Elijah sabia que Ayla estava assustada; o rosto dela era transparente, e havia naquele olhar uma força e uma fragilidade que pareciam dançar em um ritmo próprio, uma dança que ele adoraria encerrar.
Ele ainda se lembrava do dia em que a conheceu. Ela era uma mulher diferente de qualquer outra que ele já tinha visto. Um lenço de seda cobria parte dos cabelos. Apesar do calor texano, estava ali para definir a vida do sogro dele. Na época, Elijah estava casado com Aurora, a filha de Caio Fortuna, ninguém menos do que um traidor.
Foi assim que terminou casado, chantageando o sogro. Na época, acreditava que podia comprar a felicidade, mas não conseguiu. O coração de Aurora pertencia a outro homem, alguém que Elijah desprezava e que agora era seu líder. Rodolpho se tornou o padrasto de seu filho, marido de Aurora e atual subchefe da máfia na qual Elijah havia nascido.
Ele ainda tinha dificuldade em aceitar a liderança do homem que ficou conhecido como Devoto. Para ele, o atual subchefe era uma vergonha, alguém nascido fora da organização, sem história e que jamais havia dado nada pelo que acreditavam.
No entanto, o universo prega suas peças, e foi justamente alguém que ele considerava inferior que levou dele tudo o que havia almejado: o casamento idealizado, o seu primogênito, que era grudado ao padrasto, a liderança que achou que um dia exerceria e o carinho do sobrinho, que nem mesmo sabia existir.
Apesar de todas as derrotas, conheceu Ayla, a israelense que era conhecida por todos na organização como a “mulher do contador”.
Ela foi a única que ficou ao seu lado quando absolutamente todos lhe viraram as costas, inclusive Aurora. Contudo, não foi por isso que Elijah se apaixonou. Havia algo em Ayla que o atraiu desde o dia em que a viu: a forma como ela andava, a voz suave, uma feminilidade que transcendia sua beleza. Sim, ela era assustadoramente bonita, mas, apesar de escondida em roupas largas, os cachos que escapavam sob o lenço o faziam pensar em como gostaria de vê-la inteira, mas também o lembravam que Ayla ainda tinha alguém em seu coração. Ele se lembrou, enquanto dirigia, de como ela falou sobre Marco.
— Ele me achava uma menina boba e sem graça; era tão inteligente e bonito que só de estar perto dele me fazia feliz.
Elijah sentiu aquelas palavras, na época não porque soubesse o sentimento que nasceria em seu peito, mas porque desejαvα que alguém, um dia, pudesse pensar nele daquela maneira.
Olhou para a estrada e fixou o pensamento no que tinha decidido fazer: levar Ayla para conhecer um pouco do mundo que ele escondeu a vida toda.
Cresceu na máfia, aprendeu a ser o que esperavam que ele fosse, mas o que lhe fazia feliz, Elijah abria para poucas pessoas, tão poucas que poderia contar nos dedos. O desafio que Ayla lhe fez ainda ecoava em sua mente.
— Quero saber quem você é... O homem da máfia, cercado de poder e riqueza, ou o peão que se senta no chão e come com os empregados? Posso respeitar a ambos, mas só posso amar um.
Ainda não tinha certeza de qual das suas faces a israelense seria capaz de amar, mas decidiu mostrar a verdadeira. Pela primeira vez na vida, escolheu não se envergonhar de quem era.
Dentro do carro, levava a família da israelense: o jovem Joshuá, que não reagiu bem ao perceber que a aproximação de Elijah tinha interesses além da amizade, e Eva, a caçula de Ayla, uma garota tão bonita quanto a mãe e doce como as tardes ensolaradas em seu rancho.
Pensava que seria uma luta difícil de travar, mas pretendia conquistar cada um deles. Ele se lembrou de um conselho que ouviu:
— ‘Se a quiser, conquiste-a da única forma que um homem de verdade pode fazer.’
Torceu para que os seus planos, ao menos dessa vez, estivessem dentro do que um homem de "verdade" faria.