávamos em silêncio há uns bons minutos. ― Em definitivo. O Axel aposentou-se e eu assumo daqui para frente! Era possível ver sua insatisfação com a minha declaração. ― Há quanto tempo trabalha na lanchonete? ― Perguntei por curiosidade. Precisava conversar com alguém que não fosse Jimmy ou do meu círculo de trabalho. ― Desde que me formei ― uma frase curta demais. Odiava respostas superficiais. Meu lado investigador falava mais alto e eu precisava de mais detalhes. ― Se formou em que? ― Contabilidade ― foi sua resposta. Ela mexia as mãos inquieta enquanto me observava, minha presença a estava incomodando, mas eu não estava me importando com isso. Gostei da gata, calma e ficava o tempo todo passando o focinho na minha mão. Bem diferente da dona que não queria socializar nem um pouco comigo. Alguns minutos em silêncio saboreando aquele delicioso café que nunca acabava e parecia ter um quilo de açúcar. ― E não quis trabalhar na área? ― Resolvi perguntar. Estava mais curioso agora. Ela se formou, mas trabalha numa lanchonete exercendo um trabalho cansativo e que com certeza não lhe dá um salário muito satisfatório. ― Ajudo na contabilidade da lanchonete.   Curiosamente ela parecia mais relaxada com minha presença. ― Legal! É pacato aqui, uma mudança e tanto do meu antigo trabalho ― comentei. ― De onde você é? França? Aquele dia você me xingou em francês ― relembrou o dia fatídico. ― Sim, morava em Paris, mas minha família é americana, acabei pegando um pouco do sotaque por morar muitos anos lá ― levei a mão na nuca, buscando algumas palavras para dizer. ― Sobre aquele dia, eu quero pedir desculpas, eu não sabia nada de você e também não era da minha conta o que fazia na rua pela madrugada. Fui o mais sincero que pude. Ela seguia me observando se não estava fazendo uma piada, porém me mantive sério. ― Você me ofendeu e me prendeu injustamente ― estava visivelmente magoada pelo que eu havia feito e isso estava me incomodando de certa forma. ― Injustamente não foi ― deixei claro. ― Nós nos encontramos em péssimos momentos, onde eu estava muito estressado com algumas investigações. ― Mas a culpa foi sua que não prendeu aqueles bandidos ― proferiu como se fosse algo simples. ― Não é fácil assim, envolve muita coisa e eu estava sozinho, não podia prender ninguém, correria o risco de morrer. Você apenas estava na hora errada, mas acontece ― essa constatação servia para eu deixar de culpa-la pelo fracasso da operação. ― Era só chamar a polícia! Suas respostas sempre na ponta da língua. ― Não funciona dessa maneira, envolve mais coisas do que você imagina ― argumentei, não gostando dos rumos que essa conversa levaria. ― Então você está investigando eles? Arqueei uma sobrancelha com seu interesse no meu caso. ― Estou, mas isso é sigiloso, espero que não comente com ninguém o que viu ― era um pedido cauteloso. Seria um grande problema se mais gente se metesse nisso. ― Não sou fofoqueira! Anne ficou ofendida com meu comentário. Seu rosto ficou vermelho. ― Eu não disse isso, me refiro que pode ser perigoso para você ― larguei a xícara no sofá. ― Aceita minhas desculpas? ― Mudei de assunto. Não estava disposto a falar sobre meu trabalho com alguém que m*l conheço e a expor a mais riscos do que já correu. ― Se eu te desculpar, você vai embora? Tenho que trabalhar. Ri com sua oferta de persuadir-me. ― Tudo bem ― dei-me por vencido, afinal também precisava trabalhar. ― Então está desculpado! ― Sorriu se levantando e pegou a gata do meu colo. ― Não esqueça de levar o guarda-chuva ― eu sorri de canto. Passei para o lado de fora e encarei-a mais uma vez. ― A gente se encontra por ai! ― Disse ela, desejando internamente me expulsar dali. Pisquei e lhe estendi a mão, com receio ela estendeu também e sem pensar muito levei o dorso de sua mão até meus lábios onde deixei um beijo. Observei Anne por mais alguns instantes, enquanto ela me analisava com desdém, dei-lhe meu melhor sorriso de lado e saí antes de ser expulso. Anne sinalizava como um perigo para mim e isso eu tive a certeza desde que nos cruzamos pela segunda vez. Mas quem disse que eu não gosto de perigo?
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