Ela viu o carro parando imediatamente atrás do seu quando estacionou na garagem e sentiu a apreensão encher sua alma.
O escritório hoje havia estado silencioso. Muito silencioso. Realizaram seus trabalhos e até conseguiram terminar o relatório, os três trabalhando durante o almoço. Porque tinham todas as informações dos últimos três anos, desde a sua contratação, já bem organizadas, foi rápido para arrumar os dois anos anteriores e conseguiu. Mordecai tinha um relatório pronto para apresentar para Brixton Beckwith na segunda-feira e ela iria beber uma garrafa de vinho em um banho de espuma depois de colocar Pia para dormir. Ou pelo menos esse era o plano.
Agora, enquanto o homem alto de terno se dirigia à porta do lado do motorista, ela se perguntava se o único banho que teria seria um tortura a base de água. Era um dos favoritos de Val. Mergulhá-la embaixo d'água até que ela desmaiasse, ressuscitá-la e começar de novo. Ela começou a se sentir doente enquanto olhava no retrovisor.
Ele bateu uma vez na janela e ela olhou para cima, exalou lentamente e assentiu. Era assim que as coisas iriam acontecer. Ela deveria ter embalado Pia na noite anterior e fugido. Ela rezou para que deixassem sua pequena garota viver. Burra. Ela era burra. Eles teriam a perseguido se ela tivesse fugido, mas pelo menos ela teria tido uma vantagem. Aqui, ela era um alvo fácil. Sentia o arrependimento dentro de si.
Ela destrancou a porta do carro e ele a abriu. Ela saiu e ficou de pé, mantendo a postura. Ela não ia sair como um ratinho. Se ela fosse sofrer uma última surra pelos Cacciola, iria encarar o desgraçado nos olhos enquanto isso acontecesse.
"Jolie."
"Senhor Beckwith", ela encarou o olhar dele diretamente.
"Você deveria ter se identificado no momento em que me viu ontem e soube que assumi a empresa. Meu pai estava atrás de você."
"Não estou interessada em ter uma conversa com nenhum de vocês."
"Você não tem escolha."
"Por quê? Eu fiquei calada durante seis anos. Vamos fingir que você nunca me viu e eu vou empacotar minhas coisas e ir embora em uma hora."
"Isso não vai acontecer. Precisamos conversar. Há coisas das quais você foi testemunha, incluindo o assassinato do meu irmão."
"Eu não fiz isso."
"Você foi a última pessoa a vê-lo vivo e tinha motivos."
"Não me entenda m*l, senhor Beckwith. Eu queria ter sido a pessoa a apertar o gatilho e espalhar os miolos dele pelas paredes, mas considerando a quantidade de raiva que ainda sinto até hoje, pensando nele, acho que um único tiro não seria o suficiente. Eu teria esvaziado uma revista inteira em seu rosto." Ela viu o breve momento de surpresa em seus olhos antes dele dissimular. Ele achou que ela fosse ser submissa.
"Oi Jolie!" sua vizinha acenou quando chegou em casa do trabalho. "A primavera finalmente está chegando! Você tem um encontro?" a mulher mexeu as sobrancelhas.
"Não. Meu chefe", ela acenou para ele, "veio pegar um trabalho que terminei para ele."
"Entre na casa agora", ele sussurrou. "Vamos fazer isso em particular."
"Eu não vou deixar você entrar na minha casa. No momento em que você estiver dentro, eu estarei morta."
"Eu não estou aqui para te matar, Jolie. Apenas para conversar. Preciso saber o que você viu e o que você fez."
"Eu não vi nada. Não ouvi nada. Não fiz nada. Por favor, me deixe ir", ela não tinha problema em implorar. A vida de Pia estava em jogo. Ao contrário de seu pai, que não lutou por ela, ela lutaria até a morte por sua filhinha.
"Eu disse na casa. Agora."
"Por favor." Ela agarrou a frente do seu casaco preto com punho cerrado. "Eu juro, meus lábios estão selados."
"Jolie, pelo amor de Deus, entre na casa antes que eu faça o Malik te carregar."
Ela engoliu em seco e depois se moveu para o banco de trás e ele se posicionou na sua frente. "Eu só preciso…” ela colocou a mão na maçaneta da porta traseira e viu ele revirar os olhos. Ele estava parado diretamente atrás dela e quando ela se inclinou, sua b***a tocou a coxa dele e ele deu um passo para trás e para longe. Ela desprendeu a criança adormecida da cadeirinha e a pegou em seus braços e se virou para encará-lo. "Okay, vamos lá. Por favor, não machuque ela", ela sussurrou, com uma única lágrima rolando pela sua bochecha enquanto descansava seu rosto no emaranhado espesso de cabelos negros. Segurar sua filha tornava tudo real.
Quando tinha pegado Pia hoje, foi reportado que ela tinha sido uma criança selvagem. Tinha socado Norman no rosto por chamá-la de baixinha. Tinha se recusado a comer o sanduíche de geleia e tinha pulado em cima dele. Às cinco, estava com febre alta e quando Jolie chegou no programa de cuidados após a aula, teve que levá-la direto para a clínica. A clínica tinha receitado um ciclo de antibióticos para uma infecção de ouvido e tinha dado um analgésico leve e um antitérmico imediatamente.
Agora a criança estava profundamente adormecida e com sorte não seria testemunha da morte de sua mãe.
Ela perdeu a troca de olhares surpresos entre os dois homens atrás dela enquanto a escoltavam para dentro da casa. Ela olhou para Brixton. "Posso colocá-la na cama dela? É logo ali no final do corredor. Por favor?"
"Não. Eu não sei o que você tem escondido aí embaixo. Coloque-a lá", ele fez um gesto para o sofá.
Ela deitou Pia no sofá e tirou suas botas e pesado casaco de inverno. Suas bochechas estavam rosadas e quentes ao toque, mas sua pele estava significativamente mais fria do que quando ela a pegou. "Ela tem uma infecção de ouvido. Não está se sentindo bem." Ela pausou, "Eu deixei os antibióticos dela no carro."
"Você pode pegá-los depois." Ele fez um gesto para a mesa da cozinha. "Sente-se."
Ela ocupou o lugar à mesa que ainda tinha o pano de mesa colocado da maneira errada para a caverna de Pia.
"Onde está o pai dela?"
"Morto." Ela encontrou o olhar dele e notou a surpresa neles.
"Ela não pode ter mais de três anos", Malik comentou do outro lado da sala, onde ele estudava a criança dormindo. "Você está dizendo que ela é filha do Val?"
"Ela é minha." Ela corrigiu com uma ferocidade que não sabia que possuía.
"Idade? Agora, Jolie. Estou cansado dessa merda", Brix a olhou fixamente enquanto se apoiava na mesa. "Como você está dizendo que essa criança é do Val? Ele te espancou até quase a morte. Não há como um bebê sobreviver a isso. Qual a idade da criança?"
"Ela tem cinco anos. Na última noite com o Val, ele me estuprou pelo menos meia dúzia de vezes. Ele estava tão bêbado que nem pensou em usar preservativo. Eu não podia tomar anticoncepcional porque ele dizia que me deixava m*l-humorada. Ele já havia me espancado e me feito abortar um bebê uns quatro meses antes de morrer", ela não perdeu a sua respiração com ar do segurança. "Na noite em que ele morreu, ele trouxe outros caras. eu o desrespeitei ao não recebê-lo na porta e fazê-lo receber sexo oral na frente deles. Ele me puniu. Ele foi para a sala de estar e ficou furioso que seus amigos tinham ido embora. Levei uma segunda surra porque ele sentiu que eles saíram por minha causa, e ele me deixou no chão do banheiro depois de bater minha cabeça nos azulejos. Acordei ouvindo ele gritar na sala de estar sobre você, na verdade."
"Eu?"
"Sim. Ele estava obcecado com você pelo resto da noite, pelo que me lembro. Ele voltou mais tarde e fez aquilo em que ele pedia desculpas por me machucar. Disse que você poderia ter todas as prostitutas do mundo, mas nunca teria o que ele tinha em uma mulher que o amava como eu amava." Ela zombou enquanto olhava para as marcas de arranhão na sua mesa de madeira, passando o dedo onde Pia havia entalhado com o garfo quando ela não estava olhando. Ela sentiu o ardor do vômito em sua garganta enquanto recordava os eventos daquela noite em voz alta pela segunda vez na sua vida. A primeira tinha sido para Opal, dois anos e meio atrás.
"Ele disse que me amava e como eu era sortuda por ter um homem como ele me amando como ele fazia, e então ele 'fez amor'", ela fez aspas no ar, "comigo de uma forma muito especial, durante a qual ele me sufocou e eu não me lembro de nada depois de desmaiar até acordar no hospital. As enfermeiras estavam falando sobre como o irmão mais velho dele viria me ver e eu sabia que você terminaria o trabalho que ele começou e fugi. Oito semanas depois descobri que estava grávida. Na noite em que ele morreu, ele me engravidou. Considerei um aborto, mas não consegui fazer isso. Sentei na cadeira, com as pernas nos estribos e o soro no meu braço pronto para acabar com a gravidez, mas não consegui prosseguir. Ela nasceu cinco semanas antes do previsto. Eu não tinha seguro saúde na época", ela deu uma risada seca, "seis anos depois, ainda estou pagando as contas do hospital pelo tratamento mínimo que deram a ela. Pia é pequena para a idade dela porque ela nasceu prematura. E eu também não sou muito alta, e o apelido do meu pai para mim era baixinha, então ela provavelmente tem a estatura da mãe. Minha mãe tinha apenas um metro e sessenta e sete. Eu tenho um metro e sessenta e cinco."
"Quando é o aniversário dela?"
"Novembro. Ela fará seis anos em novembro."
"Seu pai não disse nada para o meu pai."
"Eu não contei para ele. Não estamos exatamente nos falando."
"Por quê?"
Ele parecia perplexo com suas palavras.
"Você está brincando? Ele admitiu para mim quando eu estava na cama do hospital que ele nunca tentou me recuperar. Ele perguntou ao Val como eu estava e o Val disse que eu estava bem. Ele disse que sabia que eu não estava bem, mas não ousou pedir ao seu pai para intervir. Ele poderia ter pedido para seu pai. Ele poderia ter ligado para a polícia. Ele poderia ter tentado, mas ele estava com muito medo." Ela apontou para a criança adormecida, "ela? Se alguém a tirasse de mim, eu lutaria até a morte para tê-la de volta. Eu estaria lutando contra todos os policiais para isso. Eu esgotaria cada centavo que eu tivesse para encontrá-la. Eu venderia minha própria alma para o d***o para tê-la de volta, e ele me deixou sem nem pensar duas vezes. Que se f**a ele."
"Nós estávamos procurando por você como Segreto. Por que Haversham?"
"É meu nome legal. Está no meu certificado de nascimento. Eu fui matriculada na escola como Segreto porque meu pai pagou minha mensalidade, e a maioria das pessoas que o conheciam presumia que nosso nome era Segreto, mas meu nome no certificado de nascimento, na minha carteira de motorista e no meu número de seguro social são todos Haversham."
"Seu pai nos entregou a documentação como Segreto". Ele estava claramente irritado com isso. "Acha que os federais pensam que você é um Segreto?"
"Não, mas cerca de uma semana depois que cheguei aqui, eles me encurralaram e me levaram para interrogatório. Eu disse a eles que era uma prisioneira que passou oito meses amarrada a uma cama sendo brutalmente vitimizada por um sequestrador e nunca me foi permitido sair do quarto. Eu não sabia de nada. Eles acreditaram em mim. Me deixaram em paz."
"Temos um problema", ele jogou uma cadeira para trás e sentou-se nela, apoiando os antebraços no encosto. "Você sabe coisas. Val estava trabalhando em um projeto especial para meu pai e, em vez de fazer onde deveria ser feito, ele estupidamente trouxe para casa." Ele apontou para ela, "você sabe tudo sobre isso."
Ela sabia de tudo, mas fechou a boca. "Não sei do que está falando. Val me manteve trancada no quarto a maior parte do tempo."
"Veja só", ele balançou o dedo desaprovando, seus olhos escuros tão parecidos com os de Val, mas tão diferentes, queimando de irritação para ela. "Eu mesmo interroguei todos os amigos dele e todos disseram a mesma coisa. Ele mantinha você", ele estalou a língua quando ela desviou o olhar, "tão perto do seu lado o tempo todo que isso deixava todos desconfortáveis. Um dos caras disse que até te teve sentada em seu colo uma vez quando estava pesando ouro na mesa da cozinha, te acusou de tocá-lo e te espancou na frente de todos."
Ela manteve os lábios fechados e desviou o olhar. Se ele sabia que ela sabia, por que ele estava fazendo isso? A brincadeira com as emoções e o espírito das pessoas eram claramente uma característica da família. Ele foi enviado para matá-la. Ela se lembrou de Val contando a história de como Brixton havia esfaqueado um homem com uma faca de carne bem no peito durante um jantar em família porque ele tinha insultado o pai deles. O homem à sua frente poderia ser um espécime lindo de homem, mas era um canalha assassino tanto quanto seu pai e irmão.
Ela engoliu em seco e finalmente olhou para cima, encontrando os olhos do homem enviado para lidar com ela. "Se você vai me matar, pode fazer um favor? Ela é uma Cacciola. Seu pai não vai machucá-la, vai? Você pode fazer o que quiser comigo, mas talvez ele possa encontrar uma família legal para mantê-la segura? Eu sei que não vou sair daqui porque sou um risco, mas por favor, não a machuque." Ela ouviu sua voz falhar com as emoções que estava tentando conter. A garganta estava apertada e dolorida. "Ela não pediu por isso. Ela é inocente."
"O que você sabe?" suas palavras foram cuidadosamente enunciadas e ele não contestou sua crença de que ela ia morrer.
Ela sabia que ele estava ficando impaciente com ela e enxugou as lágrimas das bochechas e encontrou seu olhar direto. "Valentin deveria trazer drogas de um colombiano chamado Juan Rueda e pagá-lo em ouro que seu pai trazia da Europa. Val deveria estar encontrando a carga e depois pegar os pacotes menores dos contêineres e levá-los para um depósito. Ele pegava o ouro e o trocava pelas drogas. Em vez de levá-los para o depósito, ele os trazia para casa. Ele pesava tudo em casa. Pesava o ouro em casa. Pesava a cocaína em casa. Ele tirava uma ou duas onças deles e colocava em um cofre."
"Os garotos disseram que ele colocava na geladeira."
"Quando eles estavam lá. Assim que saíam, ele empurrava o sofá, enrolava o tapete e colocava tudo no cofre no chão. Eu sempre me perguntava como ele enfiava um cofre tão grande no apartamento e nenhum dos amigos dele sabia disso. De qualquer forma, é onde ele colocava tudo, o ouro pelo menos. A cocaína ele colocava no nariz em quantidades imensas. Não consigo te dizer quantas vezes rezei para que ele tivesse uma overdose para que eu pudesse escapar."
Ele olhou para Malik e acenou com a cabeça, e o homem saiu da casa.
"Para onde ele está indo?"
"Para ligar para o nosso cara em Vegas para verificar sua história. Novecentos mil dólares em ouro desapareceram ao longo de seis meses e meu pai achava que ele estava sendo roubado no final do transporte. Isso quase causou uma guerra entre meu pai e o Juan. Eu mesmo enviei uma quantidade de ouro da Itália e na semana em que Val morreu, o envio foi recebido em Vegas. Val pegou e eu estava lá e confirmei que o pacote estava intacto. Dos dois milhões no envio, cinquenta mil sumiram. Na noite em que ele morreu, ele perdeu uma reunião comigo e meu pai para discutir o fato de um de seus caras estar o passando para trás. Nunca passou pela cabeça do meu pai que fosse Val. Ele achou que talvez você soubesse onde estava."
"Ele achou que eu peguei", ela quase riu com a absurdidade. "Eu tinha medo de ir ao banheiro sem permissão, e você acha que eu fui burra o suficiente para pegar ouro das reservas do Val? Quando escapei, roubei cinquenta dólares da carteira de uma enfermeira que deixou na estação quando chamaram código vermelho. Peguei um táxi até a casa do meu pai na pior dor da minha vida. Peguei uma mala de roupas e meu cartão bancário. Fui para a estação de ônibus. Tirei cada centavo que pude da minha conta bancária e sumi de Vegas. Cuidei do meu braço remendado no Colorado. Em Nebraska, uma senhora idosa gentil me levou para sua casa e eu fiquei lá um mês até minhas costelas sararem. Aí um xerife local bisbilhoteiro consultou meu nome em um banco de dados e os federais apareceram na cidade querendo falar comigo. Ela fez o filho me levar para a estação de ônibus antes que me encontrassem. Ele me deu mil dólares e disse para pegar o máximo de ônibus em quantas direções loucas fosse possível e não parar até que finalmente sentisse que ninguém mais estava me procurando. Parei aqui quando estava cansada demais para continuar correndo."O resto da conversa foi interrompido assim que o som de um choro lamento ecoou no ar e os soluços de dor de Pia os interromperam. Pelo visto, a filha dela não conseguiu evitar testemunhar sua morte.