Cap 6 Júlia - Pesadelo.

1266 Palavras
Eu não queria ter que lidar com nada daquilo, mas não tive outra opção. Juntos entramos em uma sala pequena onde uma mulher acima do peso e séria nos recebeu e nos orientou sobre o que deveria ser feito. A verdade é que eu quase não entendia o que ela falava, tudo o que eu queria era sair correndo desse hospital. Minha mente alimentava a ilusão de que se eu saísse desse lugar talvez acordasse desse terrível pesadelo. Eu simplesmente concordei ou neguei com tudo que era dito baseado no jeito que o doutor Mário me olhava. De alguma forma estranha, ele me passou muita segurança nesse momento difícil e eu apenas pude seguir suas orientações. Quando a nossa conversa terminou o que tínhamos acordado é que eu ficaria sob a responsabilidade do doutor até eu completar a maioridade, coisa que acontecerá em 3 meses e depois poderia escolher o que fazer como maior de idade. Decidimos assim para que eu não precisasse passar pelo conselho tutelar e muito menos ser enviada para um lar temporário para adolescentes. Nem acreditei quando o doutor se prontificou a me ajudar dessa forma, fiquei imóvel por alguns segundos olhando para ele, pensando de onde esse homem tinha saído para estar se disponibilizando a me ajudar desse jeito depois de ter feito tanto por nós nesses últimos meses. Depois veio a pior parte, liberar o corpo da minha querida mãe. Eu fui obrigada a vê-la como parte do procedimento e isso terminou de quebrar o meu coração. Quase não consegui olhar para o seu semblante enquanto o doutor me amparava, segurando os meus braços. Por um momento fiquei em dúvida se era ela mesmo. E por fim, assinei as papeladas, seguido do doutor como responsável. —Eu sei que é difícil e que dói Júlia, então vamos fazer logo isso para irmos pra casa. ‘Casa … que casa?’ Eu nunca chorei tanto na minha vida, sem dúvidas esse foi o pior momento da minha dela até agora. Enquanto assinava as lágrimas caiam em cima das folhas dos papéis porque eu não conseguia contê-las. E para a minha sorte o doutor permaneceu ao meu lado o tempo todo, segurando o meu ombro, me apoiando sempre com muito respeito e cuidado. Nesse momento meu coração está apertado ao mesmo tempo que parece existir um vazio gigantesco dentro de mim. ‘Como isso é possível? Não faço ideia, só espero que passe logo.’ —Vocês estão liberados! Júlia, sinto muito pela sua perda. Nós dois nos despedimos da mulher e em seguida sai do ambiente sendo guiada pelo doutor andando de cabeça baixa sentindo as lágrimas rolarem com facilidade e sem impedimento no meu rosto. Eu achei que quando passássemos pelas portas do hospital a dor fosse aliviar, mas isso não aconteceu. Na verdade ela se intensificou porque a impressão que eu tinha é que estava deixando a minha mãe para trás. O doutor me encaminhou para o estacionamento, lá andamos até um carro escuro que ele abriu a porta e eu entrei no automático. Minha vontade era se encolher neste banco até sumir, mas como isso não é possível. Fui obrigada a ver a movimentação dele entrando no carro, se virando para mim, se inclinando sobre o meu corpo para pegar algo que no primeiro momento eu não entendi até ouvir o seu pedido feito com muita gentileza: —Aqui Júlia, vamos colocar o cinto, por favor. Eu nem me mexi, só senti a fivela sendo passada diante do meu corpo e em seguida ouvi o som do clique da trava indicando que eu estava presa. Triste, virei o rosto para a janela pensando em como minha vida seria sem a minha mãe de agora em diante sentindo as lágrimas quentes rolando. Em pouco tempo o carro entrou em movimento e eu comecei a ver as coisas passando e ficando para trás, e só aí eu percebi que já estava escuro. Então passei as mãos no rosto para limpar meus olhos e olhei para o céu com a intenção de falar com Deus mas meus olhos se fixaram na lua enorme e as estrelas que estavam próximas, o que me fez pensar: ‘Como é possível um céu tão bonito em uma noite tão triste?’ Então me lembrei que quando era criança imaginava que em dias de luto o tempo ficava feio, cinza, escuro, com chuvas fortes, raios, trovões, mas hoje entendi que não era isso que geralmente acontecia. Isso me fez prestar atenção nas pessoas que passavam e pareciam felizes e mais uma vez quis apenas ser como elas. Nesse momento isso não me pareceu possível, então voltei a chorar silenciosamente. Não sei quanto tempo demorou, mas em determinado momento o carro parou de se mover e o doutor falou: —Chegamos Júlia! Só aí notei que estávamos parados diante de uma linda casa branca, rodeada pelo o que parecia ser um jardim muito bem cuidado que as luzes baixas não me permitiam ver com clareza. —Vamos… você precisa descansar! Ele saiu do carro enquanto eu me preparava psicologicamente para segui-lo, e quando pensei em abrir a porta, ela se abriu e eu vi sua mão estendida enquanto me olhava. Um pouco intimidada a segurei e em seguida sai do carro e foi aí que eu percebi que a casa é realmente enorme. Com carinho, ele voltou a segurar logo abaixo dos meus ombros, me encaminhando para entrar na residência. Enquanto caminhávamos, a casa parecia crescer diante de mim, me fazendo sentir ainda menor enquanto eu ficava perplexa com a opulência que ela é. Eu nunca tinha visto nada tão lindo de perto e não estava acreditando que passaria a noite em algo desse tipo. —Seja bem vinda Júlia! Espero que sinta-se em casa. O doutor abriu a porta falando, mas tudo o que eu consegui fazer foi prestar atenção no que meus olhos começaram a ver. ‘Nunca tinha visto tantas coisas bonitas juntas.’ Nós entramos em um ambiente com um tapete vermelho no chão que leva até uma escadaria. Nas paredes tem alguns quadros abstratos com cores quentes espalhados e do lado direito, perto da porta tem um cabideiro na parede onde o doutor pendurou seu terno e um banco onde ele deixou sua pasta. Eu ainda olhava as coisas quando uma senhora se aproximou nos cumprimentando: —Boa noite senhor, senhorita. —Boa noite, dona Vânia. Quero te apresentar a Júlia, ela ficará conosco por um tempo. —Prazer em conhecê-la, menina. Eu não sabia o que pensar ou falar então apenas concordei abaixando a cabeça sentindo meus olhos arderem com a vontade de chorar ao lembrar das inúmeras vezes que minha mãe me chamou de menina, chegando a conclusão que isso não se repetiria mais. —Dona Vânia hoje foi um dia difícil, a Júlia precisa descansar um pouco. —Claro senhor, o quarto já está arrumado. Onde estão as coisas dela para que eu possa mandar levar para o quarto? Nessa hora, percebi. Não tinha trazido nada. ‘Como vou fazer? ’ Olhei para o doutor sem saber o que falar e ele percebendo a minha reação sorriu minimamente respondendo: —Não tivemos tempo para pegar, mas vamos dar um jeito. —Claro senhor, vou mostrar o quarto à menina. Assim a senhora caminha a minha frente e nós dois a seguimos em silêncio e mais uma vez eu começo a prestar atenção no ambiente ao meu redor se dando conta que essa casa deve ser pelo menos umas 15x maior que a casa que eu morava. ‘Quantas pessoas devem morar aqui?’
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