A biblioteca ficava no fim do corredor oeste, e Aurora a encontrou por acidente no terceiro dia.
Estava andando sem rumo pela casa — porque não havia nada mais para fazer além de andar sem rumo — quando uma porta entreaberta chamou sua atenção. Empurrou-a devagar. Lá dentro, o cheiro de papel velho e madeira encerada a atingiu como uma lembrança de infância que ela não tinha. Estantes do chão ao teto. Uma escada de mão encostada num canto. Duas poltronas de couro diante de uma janela alta, e uma mesa pequena entre elas, com um castiçal apagado e um cinzeiro limpo que ninguém usava há anos.
Aurora ficou parada na porta por um instante, sem acreditar.
Depois entrou, e fechou a porta atrás de si, e passou os dedos pelas lombadas como quem toca em algo sagrado.
Havia de tudo. Latim, grego, direito, contabilidade, tratados de agricultura, manuais de navegação. Havia também — e foi isso que a fez soltar o ar que nem sabia que estava prendendo — romances. Fileiras deles. Flaubert, Manzoni, Stendhal, os russos, os ingleses, tudo em edições antigas, algumas com páginas ainda por cortar, como se nunca tivessem sido abertas.
Ninguém lê isso, pensou ela.
Ninguém nesta casa lê isso.
E foi ali que ela começou a viver.
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Passava as manhãs na biblioteca. Depois do almoço, voltava. À tarde, quando o sol batia na janela e o ar ficava dourado e quieto, ela se sentava na poltrona de couro e lia até escurecer, e às vezes continuava lendo à luz do castiçal que ela mesma acendia. Ninguém a interrompia. Ninguém a chamava. Ninguém lhe perguntava onde estivera, ou o que estava fazendo, ou por que não descia para jantar.
Ninguém.
Era o que mais doía, e ela só percebeu isso na quinta noite, quando fechou o livro no colo e ficou olhando para a chama da vela, com o quarto escuro em volta.
Ela estava casada.
Havia um marido naquela casa. Um homem que tinha o nome dela, que usava a aliança dela, que assinava os papéis dela. Um homem que a escolhera entre dezenas de retratos e depois a deixara ali, num corredor, como se guarda um móvel que não combina com a sala.
Ela não o via há quatro dias.
Não que ele se escondesse. Não que a evitasse. Era pior do que isso. Ele simplesmente não a notava. Passava por ela no corredor sem desviar o passo, sem diminuir a velocidade, sem dizer nada. Uma vez, ela ficou parada no alto da escada quando ele subiu, e ele passou a meio metro dela, e os olhos dele não pararam nela nem por um segundo. Como se ela fosse parte da parede.
Aurora pensou nisso por muito tempo naquela noite, com o livro fechado no colo e a vela queimando baixo.
Não era amor o que ela queria. Não era isso. Ela sabia que não era. Nunca esperara amor de homem nenhum, muito menos de um que escolhera por catálogo. Mas havia uma coisa, uma coisinha ínfima, quase vergonhosa de tão pequena, que ela não conseguia arrancar de dentro do peito: ela queria que ele olhasse. Só isso. Que olhasse. Que notasse que ela existia ali dentro, que respirava o mesmo ar que ele, que dormia do outro lado do mesmo corredor.
Que fosse visto o que ela tinha para mostrar, mesmo que fosse pouco, mesmo que não valesse nada.
E ele não olhava.
Aurora fechou os olhos, respirou fundo, e decidiu deixar aquilo de lado.
Não valia a pena. Havia coisas piores no mundo. Havia mulheres que apanhava dos maridos, mulheres que passavam fome, mulheres que enterravam filhos. Ela tinha um teto, comida, uma biblioteca inteira, e uma cama quente à noite. Tinha mais do que a maioria. Não ia ficar chorando porque um homem frio não lhe dava bom-dia.
Deixa pra lá, disse a si mesma. Deixa pra lá.
E, no dia seguinte, pegou um romance novo da estante e começou a ler.
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O problema dos romances era que mentiam.
Aurora lia e lia, e quanto mais lia, mais percebia o quanto aqueles livros falavam de homens que não existiam. Os galãs dos romances eram altos, bonitos, atormentados — mas por dentro tinham coração de mel. Eram rudes com o mundo e ternos com a mocinha. Diziam frases duras e depois caíam de joelhos. Beijavam com raiva e depois pediam perdão com a voz embargada. Eram lobos por fora e cordeiros por dentro, e no fim de cada capítulo, quando ela fechava o livro e olhava para o teto, Aurora sentia um aperto no peito e uma vontade de rir ao mesmo tempo, porque aquilo era uma mentira tão grande e tão bonita que dava pena desmontar.
Matteo Corvino não tinha nada disso.
Matteo Corvino era um lobo por fora e por dentro. Não havia ternura escondida atrás daqueles olhos escuros. Não havia frases duras que viriam seguidas de desculpas. Não havia coração de mel em lugar nenhum daquele homem. Aurora tinha certeza — ou quase certeza — porque já o observara o suficiente para saber. Ele não a olhava, mas ela o olhava. Do alto da escada, do corredor, da janela. E via um homem que andava pela casa como se ela fosse um museu, sem tocar em nada, sem se demorar, sem nunca parar diante de coisa alguma que não fosse trabalho.
Se ele fosse personagem de um daqueles livros, pensou Aurora numa tarde, jogando o volume de lado na poltrona, o autor teria sido vaiado.
Não havia princesa encantada que salvasse aquele homem. Não havia feitiço, não havia beijo, não havia lágrima.
Ele era o que era.
E isso, por algum motivo que Aurora não conseguia explicar nem para si mesma, a fazia senti-lo mais próximo. Não mais querido. Mais próximo. Como se fosse mais honesto que ele não fingisse. Como se, ao não lhe dar nada, ele estivesse dando a única coisa que tinha: a verdade de que não tinha nada para dar.
Pelo menos ele não mente, pensou ela.
Pelo menos é isso.
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No fim da primeira semana, ela descobriu o jardim.
Estava abrindo a janela da biblioteca para deixar entrar ar quando viu — lá embaixo, atrás da ala leste da casa — um pedaço de verde que ela não tinha notado antes. Fechou o livro, desceu as escadas correndo, e saiu por uma porta lateral que dava para um pátio de pedra.
O jardim era pequeno, cercado de muros altos por todos os lados, com um caminho de cascalho branco que serpenteava entre canteiros malcuidados de rosas, alecrim e uma figueira grande e torta no canto. Havia um banco de pedra encostado no muro do fundo, coberto de musgo. Havia uma fonte seca no meio, com uma estátua de anjo sem uma das asas, como se alguém tivesse arrancado a pedra com um golpe. E havia, acima de tudo, uma coisa que fez Aurora parar no meio do caminho e olhar para cima, com o coração apertado.
Do outro lado do jardim, na parede da ala que dava para o escritório dele, havia uma janela grande, de vidros antigos e batentes escuros.
Era a janela dele.
Aurora reconheceu no mesmo instante — pelas cortinas, pela posição, porque já vira aquela janela de dentro, na manhã em que ele lhe ditara as regras. Era o escritório de Matteo Corvino.
E o jardim inteiro estava de frente para ela.
Ela ficou parada ali, no meio do cascalho, olhando para a janela, e sentiu uma coisa estranha subir pelo peito — uma coisa que ela não soube nomear na hora, e que só foi entender depois, deitada na cama, naquela noite.
Era a primeira vez, desde que chegara àquela casa, que ela tinha alguma coisa em comum com o marido. Não um quarto, não uma aliança, não um nome. Mas uma vista. Um pedaço de mundo que os dois olhavam, cada um do seu lado do vidro.
Ela não sabia se ele a veria dali. Provavelmente não. Provavelmente ele nunca abria aquelas cortinas, ou nunca olhava para baixo, ou nunca pensava que houvesse alguém no jardim.
Mas ela estaria ali.
Todos os dias, no banco de pedra, com um livro no colo, no meio das rosas malcuidadas e do anjo sem asa. Todos os dias, na frente da janela dele. Não para ser vista — ela já sabia que isso era pedir demais. Não para ser notada. Só para estar.
Só para lembrar a si mesma que o mundo era maior do que aquela casa, e que havia, no fundo do pátio fechado, um pedaço de céu que ninguém lhe tinha dado — que ela mesma tinha encontrado.
E se, algum dia, ele olhasse para baixo por acaso, e a visse ali, sentada no meio das rosas, lendo um livro que ele nunca leria, e — por um segundo, por um só segundo — pensasse nela como uma pessoa e não como um móvel, então, talvez, tudo aquilo tivesse valido a pena.
Aurora sorriu sozinha, sentou-se no banco de pedra e abriu o livro.
A janela continuou fechada, as cortinas continuaram corridas.
Mas ela ficou ali.