Mestre narrando
Desde que Ana saiu que eu tento pensar em outra coisa, juro que tento, mas não consigo. É como se ela tivesse entrado sem pedir licença e tentado ficar na minha mente, O mais louco disso tudo é que eu nem consigo chamar ela de Júlia. Esse nome pesa, machuca, Júlia foi o que ficou no passado. Ana… Ana é o que tá me deixando assim agora. Não quero misturar uma coisa com a outra, mesmo que o nome, os olhos , a voz doce sejam quase os mesmos. O coração reconhece, e é aí que mora o perigo.
Hoje deixei a Melissa com a Ana lá na casa da minha mãe. Ela tava brincando com minha filha, as duas rindo no quintal. Cena bonita, dessas que a gente guarda sem querer. Mas eu tinha que voltar pra rua, não posso vacilar, A responsa aqui no morro é minha, e a paz que Mel têm lá dentro só existe porque eu mantenho tudo em ordem aqui fora.
Cheguei na boca, dei aquele salve nos meus mano e logo fui chamado pra almoçar no Bar com os vapores. Sentamos na mesa de sempre, aquela do canto que dá pra ver a entrada e saída de todo mundo. Tava um clima de risada, papo solto, eles contando as histórias de ontem à noite, umas besteiras que a gente ouve só pra não dizer que não relaxou um pouco.
Do nada, a Tatiana chega. Andando toda cheia de si, rebolando como se fosse dona do mundo. Se aproximou da mesa com aquele sorriso debochado que ela sempre carregava no rosto, como se tivesse acima de todo mundo.
Tatiana: E aí, Mestre, Quem é a imensa que tava contigo mais cedo?
Ela falou alto, daquele jeito venenoso, olhando pros outros como se esperasse a risada, E ela conseguiu.
Os vapores caíram na gargalhada, batendo palma, gritando "eita" como se tivessem ouvido a melhor piada do ano. Mas eu não ri, Pelo contrário. Aquilo me subiu pela espinha feito veneno, Imensa? Ela tava falando da Ana. Da mulher que, sem nem saber, tava fazendo meu coração bater de um jeito diferente, Ninguém tinha o direito de falar dela assim. Ninguém.
Levantei devagar, O bar silenciou, a risada dos vapores foi morrendo, um por um, até só sobrar o som da minha cadeira arrastando no chão. Fiquei cara a cara com a Tatiana, que na hora parou de sorrir.
Mestre: Cê tá doida, sua porr@? - perguntei, olhando dentro dos olhos dela.
Tatiana: Que foi, Mestre? Só brinquei .
Tatiana: Eu sei que ela é gordinha, mas eu não tenho preconceito, não
- ela tentou se explicar, mas eu já tinha perdido a paciência.
Segurei ela pelo pescoço, não com força pra machucar, mas o suficiente pra ela entender que ali tinha limite. Que comigo, respeito era lei. E que ela tinha passado.
Mestre: Aprende uma coisa - falei firme, sem tirar os olhos dela.
Mestre: Aqui ninguém fala da Ana. Nem dela e nem de mulher nenhuma com esse desrespeito, Da próxima vez que tu abrir essa boca pra zombar de alguém, cê vai se ver comigo de verdade. Tá entendendo?
Ela só assentiu, meio tremendo, o olhar assustado, Soltei devagar e voltei pra minha cadeira. Os vapores ficaram mudos, sem saber onde enfiar a cara. Eu não me importei.
Peguei meu copo, dei um gole na cerveja e soltei.
Mestre: Respeito é o mínimo, e quem não aprende no papo, aprende na dor.
Ninguém respondeu, e eu acho bom assim, bando de filho da put@, mede as pessoas pela aparência.
Depois que paguei a conta, e fui direto pra boca. Tinha uma fita que tavam me falando há dias, mas eu queria ver com meus próprios olhos. Não confio cem por cento em ninguém nesse jogo, e quando dizem que tem um ladrãozinho passando a mão no povo da comunidade, a gente precisa agir. Aqui no Vidigal, lei é lei. E quem quebra, paga caro.
Cheguei devagar, beco escuro, só os olhos atentos dos moleques me acompanhando. O rádio chiava alguma coisa sobre a movimentação no alto do morro, mas não dei atenção, Meus pés conhecem aquele chão como a palma da minha mão. No beco estreito, avistei o moleque. Magrelo, sujo, os olhos esbugalhados de quem já tava longe do mundo fazia tempo. Joãozinho, noia, cresceu aqui. Já tinha dado trabalho antes, mas dessa vez, passou do limite. Roubou uma senhora, moradora antiga, que sempre ajudou geral. Isso eu não aceito.
Mestre: Joãozinho - chamei no seco.
Ele virou assustado, a mão tremendo, um saquinho plástico amassado na palma.
Joãozinho: Mestre, eu tava só tentando arrumar um trocado.
Mestre: Tu roubou a dona Lourdes,A veinha que te dava pão quando tu era pivete, Isso não se faz. Aqui não.
Joãozinho: Eu, me desculpa, foi o desespero, juro que foi a última vez.
Desculpa, não compra respeito, nem conserta o estrago. O morro tem que entender que tem regras, e quem quebra, já sabe o fim.
Puxei a pistola da cintura e mirei firme, Não hesitei. Um disparo seco. Joãozinho caiu com os olhos abertos, sem chance de mais nada, É triste, mas é necessário. Melhor um exemplo do que um caos. No Vidigal, a ordem vale mais que qualquer emoção.
Deixei os meninos resolverem o resto e parti. Já era noite quando fui pra casa da minha mãe, queria ver minha filha, esquecer um pouco o peso da rua. Assim que entrei, senti o cheiro doce no ar, bolo de chocolate. Aquilo me deu um calor no peito que fazia tempo que eu não sentia.
Do corredor, ouvi as risadas da Melissa vindo da cozinha. Meu mundo.
Melissa: Papai! - ela gritou, quando me viu entrando.
Melissa: A Ana fez bolo e biscoito pra eu levar pra escola amanhã.
Ela veio correndo e se jogou no meu colo, Eu sorri, mesmo sem querer demonstrar muito. Olhei pra Ana, que estava parada perto do fogão com minha mãe, Ela sorriu também. Só que aquele sorriso me pegou.
Ela continuou sorrindo. Não é possível, essa mulher vai me enlouquecer.
O sorriso dela tem covinhas nas bochechas, igual da minha Júlia. Mano! Vou ter que tirar isso a limpo, não pode ser, ou pode? Minha Julinha, Será?