Capítulo 5 - Encontros surpreendentes

1243 Palavras
Lucian nunca acreditou em destino. Aquele tipo em que o universo alinha sua vida como uma comédia romântica brega ou alguma piada sem graça. Não, Lucian acreditava em controle, era frio, calculado, inabalável. As pessoas o chamavam de implacável. Calculista. Gélido. Ótimo. Que o digam. Isso mantinha tudo, e todos, exatamente onde ele queria... fora do seu caminho. O que tornava ainda mais irritante o fato de ela continuar aparecendo. Era o primeiro dia em que a via novamente, completamente por acaso. Lucian se encontrava no corredor de refrigerados de um supermercado em Londres, um moletom preto liso jogado sobre a cabeça, óculos de sol enfiados na gola, não exatamente sua cena habitual. Mas negócios eram negócios, e Nico estava o importunando para que ele experimentasse leite de amêndoas para a startup de tecnologia de bem-estar da holding deles. A obsessão de Nico por tudo relacionado à saúde e tecnologia era ao mesmo tempo admirável e irritante pra caramba. Lucian grunhiu enquanto examinava a prateleira, a luz artificial zumbindo sobre sua cabeça causando-lhe uma dor de cabeça latejante. E então ele ouviu. Aquela voz inconfundível, confiante em seu murmúrio de uma forma que ele jamais conseguiria. "Ok, por que todos os pepinos estão tortos? Isso é uma metáfora para a minha vida amorosa ou algo assim?" Ele olhou de soslaio e congelou. Lá estava ela. Aurora. Cabelo um emaranhado caótico preso em um coque que parecia prestes a desmoronar a qualquer segundo. Uma jaqueta enorme a engolfava por completo. Meias desparelhadas aparecendo por baixo de tênis surrados. Ela estava discutindo com um pepino como se fosse um inimigo pessoal. Seus lábios se curvaram num sorriso perigosamente próximo ao divertimento. Ela não era uma mulher qualquer, ela era ela. Aquela que derrubou seu mundo cuidadosamente construído e deixou um rastro de caos colorido para trás. Ele deveria ter continuado andando. Mas não. Em vez disso, ele ficou parado como uma estátua, observando-a pular na ponta dos pés, tentando alcançar um pote de tahine que estava em uma prateleira, um pouco além de seu alcance. "Por que colocar tahine aí? O que, eles esperam que eu seja o Shaquille O'Neal ou algo assim?", ela murmurou. Lucian suspirou. Um suspiro que significava que ele estava prestes a intervir, quer quisesse ou não. Ele se aproximou e pegou o pote da prateleira sem esforço. Ela se virou, surpresa. "Ah! É você!" Ele assentiu brevemente. "Espere. Você faz compras no supermercado? Isso é permitido para alguém como você?" Ele ergueu as sobrancelhas para ela. Ela deu um sorriso irônico, sem se impressionar. O olhar dele se desviou para o carrinho transbordando dela, uma mistura bizarra de cinco marcas diferentes de cereal, ovos orgânicos e uma quantidade alarmante de molhos picantes. "Você vive como um personagem de desenho animado", disse ele secamente. Ela retrucou: "E você se veste como um personagem de James Bond, Sr. Sério." O canto da boca dele se curvou levemente para cima; ele jamais admitiria que aquilo o havia alegrado. Antes que ela pudesse responder, uma criança próxima tropeçou, fazendo com que uma cesta de laranjas rolasse pelo corredor e uma certa laranja caísse rapidamente em direção aos seus pés. Ela não percebeu. Mas Lucian percebeu... como sempre. Sem hesitar, sua mão se estendeu e agarrou seu braço, impedindo que ela escorregasse no chão liso. "Oh!" Ela olhou para baixo, assustada. "Uau. Obrigada." Ele soltou o braço dela imediatamente. "Cuidado onde pisa, princesa." E então ele se virou e foi embora, deixando-a olhando para ele como se fosse alguma criatura mística cuja existência ela duvidava. ------------------------------------------------------------------ Dias depois, Londres estava como sempre, encharcada de chuva e cinzenta. O tipo de Londres que Lucian adorava. Ele caminhou com ar de poder até seu lugar de costume. Em dias como aqueles em Londres, havia menos gente na rua. Lucian não se queixava. Menos turistas, imprensa e pessoas em geral. Soltou um suspiro de alívio ao entrar em uma pequena livraria quase escondida no Soho, sem vitrines chamativas, sem multidões, apenas fileiras de livros empoeirados e o cheiro de couro usado. Ele gostava dali. Era um santuário longe do trabalho e dos irritantes paparazzi. Percorreu os corredores, os dedos roçando as lombadas dos livros que costumava ler. História. Boxe. Economia. Qualquer coisa que mantivesse sua mente ocupada. Logo pegou um livro que lhe chamou a atenção e começou a se perder em suas palavras. Até que ouviu aquela voz novamente. "Eu juro, ou eu estou amaldiçoado, ou você está amaldiçoada, ou o universo tem um senso de humor doentio." Aurora estava parada na porta, o guarda-chuva pingando, as bochechas coradas pelo frio, o cabelo úmido e despenteado. Ela cruzou o olhar com o dele. "Você mora aqui? Porque se mora, preciso evitar este lugar para preservar minha sanidade." Ele não respondeu. Ela se aproximou, com as sobrancelhas arqueadas. "O que você está lendo?" Ele inclinou o livro para que ela pudesse ver: Uma História do Boxe. "Ah. Faz sentido, na verdade. Socar coisas provavelmente ajuda a manter essa 'imagem sem emoção'." Ele a encarou, impassível. "Você fala por duas pessoas." Ela sorriu, dando-lhe um leve empurrão com o ombro. "Fico lisonjeada." Então, o inevitável aconteceu. Sua bolsa escorregou novamente. A alça de couro gasta prendeu em uma prateleira próxima, e seu diário caiu com um baque s***o, as páginas se espalhando pelo chão como folhas soltas. Ela saiu. Rapidamente, ajoelhou-se atrás da bolsa, tentando juntar suas coisas o mais rápido possível. Mas, é claro, Lucian foi mais rápido. Ele se abaixou primeiro, pegando uma folha solta. Era um desenho, uma tulipa, esboçada com lápis e tinta delicados. "Por favor, não... isso não é para mais ninguém", disse ela rapidamente, agachando-se ao lado dele, com as bochechas coradas. Ele não a devolveu. "Você desenhou isso?" Ela assentiu timidamente. "Terapia. Ou procrastinação. Depende do dia." "Lindo", disse ele baixinho. Ela corou ainda mais, abrindo a boca e, pela primeira vez... hesitando... "Você pode ficar com esse, se quiser. Se não for ruim." Ele dobrou a folha cuidadosamente, como se pudesse rasgar, e a guardou no bolso do casaco. "Não é r**m", repetiu ele. Sem dizer mais nada, ele se virou e saiu. De novo. ------------------------------------------------------------------ A semana se arrastou com reuniões intermináveis ​​e pressão demais. Os amigos de Lucian, Matteo, Rafe, Dante e Nico, lidavam com o estresse enquanto administravam seus próprios negócios. Matteo, seu melhor amigo e provavelmente o único que realmente o tirava do sério, mandou uma mensagem que era meio provocativa, meio preocupada como irmão. Rafe, o silencioso e inteligente demais, deixou vários arquivos com complexas avaliações de risco. Dante, o fofoqueiro do grupo, ligou duas vezes: uma reclamando de um encontro desastroso, outra contando o último escândalo que viu no i********:. Nico, sarcástico, mas enérgico, mandou um meme sabendo exatamente o quão perto Lucian estava do limite... i****a. Lucian ignorou todos e ficou sozinho em seu escritório com paredes de vidro, a cidade brilhando atrás dele, ainda mais desperta do que ele. Ele tirou o rosto das mãos e deixou o olhar repousar sobre a pequena moldura prateada que repousava silenciosamente em sua mesa. Dentro? O desenho da tulipa. Ninguém mais sabia que estava ali, nem a imprensa, nem mesmo seus amigos, e ele gostava disso. Aliás, ele adorava. Observou-o por mais um instante, balançando a cabeça. Não era fraqueza... era... era algo mais. Algo real. E para um homem construído sobre ambição e silêncio, o real era a coisa mais rara de todas.
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