Pedi a Stuart que realizasse os exames e ele concordou em fazê-lo sem me encher das perguntas permeando seus pensamentos, ele a atendeu com a ajuda de Emily, Geovana parecia ficar tranquila quando ela estava presente, quando se alterava, Emily fazia sua mágica para mantê-la estável de modo que não teve uma grande dificuldade em responder as perguntas feitas, apesar de não saber a resposta para a maioria delas; não se lembrava de nada da sua vida, quem era, onde morava, como fora parar ali, se tinha família, nada. Levaram dois dias para os resultados ficarem prontos e, quando os recebeu, ele me chamou para conversar.
— O que você acha? — inquiri. — Não entendo muito de coma e funcionamento cerebral, você sabe, então me diga se ela tem alguma chance de recuperar as lembranças porque confesso que estou ficando louco com isso tudo.
Ele não respondeu logo. Ficou um tempo olhando os papéis sobre a mesa e, por fim, levantou-se e acendeu a luz do leitor de raio x.
— O coma é um estado de alteração do nível de consciência. O grau de interação com o ambiente e com si mesmo reduz de acordo com a gravidade do quadro — explicou. — A pessoa não responde aos estímulos externos. O córtex está inibido nesses casos de modo que o paciente não consegue estabelecer conexão com o mundo, isso, Persson, é uma agressão ao sistema nervoso central e faz com que as funções de manutenção da vigília diminuam. Não sei qual a escala no caso da sua amiga, mas se ela ficou assim por apenas um mês presumo que tenha sido de 12 a 15 na escala Glasgow.
Assenti, estudamos um pouco sobre na residência, mas não era minha área de especialização. Em seguida, Stuart apontou para os raios tirados da cabeça de Geovana.
— Você pode considerar o que aconteceu com a sua amiga um milagre — disse. — Na situação que vi o prontuário, ela sequer devia estar viva a essa altura. Casos como o dela, causados por um trauma, um acidente, têm chances maiores no período de um ano, no entanto ela acordou com a mesma velocidade de um caso não traumático, não sei qual o pacto dela com o universo, mas ele definitivamente a quer viva.
— Mas cobrou um preço meio c***l por isso, não concorda? — Minha voz soou mais dura do que pretendia.
— A mente humana é um mistério mesmo para nós que tentamos desvendá-la há anos, Bernardo. — Ele voltou para sua cadeira e pareceu analisar alguns dos exames. — Quanto mais a pessoa ficar nesse estado, maior a lesão no cérebro e menores são as chances de sair dele, por isso pode considerar o caso da sua amiga como milagroso ou como uma exceção. O eletroencefalograma não mostrou um dano permanente no córtex e nos hipocampos, o que posso dizer é que a amnésia dela se encaixa em um quadro que chamamos de retrógrado, ela perdeu as lembranças posteriores ao que quer que tenha acontecido com ela.
Tentava absorver ao máximo a explicação dele, havia visto algo sobre aquilo nos últimos períodos da faculdade, mas coisa muito breve. Porém, aquela situação não era nada boa, o que tinha nas mãos era uma jovem sem qualquer lembrança sobre si mesma e vulnerável a qualquer pessoa.
— Contudo, vi aqui que não foi apenas um trauma na cabeça, ela também foi drogada. O uso de drogas ou sedativos pode causar perda da memória também, então fica difícil dar uma causa primária, se foi o choque ou a d***a, ou ainda pior, a combinação dos dois. A área hipocampal CA1, que é essencial para a memória, não foi gravemente lesionada como pude atestar nos exames, contudo, é difícil entender as particularidades da mente de cada paciente. Conversando com ela, me disse que havia imagens que não se conectavam e não conseguia ligar a si mesma, isso pode me dar uma pista, talvez as memórias que ela perdeu, pelo menos algumas selecionadas, tenham sido bloqueadas da sua mente por alguma espécie de episódio traumático. Se ela conseguir desbloquear essas memórias, achará a chave que abre suas outras lembranças.
Fiquei pensativo por um tempo tentando absorver as informações de Stuart, ele era o neurocirurgião e cientista mais talentoso do estado, conseguir que viesse trabalhar no hospital foi quase uma guerra travada com todos os outros hospitais do país, ainda assim, graças a Clark e suas conexões conseguimos trazê-lo para nossa junta médica. Fazia sentido o que ele dizia, alguém havia tentado m***r aquela garota, ela pode ter bloqueado a memória desse momento numa tentativa de se proteger do trauma.
— O que recomenda? — inquiri.
— Paciência. — Ele largou os exames. — Vou indicar qualquer tipo de atividade que a faça se sentir bem, é preciso deixar que ela se recupere e estimular a memória dela por si mesma. Não sabemos nada sobre ela e isso dificulta um pouco as coisas, se pudéssemos entrar em contato com os familiares ficaria mais fácil encontrar caminhos para estimular suas memórias a ressurgirem, com a falta disso, acho que a doutora Swan e eu precisaremos vê-la uma vez ou duas na semana para tentar ver o que funciona e o que não.
— Imaginei isso — suspirei frustrado. — Nesse passo, a última coisa que posso fazer é leva-la para uma delegacia e submetê-la ao estresse de um milhão de perguntas que ela não vai poder responder.
— Eu não aconselharia. — Riu.
— Obrigado por isso, Stuart, vou agendar as consultas dela com a sua secretária e a de Emily.
— O que vai fazer com ela? — Quis saber ele, curioso.
— Ajudá-la a recuperar as lembranças, o que mais? — Sorri abrindo a porta. — Afinal, eu a encontrei, não é? Nada mais justo me responsabilizar por isso.
Deixei a sala com a sensação de frustração corroendo meu peito, em breve precisaria dar alta a Geovana e o que faria a seguir — apesar de parecer muito óbvio — ainda me enchia de incertezas. Contudo, não era como se eu tivesse um milhão de opções considerando o estado que ela se encontrava, submetê-la ao estresse de uma investigação não era aconselhável, larga-la sozinha num hotel tampouco. Parei por um momento na minha sala e tentei me pôr no lugar dela, sem saber nada a respeito de mim mesmo, sem saber em quem poderia ou não confiar.
— Bernardo? — Alice bateu uma vez antes de entrar na sala.
— Oh, oi, Alice — cumprimentei-a distraído. — Algum problema?
— Emily pediu que fosse vê-la quando puder — anunciou, mas parecia reticente como se receasse me dizer alguma coisa.
— E? — instiguei-a.
— Queria te perguntar o que Stuart disse sobre os exames da Geovana — disse, sem jeito. — Sei que você estava na sala dele e pelo modo como saiu de lá desconfio que não foram boas notícias.
— Bem, não foram ruins também — suspirei. — Só estou vendo como vou fazer as coisas daqui pra frente. Tudo já estava previamente pronto, mas confesso que não esperava o rumo que as coisas tomaram, estou um pouco preocupado.
— No seu lugar acredito que qualquer pessoa estaria. —Sorriu, solidária. — Só que você não está sozinho nessa, Bernardo. Vamos ajudar como pudermos.
— Eu sei, Alice e agradeço muito por isso. — Forcei um sorriso. — Stuart disse que é preciso ter paciência. Ele e Emily vão consulta-la periodicamente para ver possíveis gatilhos que desbloqueiem a memória dela, quanto menos pressão, mais chances.
— Em outras palavras: sem polícia no meio.
Anuí. Havia muitas coisas a considerar a partir daquele ponto, precisava ser cuidadoso com cada decisão que tomaria.
— Vou ver o que Emily quer, passe meus pacientes de hoje para Deryl — pedi erguendo-me e recolocando o crachá com o qual brincava quando ela entrou. — Ah, mais uma coisa, agente os horários das consultas de Geovana com as secretárias de Emily e Stuart, de preferência em sessões conjuntas.
— Okay, cuido disso.
Saí da sala e segui até o elevador, naquele andar as coisas eram muito mais tranquilas, não havia o vai e vem de macas e enfermeiros que dominava os demais andares, o elevador estava vazio e enquanto descia para o terceiro piso me pus a pensar como seriam as coisas dali em diante. Uma bagunça, certamente, disse a mim mesmo surpreendendo-me com o fato de que, mesmo assustado, a possibilidade me fazia sorrir.