Na rua, Dallas diminui os passos e começa a chorar, quando está no jardim de sua casa, ela ouve alguém chamá-la, Kiera! Kiera! Espere! Kiera. É a voz de Livia, Kiera definitivamente não quer ver Livia. E dessa vez é sério. A mais alta entra em casa, e assim como fez na casa dos Lodge's, bate à porta com força, assustados, Will e Lexie vem ao seu encontro. Ambos abraçam a irmã e a levam para o sofá na sala, sentando-a e tentando acalmá-la.
— Shiii, Kie pare de chorar. Nos conte o que aconteceu – pede Lexie enquanto acaricia os cabelos de Kiera.
— E-ela... E-ela – a menina tenta responder, mas as palavras não saem, é doloroso demais para ela sequer lembrar.
— Ela quem? – Will questiona assim que a campainha toca. Kiera se levanta bruscamente e diz.
— Falem que eu n-não quero falar com ela, por favor. E-eu não quero. P-Por favor, Por f-favor.
— Ela quem? Kiera, nos responda! – mas já é tarde demais, Kiera já subiu para o andar de cima. Ainda preocupado, Will vai atender a porta, e acaba encontrando Livia ali.
Kiera encosta a porta do quarto na tentativa de não ter que ouvir as vozes lá embaixo. Ela sabe que é Livia. Assim que ela se deita, a porta se abre. Deve ser a Lexie, a garota pensa.
Errado.
É Maggie. Ela se senta na beirada da cama, e assim como Lexie, começa a fazer carinho nos cabelos da irmã.
— Kie? Está tudo bem? O que aconteceu? Eu vi você subir toda apressada – a loira se encolhe e se deita no colo de Maggie, ainda tendo seus cabelos acariciados.
— E-eu fui lá, assim como v-você disso pra e-eu fazer.
— E então, o que aconteceu? Por que você está assim? – Maggie pergunta, começando a ficar preocupada com a irmã.
— Q-quando eu c-cheguei lá, encontrei o Ja-j**k no quarto dela. Ai eu esperei um pouco. E-e quando eu v-vi, os dois estavam se beijando.
— Se beijando? – Maggie repete devagar, realmente não acreditando.
— S-sim.
— Eu... Mas não era pra você estar feliz? – Maggie tenta usar um tom de confusão em sua voz, mas ela quase não consegue ao ver sua irmã tão quebrada como ela está no momento.
— Fe-feliz? – Kiera não entende porque ela deveria estar feliz ao ver Livia beijar outra pessoa. Não quando ela... A menina para seus pensamentos. Não, ela não pode.
— Sim, os dois estão juntos. Assim como era pra ser – Maggie se sente m*l por dizer essas palavras, parecem veneno saindo de sua boca.
— E-eu não consigo ficar feliz, Mag... – afirma Kiera, fungando por conta do choro. Ela tenta reprimir, mas só de se lembrar da cena e ter que ficar feliz por conta disso... Bom, fica tudo demais para a garota suportar.
— E por que não, Kiera? – a Dallas fica em silêncio por alguns instantes, até que ela bufa e finalmente responde.
— Por que eu estou gostando da Livia...
Sexta-feira
Kiera já pode abrir uma fábrica de travesseiros com a quantidade de penas que tem em seu colchão. E isso não é uma brincadeira. São muitas penas, talvez dezenas delas. Penas, penas e mais penas, por todos os cantos. Pelo menos Maggie já não está mais ali para ver aquilo. A garota se levanta e vai para o banheiro, bufando e esfregando os olhos ainda inchados e vermelhos por conta do choro. Parece algum tipo de maldição, pensa ela.
A Dallas entra no box e tira suas roupas, ligando o chuveiro. Assim que a água quente entra em contato com a pele de suas costas, Kiera grita de dor. A menina desliga o chuveiro e vai até o espelho, se virando até que tenha uma visão parcial de suas costas.
Por um momento, ela não entende o que está vendo.
Ela leva suas mãos até as costas e acaricia as... as asas que lá estão.
Asas.
Kiera criou asas.
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O que eu vou fazer?
O que eu vou fazer?
O. QUE. EU. VOU. FAZER?
Eu não posso ter asas, isso é impossível...
Ou não é?
A garota pensa, e toca o par de asas novamente, ainda sem acreditar que elas estão mesmo ali. Kiera passa apenas a ponta dos dedos por elas, e se impressiona com o quanto as penas são macias. WOW. Eu tenho asas. E elas são grandes.
A Dallas olha a lateral do seu corpo, percebendo que as asas chegam até o final de sua b***a. Ok, talvez não tão grandes assim, mas isso já é alguma vantagem, ela pode escondê-las usando moletons enquanto ainda estiver fazendo um clima razoavelmente frio em Nova Jersey.
Toc Toc.
— Kiera? Kiera, você já acordou? Você vai se atrasar para a escola e também vai atrasar todo mundo – a voz abafada de Will soa pelo quarto, assustando Kiera, e logo o garoto volta a bater insistentemente na porta – Se por algum acaso você estiver me ignorando, fique sabendo que eu vou entrar nesse quarto e te arrancar da cama...1... 2... 3... Kiera? Onde você está?
— N-no banheiro – grita a loira, sabendo que, se não respondesse, Will daria um jeito de abrir a porta.
— Você já está terminando de se arrumar, Kie? – o menino pergunta do outro lado da porta.
— Já, daqui a pouco eu estou descendo.
— Tudo bem, eu vou ficar aqui esperando – avisa o garoto, deitando-se na cama da irmã, e assim que sua mão toca o colchão, ele percebe a grande quantidade de penas espalhadas pelo local. O menino se lembra que fazem várias semanas que as penas têm aparecido, Mas não em uma quantidade tão grande... Pensa ele enquanto analisa todo o quarto.
— NÃO! Q-quer dizer... – a Dallas pigarreia – Não precisa. Pode descer – agora sentado, Will estranha a reação de Kiera, ele se levanta e vai novamente até a porta do banheiro.
— Hey, você tem certeza que está tudo bem? – questiona o garoto enquanto gira a maçaneta. No meio do caminho, ele é interrompido por Kiera que empurra a porta de volta com o corpo, voltando a fechá-la e derrubando Will no chão.
— OW! Kiera, você tá louca? Abre essa porta – Will reclama enquanto se levanta.
— Will, eu estou nua, você vai fazer a gente se atrasar! Sai logo do meu quarto, eu preciso pegar minha roupa – Kiera fala, totalmente frustrada, dentro do banheiro a garota começa a suar frio com medo que o irmão veja suas asas.
— Que foi? Está com medo de eu não resistir ao seu corpo e abusar de você? – Kiera balança a cabeça negativamente, Will nunca perde a oportunidade de fazer uma piadinha.
— Não é isso, seu palhaço. É sério, Winslow, por favor – Will começa a se preocupar com a garota de olhos azuis, mas acaba cedendo ao pedido.
— Tudo bem, já estou descendo. Se veste rápido – o garoto sai do quarto e desce as escadas até a cozinha, lá encontra John e Megan, sentados um ao lado do outro, tomando o café-da-manhã.
— A Kiera não vai pra escola hoje? – questiona Megan, a preocupação de mãe tomando conta de seus olhos quando vê que a loira não desceu junto com Will.
— Vai sim, ela já está se vestindo. Onde estão Maggie e Lexie?
— Estão na sala – John responde despreocupadamente.
— Lexie, Maggie, venham aqui – grita Will, assustando a todos.
— Tem algo pegando fogo? – brinca Maggie, assim que ela e a namorada chegam à cozinha.
— Não. Bom... Talvez. Não.
— Se decida, Will... – pede Lexie enquanto se senta ao lado de Megan.
— Não. Isso não tem nada a ver com fogo – é a resposta definitiva do garoto.
— Então nos diga, o que é – John pede enquanto deixa seu café de lado para prestar atenção na conversa.
— Eu acho... Eu acho que nasceram.
— Nasceram? Nasceram o que? – pergunta Megan, confusa, assim como todos os outros presentes no cômodo.
— As asas – no momento em que Will responde, os olhos dos quatro se arregalam, Maggie e Lexie se entreolham, surpresas. Megan até larga sua xícara de café na mesa, quase deixando-a cair.
— Já? – questiona Lexie, completamente incrédula.
— Eu acho que sim – o garoto dá de ombros.
— Por que você está achando isso? – John pergunta para Will, duvidoso.
— Eu fui no quarto chamar ela e tinham várias penas espalhadas pelo colchão. E quando eu tentei entrar no banheiro, ela bateu a porta em mim e não me deixou entrar.
— Mas eu também não deixaria você entrar, seu t****o – Maggie brinca, tentando deixar o clima menos tenso.
— Mas ela está soltando penas fazem semanas, parece até uma galinha – Lexie comenta, e desta vez Will não consegue segurar a risada.
— Eu sei... Mas, desta vez, eram muitas – insiste ele.
— Bom, vamos fazer assim: Prestem mais atenção nela esta semana, tentem notar algo de estranho nas costas dela, só assim teremos uma resposta – conclui John e todos concordam.
Ainda no quarto, Kiera revira seu armário, tentando achar um moletom grande o suficiente para cobrir até a metade de sua b***a. A garota não quer arriscar que alguém veja suas asas. Não mesmo.
Assim que ela finalmente encontra um moletom suficientemente longo, veste-se apressadamente, lembrando que já está atrasada para a escola. Antes de descer, Kiera se olha no espelho e percebe que tem um pequeno volume nos ombros.
Antes uma quase-corcunda do que mostrar as asas... Conclui ela, dando de ombros e pegando a mochila que estava no chão, apoiada na escrivaninha. Assim que a Dallas chega na porta do quarto, ela contrai as costas sentindo as penas acariciarem sua pele. Pelo menos elas não incomodam, pensa a garota enquanto desce as escadas e vai em direção à cozinha, encontrando sua família ali, reunida.
— Vocês fizeram uma reunião em família e eu não fiquei sabendo? – brinca a loira, cumprimentando todos – Vamos? – ela pergunta a seus irmãos.
— Não vai comer nada, Kiera? – questiona Megan, olhando atentamente cada parte do corpo de Kiera, quando chega em seus ombros, o olhar da mulher para, reparando no volume contido ali, Kiera definitivamente tem asas.
— Não, já estamos atrasados. Mas pode deixar que eu como lá – assegura a garota enquanto lhe dá um beijo de despedida, os outros se levantam e também se despedem de seus pais.
No carro, Will se senta ao lado de Kiera no banco de trás. O garoto analisa a Dallas da mesma forma que Megan, e assim como ela, percebe rapidamente o volume nas costas da loira, como se fossem uma corcunda. Do banco da frente, Maggie também observa Kiera, se lembrando das palavras da garota na noite passada.
— E por que não, Kiera?
— Por que eu estou gostando da Livia.
Mesmo a garota estando tão destruída naquele momento, Maggie não poderia ter se sentido tão feliz por ter sido a primeira a ouvir a confissão de Kiera. O acontecido fora um voto de confiança que a Dallas deu a irmã, e Maggie prometeu a si mesma que não quebraria esse voto de forma alguma.