Rainhas não precisam de reis

2533 Palavras
Ela estava um completo desastre. Um desastre humano, certificado e andante, e precisava se recompor. A viagem do escritório no silêncio de seu carro, com o rádio quebrado, a fez pensar demais no problema em questão. "Pense logicamente, Jolie", ela se lembrou pela bilionésima vez. "Ele não sabe quem você é. Mantenha a cabeça baixa. Faça seu trabalho. Não chame atenção." De repente, ela estava amaldiçoando a compra de um par de sapatos duas semanas atrás. Opal tinha insistido para ela gastar quase cem dólares em algo confortável para usar no escritório, e agora ela tinha cem dólares a menos em sua conta, caso precisasse fugir. Ela havia ganhado um alívio. Quando eles voltaram do almoço, Brixton mesmo havia chamado o escritório de Mordecai e a chamou de Julie. Ele ouvira errado a introdução de Mordecai e isso estava lhe dando tempo. Ela não o corrigiu e imediatamente disse que enviaria o relatório específico que ele estava procurando e quase o desligou. Assim que enviou o relatório, começou a olhar imediatamente suas contas bancárias, suas contas de poupança e a se amaldiçoar por ter ouvido Mordecai e colocado aquele dinheiro em investimentos de trinta dias, que seriam automaticamente renovados se ela não sacasse. Nas palavras dele, qualquer emergência, tire da poupança. Tenha trinta dias de economias sempre à disposição e então os investimentos são o plano de backup quando eles acabarem. Ela não deveria ter comprado os sapatos. Com certeza não conseguiria correr de salto alto. Ela chegou ao seu destino e saiu do carro para observar através de uma cerca as crianças de várias idades brincando nos equipamentos do parque, usando chapéus e luvas. Era fim de março e ainda fazia frio em Boston nessa época do ano. Ela avistou os olhos castanhos familiares pendurados de cabeça para baixo com uma das professoras segurando-a. Os gritos de risada mostravam que a criança aventureira estava empolgada com a ideia de ficar de cabeça para baixo. Opal a tranquilizou, dizendo que isso era apenas uma fase. Seu filho Axl havia feito o mesmo. Passou de ter medo do escuro para trazer bichos estranhos e colocar seus próprios monstros embaixo da cama. A história de quando ele colocou uma cobra embaixo da cama aos seis anos ainda assombrava Opal. Ela rezava para que Pia nunca se interessasse por cobras. "Mamãe!", a menina gritou, lutando para sair dos equipamentos e correr até ela. "Mia Pia!" ela abriu os braços ao entrar na área cercada. "Ai", ela grunhiu quando a criança bateu nela. Pequena para sua idade de cinco anos, a menina era extremamente tímida e evitava qualquer pessoa ou coisa com a qual não se sentisse confortável, e Jolie sabia que grande parte disso era sua culpa. Medos constantes, mudanças frequentes e sempre olhando por cima dos ombros tinham transformado sua pequena fada, como ela a chamava, em uma criança nervosa. Eles se estabeleceram nos últimos três anos em sua pequena casa alugada, mas tinham se mudado seis vezes antes disso, enquanto estavam em Boston. "Oi, mamãe! Sentiu muita minha falta. Não gostei do meu almoço hoje." "Você não comeu?" "Eu não gosto mais de sanduíches de queijo." Ela falou com toda a certeza, com um tom que sugeria que Jolie deveria ter milagrosamente lido a mente em constante mudança de uma criança de cinco anos. "Sinto muito ouvir isso. O que você prefere para amanhã?" "Eu não quero ir para a escola amanhã." Pia bateu o pé quando entraram no serviço pós-escolar para pegar sua mochila e lancheira. "O Jardim de Infância é importante, Pia. Você tem que ir para a escola." "Eu não gosto. É chato." "Não é chato!" Jolie arregalou os olhos. "Eu pensei que você estava aprendendo números, e olha só," ela tirou uma página de colorir da mochila enquanto se sentavam num banco. "Você até escreveu seu nome." O "P" estava ao contrário, mas Jolie não se importava. Pelo menos ela estava tentando. Pia cruzou os braços e fez bico, e Jolie notou pela milionésima vez na vida da menina que ela era a cara do pai, principalmente quando estava zangada. Ela tinha cabelos pretos e olhos escuros como ele, e embora tivesse a boca grande e as bochechas redondas com covinhas como Jolie, o nariz patriciano que se destacava em seu rosto definitivamente era do pai. Val podia ter sido um filho da p**a sádico, mas era lindo de se ver. Jolie segurou as bochechas redondas e falou baixinho: "você pode contar para a mamãe por que o dia foi r**m e por que você não quer ir para a escola?" "Norman zombou de mim por ser baixinha e todas as crianças riram. Começaram a me chamar de baixinha e eu não gosto disso!" Ela bateu o pé furiosamente. "Eu não vou voltar." "Hm," Jolie lutou contra a vontade de encontrar o pirralho chamado Norman e dar um tapa nele. "Você acha que não deve voltar à escola porque um menino te provocou?" "Todos me provocaram, mamãe." "O que você fez?" Jolie já tinha a sensação de que sabia o que a criança tinha feito. Provavelmente foi até o seu cantinho e chorou. "Nada", ela enxugou uma lágrima rabugenta que escapou do canto do olho. "Eu queria socar ele na cara, mas você disse que bater é errado." "Está errado. Você nunca levanta as mãos para ninguém, nunca", Jolie a levantou em seus braços e olhou diretamente em seus olhos, "mas você pode se defender. Você também pode contar para sua professora quando alguém está te intimidando. Mamãe vai conversar com a Sra. Harmon amanhã e garantir que ela avise a mãe do Norman para conversar com ele sobre o bullying." Pia encostou a cabeça em seu ombro e suspirou exageradamente, "podemos comer pizza?" Claramente, eles haviam encerrado a conversa, pensou Jolie, e pegou a mochila, que era quase do tamanho da menininha, em seu ombro. "Nada de pizza hoje à noite." Seu plano original de jantar na casa de Opal foi cancelado porque a mulher estava ajudando Mordecai com o projeto especial que Beckwith havia demandado. "Vou fazer espaguete, no entanto." Era a segunda refeição favorita dela e Jolie rezou para que acalmasse os ânimos. Nada de comer fora. Nenhuma compra especial. Cada centavo seria importante se precisassem fugir. "Eu não gosto de espaguete." "Como você é italiana?" ela fez cócegas na barriguinha. "Todos os italianos amam espaguete." "Sou uma alienígena", Pia deu de ombros enquanto pulava no quadril de sua mãe. "Alienígenas gostam de comer comida espacial." "Ah", ela arregalou os olhos. "Que tipo de comida espacial?" "Pedras!" "Bem, você está com sorte! Vou fazer espaguete e almôndegas de asteroides. Os alienígenas gostam de almôndegas de asteroides?" "Gostamos sim!" Jolie a prendeu na cadeirinha do carro e então fechou a porta. A viagem da creche para casa durava menos de dez minutos e, no entanto, a cada olhada no retrovisor e a cada semáforo fechado, parecia uma hora presa em um carro como um pato sentado. Chegando em casa, Pia correu pela casa, correndo, gritando e brincando como se não tivesse tido um acesso de raiva na escola. Ela estava levando suas duas bonecas favoritas em uma aventura para Marte e agora estavam debaixo da mesa da cozinha enquanto Jolie servia o jantar. "A minha marciana vai comer à mesa ou na sua caverna secreta em Marte?" "Você vai comer na minha caverna comigo?" "Eu posso entrar na caverna?" Jolie se abaixou e olhou embaixo da mesa. "Me sinto muito especial." "Você é especial, mamãe. Você é a rainha marciana e eu sou a princesa marciana. A Dolly e a Polly também são princesas." Ela balançou as bonecas para Jolie. Jolie deu de ombros e decidiu deixar a criança ter algumas boas lembranças, porque se tivessem que começar a fugir da família Cacciola de repente, momentos como fingir debaixo da mesa da cozinha como um refúgio poderiam se tornar realidade. Ela levou os dois pratos e se sentou no chão com sua filha, debaixo da mesa. "Mamãe, a gente precisa de um rei." "Não, não precisamos", corrigiu com um movimento de cabeça. "Rainhas e princesas se saem muito bem sem reis." "O papai da Felicity foi buscá-la na escola hoje e a jogou tão alto no ar que ela quase tocou o sol. Acho que ele seria um bom rei." "Nem todos os reis são bons reis." "Reis têm que ser bons reis. Eles têm que cuidar das rainhas e princesas." "Rainhas e princesas podem cuidar de si mesmas", murmurou Jolie enquanto espetava uma almôndega e considerava que talvez as tivesse cozido demais. Estavam quase tão farináceas quanto o pó da lua e tão duras quanto um asteroide. "Eu quero um rei para me jogar no ar e me pegar." "Eu posso fazer isso." "Não tão alto como o papai da Felicity." "Ele é grande como uma casa. Ninguém conseguiria te jogar tão alto." "Quero um papai como o da Felicity." "Sinto muito, querida, mas já conversamos sobre isso antes. Seu papai morreu antes mesmo de saber que você estava na minha barriga." Graças a Deus, caso contrário Pia não estaria aqui para tornar sua vida muito mais brilhante. Ela fez um bico, "por que meu papai morreu?" Porque ele era um bastardo maligno e malvado que ficou tão bêbado e drogado, que esqueceu que deixou a porta da frente aberta e um de seus inimigos entrou no quarto e o matou a tiros enquanto ele estava desmaiado nu ao lado dela. Ela suavizou a história, "porque era a hora dele ir embora." "Como meu peixinho dourado." "Como seu peixinho dourado." Exceto que muito mais brutal e frio do que o peixinho. "Você deu descarga nele no vaso sanitário como um peixinho dourado?" Jolie fez um esforço para não rir da pergunta. "Não, querida, eu não fiz isso. Ele teve um funeral e o puseram em uma caixa e o enterraram no chão." "Como o gato do Norman." "O gato do Norman morreu?" "Norman disse que enterrou o gato dele em uma caixa no quintal perto do balanço dele." Considerando o que ela sabia sobre Norman, de repente ficou preocupada com o gato. "Bem, sim, acho que sim." Ela apontou para a comida em seu prato, "coma suas almôndegas." "Elas estão crocantes", Pia reclamou. Ela não discordou. "Eu sei, mas você queria almôndegas de asteroides, então eu as cozinhei para que ficassem com o gosto que teriam se você estivesse em Marte." Ela estava assumindo e indo em frente. " Mamãe, deveríamos ter comprado pizza." "Pia, por favor, coma." "Posso comer torradas?" Jolie considerou que estava pronta para arrancar os cabelos. Sabia que estava abalada por encontrar o tio de sua filha hoje, mas a pequena tirana estava realmente testando todos os seus botões na hora errada."Coma os noodles. Se você comer todos os seus noodles, poderá ter seu biscoito de sobremesa." "Você fez os biscoitos?" A criança a olhou desconfiada. Jolie estava começando a perceber que sua filha estava em uma idade em que ela estava aprendendo que sua mãe não sabia cozinhar muito bem. "Não. Mordecai comprou meu almoço hoje e veio com um biscoito. Eu guardei para você. Tem M&M nele." De repente, a criança estava enfiando os noodles na boca com entusiasmo, sorvendo e batendo os lábios como se estivesse devorando a refeição mais deliciosa que já teve. Ela revirou os olhos enquanto empurrava suas próprias almôndegas para o lado e também comia apenas os noodles. "Mamãe?" Pia perguntou de repente, com o rosto coberto de molho vermelho. Jolie se perguntava como a criança tinha sujado a testa com molho. Ela estendeu o polegar e limpou. "Eu sei que não precisamos de um rei, mas eu posso ter um papai? Se o meu papai morreu como o meu peixe dourado e nós temos um novo peixe dourado, não podemos só arranjar um novo papai? Eu realmente quero um." Jolie fechou os olhos enquanto a pergunta partia seu coração ao meio. Ela tinha um medo absoluto da maioria dos homens. A possibilidade de Pia ter um papai era nula. "Pia, me desculpe, querida, mas você não pode substituir seres humanos como substitui peixes dourados." "Mas o Norman tem dois pais. Ele tem o pai normal dele e tem o pai que mora com ele e com a mãe dele. Ele desenhou isso num papel. Não é justo que ele tenha dois e eu não tenha nenhum. Precisamos compartilhar." "Não, não compartilhamos pessoas." Jolie corrigiu e suspirou. "Pia. Há coisas que as menininhas talvez não entendam, mas saiba que a mamãe te ama o suficiente para ser mãe e pai ao mesmo tempo. E" ela beliscou o nariz dela, "os papais nem sempre deixam seus filhos fazerem o que eles querem. Quando eu era criança, meu pai nunca me deixava assistir televisão. Nunca. Ele nem mesmo permitia ter uma televisão em casa!" "Você não pôde assistir tv?" "Não. Ele dizia que ler livros era melhor para a minha imaginação." "Eu gosto de livros, mas eu gosto de televisão. Eu gosto do meu tablet também." "Eu nunca tive um tablet quando era criança. Eu tinha um computador, embora só me permitissem usá-lo para fazer lição de casa." "Parece mais chato do que o jardim de infância." Pia reclamou exageradamente e levantou seu prato que agora continha apenas três almôndegas e um pouquinho de molho. "Posso comer meu biscoito agora?" "Sim. Vamos sair da caverna e pegar seu biscoito." Enquanto saíam da caverna, Pia fez outra pergunta. "Onde está seu papai?" Se divertindo com o inimigo, ela pensou de forma sarcástica e deu de ombros. "Ele mora em uma cidade chamada Las Vegas." "Podemos visitá-lo?" "Não." "Por que não?" "Pia, chega! Nada mais dessa bobagem!" ela exclamou e então se arrependeu quando os olhos castanhos escuros encheram imediatamente de lágrimas e a encararam como se ela tivesse a golpeado com a palma da mão aberta. Ela gemeu por ter perdido a paciência e como tinha levantado a voz. "Desculpe. Desculpe." Mas Pia não estava aceitando desculpas e a empurrou e correu pelo corredor em direção ao quarto dela gritando: "você é uma malvada enorme! Eu quero meu papai!" Jolie se jogou em uma cadeira e deixou seu rosto cair em suas mãos e sentiu as lágrimas que estavam ameaçando cair o dia todo finalmente se soltarem. Ela talvez fosse uma malvada, mas o pai de Pia a teria matado antes mesmo de ela sair de um estágio molecular, e ela não tinha certeza se as duas sobreviveriam se a família dele descobrisse sobre ela. Com esse pensamento em sua cabeça, ela começou a limpar a cozinha e se lembrar de que tinha que fazer o que era melhor para sua filha pequena. Se ela fugisse agora, eles saberiam que algo estava errado e a perseguiriam. Não. Ela tinha que agir certo. Se Brixton Beckwith fosse tão minucioso quanto ela pensava que ele seria, era questão de tempo até ele perceber que seu nome era Jolie e não Julie, e a partir daí, seus dias estariam contados. Enquanto lançava um olhar para o som de punhos e pés batendo no chão em uma terrível demonstração de temperamento, ela rezava para encontrar uma saída dessa situação o mais rápido possível.
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