Guilherme narrando
Eu sempre acompanhei a Jane de longe.
Não porque eu fosse um louco apaixonado. Não porque eu não conseguisse viver sem ela. Não porque ela fosse especial ou única ou qualquer besteira romântica que os outros gostam de inventar pra justificar obsessão. Não. Nada disso.
Mas porque ela foi minha.
E o que é meu… não deixa de ser meu só porque resolveu ir embora.
Ela achou que podia simplesmente sumir. Como se eu fosse um copo descartável. Como se eu fosse um guardanapo usado que ela amassou e jogou no lixo. Como se oito anos de casamento não tivessem significado nada. Como se eu não tivesse colocado comida dentro da casa dela, roupa no corpo dela, teto sobre a cabeça dela.
Ela pensou que era só pegar uma mala, pegar um avião, e pronto — tudo resolvido. Tudo esquecido. Como se eu fosse passado. Como se eu não existisse mais.
Só que ela esqueceu de uma coisa.
Uma coisinha pequena. Uma coisinha simples. Uma coisinha que ela tentou ignorar por oito anos.
Ela esqueceu que era casada comigo.
Esqueceu que morou debaixo do mesmo teto que eu. Esqueceu que dormiu na minha cama. Esqueceu que comeu do meu prato. Esqueceu que usou do meu dinheiro. Esqueceu que carregou o meu sobrenome no nome dela desde os dezessete anos.
Esqueceu que, antes de ser essa modelo cheia de pose em cima de palco, antes de ser essa inspiração para milhares de mulheres gordas que se acham no direito de ocupar espaço, antes de ser essa mulher forte e independente que posa para fotos e dá entrevistas falando sobre empoderamento…
Ela era minha mulher. E mulher minha não some assim. Eu desmarquei tudo que tinha pra fazer no dia do desfile.
Reunião. Compromisso. Cliente. Tudo.
Cancelei cada compromisso, desmarquei cada reunião, deixei de ganhar dinheiro naquele dia.
Porque eu precisava ver com meus próprios olhos no que ela tinha se transformado. Precisava ver de perto o que o tempo tinha feito com ela. Precisava sentir o cheiro dela de novo. Precisava ver se o corpo dela ainda era o mesmo — ou melhor.
Eu só não sabia se ela vinha sozinha ou se vinha com aquela megera da mãe dela. Aquela velha que me olhava como se eu fosse lixo. Aquela velha que invadiu a minha casa uma noite e tirou a minha mulher de lá como se ela tivesse esse direito. Aquela velha que nunca gostou de mim, nunca aceitou que a filha dela tava com um homem de verdade.
Fiquei na encolha durante o desfile. Observando. Quieto. Esperando.
As luzes piscando. O povo batendo palma. As modelos andando de um lado pro outro com aquelas roupas ridículas que ninguém usa na vida real.
E eu ali, no canto, invisível, olhando.
Enquanto as luzes piscavam e o povo batia palma feito bobo, eu corria atrás de informação. Mexi meus pauzinhos. Usei meus contatos. Puxei fios que estavam adormecidos há anos.
Foi fácil.
Muito fácil.
Descobri que ela tava sozinha no Rio. Sem a mãe. Só com seguranças e o empresário.
Aquilo ali era a minha deixa. Era a minha chance. Era o momento que eu esperei por oito anos.
O que eu não contava… era aquele traficante de merda conhecendo ela.
Aquele cara grande, de terno, olhar pesado, presença de quem manda. Aquele que parecia uma muralha. Aquele que me olhou como se eu fosse nada.
Não sei se foi a mãe dela que pediu proteção. Não sei se foi alguma amiga em comum. Mas quando eu ouvi o nome da tal "tia Helena" sendo dito no corredor, eu lembrei. Jane falava dessa mulher quando a gente ainda morava junto. Amiga antiga da Gisele. Mulher do morro. Gente que vive no mundo do crime.
Então foi isso.
Não acredito que ela vai se meter com gente errada. Não acredito que ela vai trocar um empresário de verdade por um traficante de merdä.
Meu nome é Guilherme Guimarães. Tenho 28 anos. 1,85 de altura. Branco. Cabelo castanho escuro. Olhos verdes. Empresário. Cheio de contatos no Rio de Janeiro. Conheço juiz, delegado, político, empresário. Tenho nome. Tenho história. Tenho dinheiro. Tenho poder.
Muita mulher já passou pela minha vida. Antes da Jane ir embora. Depois que ela foi embora. Durante o casamento dela comigo também, se for falar a verdade.
Mas nenhuma me marcou como o jeito que ela saiu da minha vida. Nenhuma me tirou do sério do jeito que ela tirou. Nenhuma me fez sentir o que ela fez.
Porque ela não foi embora. Ela me desprezou. Ela me jogou fora como se eu não valesse nada. Ela olhou pra mim e decidiu que eu era descartável.
E eu não sou descartável.
Ela sempre se achou diferente. Fora do padrão. Isso para ela poderia ser até preconceito, pra mim ela era especial.
No ensino médio, ela já era linda. Na faculdade, piorou. E agora nesses palcos, ficou insuportável de linda.
O que ela nunca entendeu que, sendo minha esposa, não podia fazer o que queria. Usar o que queria. Se mostrar do jeito que queria.
Ela era casada comigo. Quem dava a última palavra era eu. E, às vezes, eu pesava a mão mesmo. Mas era porque ela merecia.
Ela sabia o tamanho que tinha. Sabia o tanto de carne que carregava. Sabia que as roupas que ela queria usar não foram feitas pra um corpo como o dela. Sabia que sair na rua daquele jeito ia atrair olhares que não deviam ser atraídos.
E ela fazia de propósito. Pra me provocar. Pra me testar. Pra ver até onde eu ia.
E eu ia até o fim. Sempre.
Eu vivo com a Letícia há mais de quatro anos.
Ela é boa. Não me enche o saco. Não pergunta de onde eu venho. Não questiona quando eu chego tarde. Não abre a boca pra dar opinião quando não é chamada.
Desde antes da Jane sair da minha vida, pra falar a verdade.
Depois eu só organizei melhor as coisas. Coloquei cada uma no seu lugar. Fiz com que elas entendessem como funcionava.
Mas isso a Jane não precisa saber.
Não agora.
Quando ela não quis sair comigo do desfile, quando aquele traficante de merda se meteu onde não devia, eu não briguei. Não fiz cena. Não dei motivo pra ninguém desconfiar de nada.
Eu mexi os meus pauzinhos.
Foi fácil descobrir onde ela ia se hospedar. Um hotel em Copacabana. Um hotel muito chique. Tudo muito discreto. Porém fácil de achar. Fácil de entrar.
Eu usei o que tinha a meu favor: certidão de casamento, fotos, documentos, uma história bem contada, um sorriso no rosto, e a cara de p*u que Deus me deu.
Entrei.
Subi.
Cheguei até o quarto dela.
Mas não consegui nem chegar perto dela. Pelo menos não do jeito que eu queria.
Porque a Jane não é mais aquela menina que levava um tapa e oferecia o outro lado da cara. Não é mais aquela menina que pedia desculpa sem saber pelo que estava pedindo desculpa. Não é mais aquela menina que abaixava a cabeça e esperava o temporal passar.
Quando ela espremeu aquela p***a no meu rosto, meus olhos queimaram como fogo. Ardeu. Doeu. Pegou na retina. Achei que ia cegar.
Eu tive vontade de matar ela ali mesmo. Naquele banheiro. Naquele hotel. Com as mãos nuas.
Mas o que eu quero com ela vai muito além disso.
Muito além.
Saí do quarto dela com os olhos ardendo, o ódio fervendo no peito, a respiração pesada, as mãos tremendo de raiva.
E fui direto pro quarto do empresário.
Bati na porta uma vez.
Não esperei resposta. Não pedi licença. Não tive educação.
Ele abriu.
— Não estava esperando por mim né!? — falei empurrando ele pra dentro com a arma já apontada pra testa dele. O corredor vazio. Ninguém viu. Ninguém ouviu. Ninguém testemunhou.
A porta fechou atrás de mim com um clique seco.
— Que que você tá fazendo aqui? — ele perguntou, nervoso, a voz tremendo, os olhos arregalados, as mãos levantadas na altura do peito.
— A Jane vai querer mudar de hotel. — falei calmo, a voz aveludada, controlada, educada. — E você vai fazer de tudo pra ela não mudar.
Continua...