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1530 Palavras
Ana narrando O cheiro do Brasil me atingiu antes mesmo de eu passar pela porta automática do aeroporto. Era uma mistura estranha de calor, barulho, gente falando alto demais e aquela sensação conhecida de que tudo aqui é intenso — até o ar. Apertei a alça da mala e sorri sozinha. Dois anos fora tinham sido importantes, libertadores… mas voltar ainda fazia meu coração bater diferente. Eu estava feliz. Cansada da viagem, sim. Mas feliz. Procurei por eles no meio da multidão até encontrar primeiro meu pai. Impossível não reconhecê-lo. Postura firme, roupa cara, óculos escuros mesmo dentro do aeroporto. Ele conversava com alguém ao celular, mas quando me viu, desligou na hora. — Minha menina — disse, abrindo os braços. Abracei meu pai com força, sentindo aquele cheiro familiar que sempre me trazia uma estranha sensação de segurança. Com ele, eu sempre me entendi melhor do que com qualquer outra pessoa daquela família. — Tava com saudade — falei, sincera. — Eu também — respondeu, me olhando de cima a baixo. — Tá mais bonita ainda. Ri. — Exagerado. Foi então que senti o olhar. Verônica estava ao lado dele, impecável como sempre. Roupa justa, cabelo arrumado, maquiagem perfeita. Braços cruzados. Nenhum sorriso. Nenhuma pressa em se aproximar. — Oi, Verô — falei, dando um passo na direção dela. Ela descruzou os braços devagar e me deu um beijo rápido no rosto, daqueles frios, automáticos. — Achei que você ia ficar mais tempo lá fora — disse, sem esconder o incômodo. Engoli a resposta que veio pronta. — Eu também achei — respondi apenas. — Mas senti falta de casa. Ela arqueou a sobrancelha. — Casa é relativa, né? Meu pai lançou um olhar de advertência para ela. — Já chega, Verônica. Ela deu de ombros, como se não tivesse dito nada demais. — Tô só sendo sincera. Seguimos caminhando pelo aeroporto. Eu puxando minha mala, observando tudo com aquele olhar de quem voltou diferente. As pessoas, o idioma, o jeito brasileiro de ocupar espaço… tudo parecia mais alto, mais vivo. — Como foi lá fora? — meu pai perguntou, enquanto caminhávamos. — Foi bom — respondi. — Aprendi muita coisa. Sobre mim também. — Isso é importante — ele disse, orgulhoso. — Você precisava disso. Sorri pra ele. Com meu pai, as conversas sempre fluíam melhor. Talvez porque ele me visse como algo que precisava ser protegido… ou talvez porque eu nunca exigisse nada além do que ele podia dar. — E você? — perguntei. — Muito trabalho? Ele riu de leve. — Sempre. Mas agora com você de volta, a casa fica mais completa. Verônica fez um som baixo, quase um riso irônico. — Completa pra quem? Ignorei. Não era o momento. Nunca era. Quando chegamos ao carro, meu pai abriu a porta pra mim com cuidado, como sempre fazia. Um gesto simples, mas que dizia muito. Verônica entrou do outro lado, mexendo no celular, distante. Enquanto o carro saía do aeroporto, observei a cidade pela janela. O Rio continuava lindo, caótico, intenso. Meu coração estava leve. Eu não sabia ainda o que me esperava. Não fazia ideia das decisões que já tinham sido tomadas longe de mim. Naquele momento, eu só pensava em uma coisa: Eu estava de volta. E queria acreditar que ainda havia espaço pra ser feliz aqui. Mal sabia eu que, enquanto eu atravessava o saguão do aeroporto sorrindo… Meu destino já estava sendo decidido por homens que nunca perguntariam o que eu queria. E aquela felicidade? Era só o começo da queda. Eduardo Silva narrando A casa sempre me deu a sensação de equilíbrio. Luxo suficiente pra impor respeito. Discreta o bastante pra não chamar atenção errada. Fica em um bairro nobre, colada na Rocinha — perto o bastante do morro pra lembrar de onde vem o poder, longe o suficiente pra manter a aparência limpa. Foi exatamente por isso que escolhi esse lugar. Quando o carro parou em frente ao portão, vi Ana olhando tudo pela janela, como se estivesse reconhecendo cada detalhe depois de dois anos fora. Ela desceu com um sorriso sincero no rosto, desses que não se fingem. — Continua linda — ela comentou, observando a fachada. — Parece até que eu nunca fui embora. — Essa casa sempre foi sua — respondi, abrindo a porta pra ela. — Só tava te esperando voltar. Verônica saiu logo atrás, já mexendo no celular, impaciente. Nem olhou direito em volta. Pra ela, nada ali era novidade. Nada nunca era suficiente. Entramos. O cheiro da casa, o silêncio confortável, o piso frio sob os pés… tudo estava exatamente como antes. Vi Ana largar a bolsa no sofá e respirar fundo, como quem finalmente relaxa. — Hoje à noite a gente vai ter um jantar aqui — avisei, indo em direção ao bar. — Coisa importante. Ela virou o rosto pra mim, curiosa. — Jantar? Com quem? — Amigos. Parcerias — respondi, escolhendo bem as palavras. — Quero que vocês estejam bem arrumadas. Ana assentiu sem questionar. Sempre foi assim. Confia. Observa. Aceita mais do que deveria. — Que horas? — ela perguntou. — Oito — respondi. — Dá tempo de descansar, tomar um banho, se organizar. Verônica soltou uma risada curta. — Eu vou pro salão — anunciou, como se estivesse falando sozinha. — Não vou aparecer em jantar nenhum sem estar impecável. — Faça isso — falei. — Quero vocês duas bonitas. Ela sorriu de canto, satisfeita com a própria importância. — Pode deixar. Ana observava a irmã em silêncio. Conhecia aquele comportamento. Conhecia o jeito de Verônica de transformar qualquer coisa em competição. — Não precisa exagerar — Ana disse, num tom leve. — É só um jantar. Verônica a encarou, avaliando. — Pra você talvez. Pra mim, não. Pegou a bolsa e seguiu em direção à porta sem se despedir. Fiquei olhando por alguns segundos, depois voltei a atenção pra Ana. — Descansa um pouco — falei. — Você ainda tá com o fuso bagunçado. — Vou subir — ela respondeu. — Tomar um banho. Assenti, observando-a subir as escadas. Ana sempre teve esse jeito tranquilo, quase deslocado daquele mundo. E talvez fosse exatamente por isso que ela fosse… valiosa. Olhei ao redor da casa, sentindo o peso das decisões que já estavam em andamento. O jantar daquela noite não era social. Não era casual. Era o começo de algo grande. Algo que nenhuma das duas fazia ideia. E enquanto Ana subia sorrindo, feliz por estar em casa… eu sabia que, antes da noite acabar, tudo ia mudar. Ana narrando Meu quarto continuava exatamente do jeito que eu deixei. Abri a porta devagar, como se tivesse medo de quebrar alguma coisa invisível, e o cheiro conhecido me envolveu. Limpo. Leve. Familiar. Era estranho como aquele espaço sempre me acolhia, mesmo depois de tanto tempo fora. Tudo estava no lugar. A cama bem arrumada, os travesseiros alinhados, as cortinas claras deixando a luz da tarde entrar suave. Meu closet organizado, minhas bolsas penduradas, meus sapatos alinhados como se ninguém tivesse tocado em nada desde que eu fui embora. Caminhei até o criado-mudo. Ali estava ela. A foto da minha mãe. Passei os dedos devagar pela moldura, sentindo aquele aperto silencioso no peito que nunca ia embora completamente. Ela sorria na foto, jovem, bonita, com um olhar doce que eu só conhecia pelas histórias que me contavam. — Eu voltei… — sussurrei, quase sem voz. Fiquei alguns segundos ali, respirando fundo, antes de seguir para o banheiro. Meu banheiro também estava impecável. Toalhas dobradas, bancada limpa, meus produtos todos no mesmo lugar. Sorri. Aquilo era tão eu. Sempre precisei de tudo organizado pra conseguir organizar a cabeça também. Resolvi tomar um banho demorado. Um daqueles banhos que não são só banho — são ritual. Abri o chuveiro e deixei a água cair quente, relaxando os ombros, fechando os olhos. Lavei o cabelo com calma, massageando o couro cabeludo, sentindo cada fio escorrer entre os dedos. Depois, hidratação. Demorada. Do jeito que eu gostava. Passei sabonete cheiroso pelo corpo, hidratei a pele com creme, sem pressa nenhuma. Ali, sozinha, ninguém mandava, ninguém decidia. Era só eu. Quando terminei, me olhei no espelho. O vapor deixava tudo embaçado, mas ainda assim eu me reconhecia. Morena, cabelo preto bem liso caindo pelas costas, o corpo que sempre chamou atenção sem que eu pedisse por isso. Suspirei, mais tranquila. Abri o armário e escolhi um vestido rosa indiano, bem fresquinho. Tecido leve, solto no corpo, confortável. Vesti devagar, sentindo o pano deslizar pela pele ainda hidratada. Não era nada chamativo. Era bonito porque era simples. Do meu jeito. Peguei o celular e marquei o horário para fazer as unhas. Sempre gostei delas curtinhas. Discretas. Nada exagerado. Sempre escolhi uma cor clara, suave. Era assim que eu me sentia bem. Pequenos cuidados que me davam uma sensação de controle. Me joguei na cama por alguns minutos, respirando fundo. Eu estava em casa. Limpa. Organizada. Inteira. Nem de longe eu imaginava que, enquanto eu cuidava do meu cabelo, da minha pele, das minhas unhas… outras pessoas já decidiam o rumo da minha vida. E o silêncio daquele quarto, tão familiar e seguro, não duraria muito mais.
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