16. Perdida (IV)

952 Palavras
Não percebi ter gritado ou estar chorando até o rosto da psicóloga tomar o meu campo de visão e quebrar o contato com o quadro. — Tudo bem. — Ela segurou as minhas mãos mantendo a minha atenção no seu rosto. — Você está segura, está tudo bem. — Geovana? — O neurologista chamou ganhando a minha atenção. — O que você viu? Esse quadro desencadeou alguma imagem na sua cabeça, não foi? Não respondi. Meu corpo inteiro tremia, minha cabeça doía e não sabia distinguir as imagens ou mesmo validá-las como reais. Diante do meu silêncio, talvez para quebrar um pouco o clima pesado na sala, ele começou a contar uma pequena história enquanto Emily pegava um copo com água para mim. — Encontrei esse quadro num passeio que fiz a Paris — começou, a voz baixa enquanto me observava com atenção agora dobrada. — A primeira vez que o vi, numa galeria simples de jovens artistas anônimos, ele me causou uma interessante sensação de raiva. Num primeiro momento não conseguia entender a razão, por isso decidi comprá-lo. Quando o observei sozinho, no quarto de hotel, por um bom tempo, me dei conta da razão de ele ter me despertado aquela emoção, está vendo aquelas manchas pretas de tinta? Elas lembraram-me do asfalto no dia que o meu irmão Kevin foi atropelado por um motorista bêbado, as marcas dos pneus na blusa azul dele vieram-me à mente ao olhar aquelas manchas. — Então por que decidiu pendurá-la aqui? — questionei, confusa. — Cada pessoa, Geovana, tem na mente um milhão de memórias dos mais diversos tipos — explicou. — Você não consegue se lembrar de quando era um feto na barriga da sua mãe, por exemplo, mas essas memórias estão aí na sua mente, guardadas em um canto que você apenas não sabe como acessar. Há muito que não se sabe ainda sobre o funcionamento cerebral, cada pessoa que entra nessa sala tem uma reação diferente quando olha para essa pintura, gosto de avalia-las a partir desse ponto, uma única cena que essas cores são capazes de evocar pode dizer muito a respeito do problema com o qual tenho que lidar com aquele paciente, consegue entender? — Acho que sim... — Nesse instante levantei meu olhar para ele e o médico me sorriu. — Então, pode nos contar o que você viu? — pediu, calmamente. — Está tudo bem, Geovana — disse Emily — só estamos tentando encontrar maneiras de ajudar você a recuperar suas memórias. — Sangue — respondi com um tom de voz bem baixo. — Vi muito sangue e um homem. — O sangue era dele? — Emily questionou. — Sim — assenti. — Ele estava morrendo... tentava dizer alguma coisa para alguém, mas eu não podia ouvir o que era. — Você se lembra de ter visto essa imagem antes? — Stuart indagou fazendo algumas anotações. — Vagamente... durante o coma talvez, antes de acordar a primeira vez, não consigo me lembrar ao certo... — Tentava parar de tremer, mas era impossível, falar daquelas imagens me deixava nervosa mesmo que não soubesse a razão. — Eu não reconheço esse homem, não sei por que ele estava morrendo e não sei que lugar é aquele. — Tudo bem, não precisa ficar inquieta. — Emily afagou meu braço. — Tome mais um pouco de água, sim? — Então, o quadro desencadeou uma lembrança consciente do seu inconsciente. — Novamente, não era uma pergunta. — Sabe, H.P. Lovecraft escreveu uma vez em O Modelo de Pickman que “só um artista de verdade conhece a fundo a anatomia do terror ou a psicologia do medo — o tipo exato de linhas e proporções que se ligam a instintos latentes ou memórias hereditárias de pavor, e os contrastes e a iluminação que despertam o sentimento de estranheza adormecido.” Todas as respostas que você procura, Geovana, estão alojadas aí dentro da sua cabeça, mas você precisa de treino e paciência para acessá-las, assim como esse quadro engatilhou uma imagem, outras coisas podem engatilhar o surgimento de novas memórias até então adormecidas. — Eu e o doutor Stuart vamos auxiliá-la nesse percurso de redescobrir essas memórias, está bem? — complementou Emily. — Mas para que isso aconteça precisa confiar em nós. Acha que consegue fazer isso? Anuí. Mais que qualquer coisa queria ter de volta as memórias que perdi, descobrir o que havia acontecido comigo. O porquê por trás de toda aquela confusão. — Inicialmente, quero que faça alguns exames. Preciso ver o que foi lesionado, se houve algum tipo de alteração nas áreas membranosas do cérebro, enfim, coisa de rotina pra que possa avaliar como as coisas andam fisicamente por aí. Tudo bem? — Pode deixar que eu requisito ao Persson. — Ofereceu Emily. — Diga a ele que mande-os direto para mim e, quando avalia-los, mandarei chama-lo para que programemos o tratamento. — Ele entregou uma receita para a doutora Swan. — Enquanto isso, Emily, gostaria que você trabalhasse um pouco com ela. — Pode deixar comigo. — Emily sorriu levantando-se. — Foi um prazer, Geovana. — O doutor Stuart ergueu uma mão que apertei com timidez. As mãos dele eram macias tanto quanto bonitas. — Nos veremos novamente em breve. — Obrigada, doutor Stuart, por tudo. — Sorri. — Força, certo? Não desista. Emily empurrou a cadeira de rodas para fora do consultório e não sabia como estava me sentindo, contudo, havia no meio do caos um sincero sentimento de esperança. A conversa com o neurologista me deu uma perspectiva diferente com relação ao meu problema e as minhas memórias perdidas, sentia que, se tentasse com afinco, elas poderiam voltar. E eu tentaria até exaurir todas as minhas forças.
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