2. Um Trabalho a Ser Feito (I)

1199 Palavras
BERNARDO Dia cheio. Mas já era costume, embora Albuquerque não fosse campeã em violência as poucas incidências que tinha, adicionada às doenças que apareciam, rendiam um bom dia de correria no hospital. Estava perto de encerrar o plantão, havia ficado ali desde ontem de manhã. Era meu hábito r**m de estimação ficar de plantão quase sempre, afinal, era solteiro e não tinha muito que fazer em casa, trabalhar era minha maior distração e meu maior prazer. — Doutor Persson, contusão na ala três. — disse a enfermeira, me passando o prontuário. — Obrigado, Claire. — Peguei a prancheta, avaliando o raio-x. — Está atrasado! — Sorriu caminhando apressada. — Quase saindo! — gritei para que ela ouvisse. A escolha de ser médico veio da minha família. Meu pai era cirurgião e empresário e minha mãe, cardiologista. Ambos moravam em Boston e, apesar de extremamente ricos, não me importava com isso, preferia desfrutar da riqueza do meu próprio trabalho. Montei o hospital quando estava no fim da residência, desde então, só soube dos meus pais por telefonemas e cartões postais, não tínhamos os mesmos objetivos. Para eles era dever do único filho assumir os malditos "negócios da família" — coisa para qual não levava o mínimo jeito — isso sempre gerou atrito entre meu pai e eu, a ponto de não conseguimos ficar na mesma sala por mais de dez segundos sem desencadear uma discussão. Não gostava do estilo patriarcal/matriarcal da minha família, sempre inserida no século XXI com costumes do século XV. — Não está quebrada, para sua sorte. Vai ficar enfaixado por duas semanas e você pode ir pra casa assim que terminar. A ala de ortopedia é por ali, Carl, leva ela, por favor. — Pois não, doutor. — Estou de saída! Deixei o hospital, exausto, na minha mente só tinha banho e cama. E, claro, não poderia recusar a boa comida caseira da Gina, minha quase "babá". Ela era uma senhora simpática que cuidou de mim desde que nasci, ou quase isso. Ficou comigo quando decidi permanecer em Albuquerque e, apesar do meu pai querer levá-la para Boston, foi quase uma exigência da minha mãe sua permanência. No fundo, ninguém cuidava de mim melhor que a Gina, mas ela não morava comigo, tinha filhos dos quais cuidar. Em parte era por isso que não gostava de ficar muito em casa. O tédio engolia a mente solitária e não fazia o tipo baladeiro de ficar com uma mulher a cada semana. Avistei meu carro no estacionamento e não consegui resistir a um leve sorriso de satisfação ao entrar nele. O hospital ficava pelo menos uma hora e meia da minha casa, morava em um bairro um pouco afastado do centro, apreciava a tranquilidade da minha — devo confessar — vida meio sem graça. Mas não me incomodava mais, já virara uma rotina a qual era completamente adaptado. Quando virei à esquina há poucos quarteirões de onde morava, avistei-a. Estava caída, inconsciente, sobre uma calçada; pelas roupas era impossível ser uma moradora de rua, algo muito raro por aquela região. Parei o carro e corri até ela, os longos cabelos loiros estavam encharcados de sangue do ferimento f**o, mas por sorte não era grave, se fosse um traumatismo ela estaria morta. Havia também um ferimento profundo nas costas e esse me preocupada, pois podia ter afetado algum órgão vital. Coloquei os dedos no pescoço para sentir a pulsação, fraca, mas estava viva, para mim já era o bastante. Liguei para o hospital. — Inês, mande uma ambulância para Rua 25 com urgência. — Sim doutor. Quando usava a palavra urgência era o bastante para a ordem ser seguida nos próximos segundos e não demorou muito para a ambulância chegar. Cada segundo era precioso se tratando de uma vida e não sabia a quanto tempo aquela jovem estava ali sem socorro. Quando os enfermeiros a colocaram na maca para que pudesse fazer os primeiros socorros, observei-a melhor. Parecia bem jovem, pele suave e levemente bronzeada, rosto redondo, lábios pequenos e carnudos. Meneei a cabeça, me livrando da repentina hipnose, e fiz o meu trabalho junto à equipe, após o primeiro atendimento levei-a ao hospital sob minha própria responsabilidade. Alguns exames para avaliar o estado e logo encaminhei para cirurgia, o corte estava a mais ou menos um palmo da nuca, não dava para identificar o que foi usado para causar, mas deduzia ter sido uma barra de metal. O outro corte ficava na altura do pulmão, dado por trás na intenção de ser fatal, os sinais de hemorragia interna me diziam que o pulmão ou diafragma havia sido comprometido, a cirurgia durou duas horas. Havia também grande dose de anestésico em seu corpo, ela tivesse sido dopada. Quando enfim a estabilizei, comecei a pior parte após a cirurgia: a espera. Não podia dizer se ela acordaria ou se sua recuperação seria um sucesso apesar do sucesso da cirurgia. — Os sinais estão estáveis, levem-na para UTI particular e, Alice, fique de observação. — Sim doutor. — Vou em casa rapidinho e depois volto para ver como ela está. Deixei a minha paciente misteriosa aos cuidados da minha enfermeira chefe mais competente. Alice fora uma das primeiras a me apoiar quando montei o hospital em Albuquerque. Uma amiga muito querida. Dirigi até em casa, pensativo, quem seria aquela garota e como chegara ali? Provavelmente alguém a tinha deixado lá. Pela gravidade dos ferimentos deveria estar desacordada a várias horas e, caso tivesse ficado consciente — o que duvidava por causa do anestésico — não teria conseguido dar sequer um passo. Estacionei na frente de casa, já que pretendia voltar ao hospital. Fui recepcionado pelo cheiro delicioso da comida de Gina, sorri e caminhei a passos calmos até a cozinha na tentativa de surpreendê-la, estava de costas para a porta virada para o fogão mexendo uma panela, me aproximei e abracei-a por trás sentindo o tremor do seu corpo em consequência do susto. — Menino! Quer me m***r do coração?! — Riu. — Saudades? — Beijei seu rosto com carinho. — Pensei que não vinha mais, passou o dia todo no hospital desde ontem, precisa dormir! Você é médico, devia saber que dormir é importante pra saúde! — Repreendeu-me com doçura. Não contive o riso diante da "bronca". — Ah, Gina, não seja tão dura! — Brinquei. — Eu dormi um pouco no hospital, não estou tão cansado, é o costume. — Não gosto nada disso! Vamos, vá tomar um banho que o almoço tá quase pronto, fiz os pratos que você mais gosta! — Que ótimo, estou morrendo de fome! Passei um dia e meio a base de salada e cappuccino! Subi as escadas devagar, parei um segundo olhando para um dos quartos vazios no corredor, ficava ao lado do meu, tinha uma decoração clássica, diria até moderna, fitei-o por um tempo deixando as ideias fluírem em minha mente. eixei Por um instante o rosto daquela paciente veio à minha cabeça e não conseguia distinguir se era encantamento ou curiosidade me ligando a ela de tal maneira que não conseguia tirar seu semblante do pensamento. Mas uma coisa era cem por cento certa: Eu queria — e iria — salvá-la.
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