A casa estava mergulhada num silêncio que eu não ouvia fazia tempo. Nem o som do rádio da boca, nem o burburinho da rua, nem os gritos lá fora… só o barulho miúdo da chuva batendo na janela. E o respirar dela. Serena dormia na minha cama — pequena, encolhida, perdida no meio dos lençóis e dos travesseiros como se fosse um pedaço esquecido do mundo. O cobertor subia e descia devagar, no ritmo da respiração leve, quase tímida. Às vezes, ela se virava, e uma mecha do cabelo escuro caía no rosto, e eu sentia vontade de tirar dali… mas não fazia. Desde que entrou na minha vida, tudo tem me tirado do eixo. Eu, que sempre fui frio, calculista, que aprendi a resolver as coisas com um olhar e uma arma, agora me pegava acordado às três da manhã, vigiando uma menina dormir. “Boneca”, eu chamei a

