PRISCILA VALLE
Até que enfim cheguei em casa.
Abro a porta e dou de cara com o Brian e a Suzi, sua namorada, praticamente fundidos no sofá como se fossem um só.
— Oi! — digo, passando direto por eles e indo para o meu quarto. Ainda tenho um relatório infernal pra terminar.
Me jogo na cadeira e recomeço o trabalho com a cabeça latejando de cansaço. Levo um bom tempo ajustando cada detalhe, mas enfim termino. Agora, sim, posso tomar um banho decente e comer alguma coisa. Estou faminta.
Depois de um banho quente e rápido, sigo para a cozinha. A casa está silenciosa. Os pombinhos desapareceram, o que me dá um alívio momentâneo.
Abro a geladeira procurando algo comestível, quando a voz do meu irmão ecoa no corredor:
— Por que você não atendeu minhas ligações?
— Desculpa, deixei o celular no silencioso... Nem vi. — respondo, fechando a porta da geladeira com o pé.
— Você chegou tarde hoje. Aconteceu alguma coisa?
Suspiro fundo, sem paciência.
— Foi por causa do meu novo chefe. O filho do senhor Tomás. Um i****a. Arrogante, frio, mandão... Parece que veio direto de um calabouço de gelo. Mas eu tenho que aguentar, né? Se quiser continuar com esse emprego.
Brian se aproxima e me dá um beijo carinhoso na testa.
— Boa noite, irmã rabugenta. Dorme bem. — diz com um sorriso antes de ir para o quarto.
— Boa noite, maninho.
Janto o que consigo improvisar, lavo a louça com preguiça, e logo o peso do dia me chama para a cama. Não demora muito até eu me entregar ao sono, torcendo para que o dia seguinte seja, pelo menos, um pouquinho menos infernal.
Spoiler: não vai ser.
(***)
— Droga! — esbravejo, pulando da cama como se estivesse pegando fogo.
Hoje, logo hoje, fui esquecer de colocar o despertador.
— Droga, droga, droga! — repito, tropeçando nas próprias pernas enquanto tento me arrumar às pressas.
Nem penso em café da manhã. Corro para pegar um Uber, já que o lindo do meu irmão saiu e nem teve a decência de me acordar. Ele que me aguarde.
Assim que chego à empresa, nem passo pela minha mesa — vou direto até a sala do meu chefe. Bato na porta com o coração batendo nos ouvidos.
— Entre. — diz a voz firme e grave do outro lado.
Abro a porta.
— Me desculpe, senhor Velásquez, não foi minha intenção me atrasar, é que eu...
— Eu não admito atrasos na minha empresa, senhorita Valle. — ele me corta com frieza, levantando os olhos pela primeira vez.
E quando ele me encara… céus.
Seus olhos castanhos me atravessam como se lessem minha alma. Um frio na espinha percorre meu corpo inteiro, e por um segundo, esqueço até por que estou ali. Sério, que olhar é esse?
— Si... sim, senhor Velásquez. — gaguejo, sentindo meu rosto esquentar.
— O relatório. — ele diz.
— Ah, claro. Está aqui. — entrego rapidamente.
— Coloque na minha mesa e pode se retirar.
Obedeço sem dizer mais uma palavra. Volto para minha mesa com o coração acelerado, sento e apoio as mãos no rosto, tentando me recompor.
— Respira, Pricila… respira. — murmuro baixinho.
Alguns segundos depois, já estou mais calma. O resto do dia transcorre com tranquilidade. O senhor Velásquez saiu para uma reunião com outros empresários e, para minha sorte, não voltou mais à empresa.
Já em casa, tomo um banho demorado, coloco uma roupa confortável e vou preparar algo para o jantar.
Depois, coloco um filme para assistir na tentativa de relaxar... mas não adianta.
Aquele olhar não sai da minha cabeça.
Aquela voz firme.
Aquela presença que me faz tremer.
O problema não é o atraso.
O problema é que, mesmo sendo um i****a, ele me tira do eixo com apenas um olhar.
E isso... isso é perigoso.
(***)
A semana passou tranquila… na medida do possível. Ainda bem que hoje é sexta-feira — o dia oficial da sobrevivência. Amanhã não trabalho, e isso já é motivo suficiente pra amar o final de semana com força.
— Amiga, hoje você não me escapa! — anuncia Luna, toda animada, pulando na minha frente como se fosse uma cheerleader. — Abriu um barzinho novo, super badalado. A gente vai, sim! Você precisa relaxar, mulher, não é de ferro.
Ela vem insistindo nisso há semanas. E, sinceramente? Talvez hoje seja mesmo o dia de sorte dela.
— Tá bom, Lu. Eu vou. — digo, rendida.
Ela bate palminhas, animada como uma criança indo pra Disney.
— YES! Te pego às oito!
Já são sete horas. E eu? Parada na frente do guarda-roupa como se estivesse tentando decifrar um código secreto.
Desde que meus pais morreram, minha vida virou trabalho e responsabilidades. Não tenho o hábito de sair, flertar ou... viver. Visto-me com um vestido preto justo, de mangas longas — simples, mas bonito. Sexy sem ser vulgar.
Me olho no espelho. Nada m*l, Valle. Nada m*l mesmo.
Chegamos ao tal barzinho e... a fila tá dando a volta no quarteirão.
— Lu, esse lugar não parece meio… caro demais?
— Relaxa, miga. Hoje é por minha conta. Agora entra, ajeita esse decote e vamos caçar uns boys! — diz ela, puxando minha mão e rindo.
Por dentro, eu queria estar no sofá com um pote de sorvete. Mas... cá estou.
Lá dentro, o ambiente é moderno, iluminado por luzes em tons de azul e dourado. As mesas brilham, a música é boa, e a galera parece saída de uma revista de moda.
— PRI, vou pegar umas bebidas pra gente, ok? Não foge! — diz Luna, indo em direção ao bar.
Fico ali, tentando me sentir à vontade, mas não consigo. Muita gente, muita música, e a minha ansiedade social me fazendo companhia.
— VOLTEI, BRASIL! — grita Luna, com dois copos coloridos na mão. — E aí, miga? O que tá achando?
— O lugar é bonito… gostei. Mas preciso ir ao banheiro, já volto.
Saio andando meio perdida pelos corredores. E, como um clichê escrito pelo destino, acabo esbarrando em alguém.
Quando olho, meu sangue gela... quase tenho um mini-infarto.
— Des-desculpa... — murmuro, envergonhada.
É ele. Thiago Velásquez. Impecável. Assustadoramente sexy. E ainda mais arrogante fora do expediente.
Ele me olha de cima, como se eu fosse invisível.
— Olhe por onde anda da próxima vez. Já não basta ser distraída na empresa, agora quer ser fora dela também? — diz com um olhar duro e irônico.
Eu não acredito. Ele é um babaca em qualquer ambiente.
Sem responder, viro e saio sem olhar pra trás.
— Lu, adivinha em quem eu esbarrei?
— Quem?! — ela já arregala os olhos.
— No nosso chefe.
— Você tá brincando! No Thiago Velásquez? Aquele pedaço de m*l caminho? Gostoso, arrogante e de terno?
— Ele mesmo. Um amor de pessoa… Só que ao contrário.
Seguimos curtindo a noite. Ou tentando, da minha parte. Porque, sinceramente? Eu não conseguia parar de olhar pra ele.
E o pior: ele também olhava pra mim.
— Pricila... — sussurra Luna, se inclinando. — Você viu que o Thiago não para de encarar a gente? Será que ele tá me achando linda?
Começo a rir. A Luna não tem freio — e é por isso que eu a amo.
— Miga, fica aí só um minutinho. Aquele loiro ali tá me chamando com os olhos, e eu não posso ignorar um convite desses. — diz ela, saindo com seu sorriso assassino.
— Lu! Você não vai me deixar sozinha aqui com esse monte de gente estranha! LUNA! — grito, mas ela já foi. Dando as costas pra mim com seu vestido justo e planos nada inocentes.
Sozinha, vou até o bar e me encosto, observando as pessoas dançando, rindo, se beijando.
Por um segundo, me pego desejando aquilo também. Alguém pra dividir esse tipo de momento. Mas aí meu celular vibra.
É uma mensagem da Luna.
“Desculpa, gata. Fui conhecer a casa do Caio. Acho que vai rolar... uhuu! Bjs”
— Não acredito… — murmuro, bufando.
A safada da Lu me abandonou. Por isso que eu não gosto de sair. Agora tô aqui, largada no bar, sem companhia, sem carona e sem rumo.
Meu irmão está com a namorada no sítio dos pais dela. E eu? No meio da madrugada… sozinha.
Olho o relógio. Passa da meia-noite.
Pego minha bolsa e sigo pra fora. Enquanto desbloqueio o celular pra chamar um Uber, sinto alguém se aproximar.
Levanto o olhar… e lá está ele. De novo. Thiago Velásquez. Parado do meu lado como uma maldição elegante.
— Sua amiga te largou sozinha, foi? — diz, com um meio sorriso sarcástico nos lábios.
— Não é da sua conta, senhor Velásquez. Estou esperando meu Uber. Com licença. — digo, firme, tentando me afastar.
Mas ele caminha atrás de mim, como se fosse minha sombra.
— Posso te dar uma carona, se quiser.
— Não, obrigada.
— Vai preferir esperar sozinha no frio do que aceitar a minha carona?
— Vou.
E nem pense que tô blefando.
Nem que eu vire uma estátua de gelo na calçada, eu entro naquele carro.
O problema é que ele não desiste. E o pior? Aqueles olhos continuam me encarando como se pudessem me despir inteira… e eu odeio admitir, mas meu corpo treme mais pela presença dele do que pelo vento da madrugada.