Um Passo Adiante

2641 Palavras
*Katsudon: Feito com arroz e costeleta de porco empanada, katsudon é dito ser o prato favorito de Izuku. --- A espera pela resposta de Izuku foi excruciante, se é que teria uma… Bakugou não queria pensar tão pouco do esverdeado, o conhecia o suficiente para saber que não se rebaixaria ao nível de partir sem sequer uma despedida, mas após uma revelação tão chocante, começava a ter suas dúvidas. Apesar de terem se passado apenas vinte e quatro horas desde sua última conversa, o cupido já sentia falta da alma gêmea e sentia também os efeitos iminentes da maldição borbulhando no âmago de seu ser, prestes a explodir a qualquer momento. Foi na manhã do dia seguinte que Katsuki acordou com o celular vibrando com uma notificação; buscou o aparelho grogue de sono ainda na cama e acabado de acordar, então gelou ao ver o nome de Izuku na tela. Se levantando de prontidão, o cupido sentou no colchão e abriu a mensagem. [IM]: Está acordado? Seus dedos pairaram sobre o teclado da tela tátil pensando bem numa resposta, mas fazia um tempo desde que ouviu sua voz após a “bomba”, por isso o ligou muito hesitante e cruzou os dedos para Izuku atender. - Kacchan? Katsuki quase suspirou aliviado ao ouvir sua resposta. - Bom dia, Izuku. Está pronto para conversar, agora? - Acho que sim… mas precisamos nos falar pessoalmente. - Eu entendo… na minha casa ou na sua? - Pode vir na minha? Se não for incômodo… - Incômodo nenhum, já estou indo. Te vejo lá. - Até mais. Desligando rapidamente, Bakugou pulou da cama e se arrumou às pressas, buscando suas chaves logo em seguida e partindo direto à casa do esverdeado; uma vez em seu destino, uniu coragem para sair do carro, tocou a campainha hesitante e quase pulou em cima de Izuku quando este atendeu a porta. - Oi. - Saudou com um sorriso constrangido. Izuku o recebeu com a mesma expressão. - Oi… quer entrar? Bakugou assentiu e pediu licença ao passar pela porta, seguindo Izuku até a sala como se fosse sua primeira vez naquela casa. Sentaram no sofá e hesitaram, cada qual procurando as palavras certas para começar. - Já tomou café da manhã? - Hum? - Katsuki resmungou confuso à pergunta. - Ainda é cedo e acabamos de acordar… quer comer alguma coisa antes de começarmos? Katsuki pausou, aquela não era a melhor hora para sua hospitalidade. - Talvez depois, faz um tempo que não ouço de você e ainda não sei o que esperar… Izuku assentiu acanhado. - Claro… sinto muito, não quis te preocupar à toa, só precisei de um tempo para colocar meus pensamentos no lugar. A verdade é que… no fim de tudo, você continua sendo o Kacchan. Katsuki sorriu aliviado. - Então você entende. - Ei, eu não posso controlar isso e nem você, é como você nasceu, então só precisamos aprender a lidar. - O esverdeado deu de ombros. - Obrigado, Izu. - Katsuki acariciou seus cachos verdes atrás da orelha. - Então… a mudança ainda está de pé? - Arriscou. - Claro! Podemos nos mudar para o seu apartamento, o que acha? - Izuku sorriu radiante. - Na verdade, estava pensando em me mudar para cá. - Por que aqui? - O esverdeado indagou curioso. - Meu prédio anda cercado de paparazzi ultimamente e está me dando nos nervos, além do mais, aqui a vida é mais simples e aconchegante, acho que vai nos fazer bem. - Completou com um sorriso. Izuku sorriu de volta. - Certo, então organizamos isso depois; agora deve estar com fome, quer café da manhã? - Eu quero. Não percebendo a malícia em seu tom, o esverdeado se levantou em direção à cozinha para tirar uma porção de sobras para Kacchan, porém foi surpreendido por um par de braços agarrando-o e levantando-o. - Ah- Kacchan! O que está fazendo?! - Vou me servir. - Bakugou sorriu de lado. - Mas espera-! - Silêncio, você me deve essa depois de fazer eu me preocupar à toa. Apesar de protestar e espernear um pouco, Izuku deixou-o carregá-lo até o quarto, onde Bakugou quase rasgou suas roupas ao arrancá-las com força do esverdeado que exclamava surpreso; no fim, apenas se entregou, deixando o íncubo fazer o que bem entendesse com ele. Izuku caiu no sono logo em seguida e Katsuki deixou-o dormir, depositando um beijo no canto de sua boca antes de se levantar para tomar café com as sobras da geladeira, foi quando teve a surpresa em ver que o sardento fora atencioso o suficiente para fazer duas porções. Após uma refeição rápida, o íncubo voltou ao quarto onde Izuku já estava acordando. Bakugou sorriu e foi até ele, sentando na beira da cama e se inclinando para dar-lhe um beijo nos lábios. - Olá, você. - Sussurrou o cupido com um olhar amoroso. - Kacchan… - Izuku sorriu de volta. - Precisamos marcar um dia para organizar a mudança, agora é oficial. - Isso, mas antes precisamos fazer outra coisa. Bakugou fitou-o curioso. - O quê, exatamente? - Quero te apresentar a minha mãe. - O esverdeado sorriu inocentemente. O íncubo pausou para digerir a informação, seu coração acelerou tanto que um calor se espalhou do seu peito para o pescoço e até às bochechas, então sorriu sincero. - É justo… eu também sempre quis conhecê-la. - Hum… Nesse caso, posso conhecer a dona Mitsuki, também? O pedido fez Katsuki gelar. - Como é…? - … Não posso? - Izuku se apoiou nos cotovelos, levemente desapontado. - Não é isso, é que… temos um relacionamento meio conturbado. - Ah… - Mas faço esse esforço por você. - N-não precisa! Não quero te forçar a isso, se não quiser! - Eu vou fazer, não é como se minha mãe fosse de todo terrível, ela só é bem rígida, além do mais, você vale a pena. - Kacchan… não precisa se forçar a fazer o que não quer por minha causa, não quero deixá-lo desconfortável. - Ei, você não está me obrigando a nada, eu vou fazer isso; me parece uma troca justa, ainda mais agora que estamos ficando sério. Vendo-se sem argumentos, Izuku apenas se calou corado. - Agora preciso voltar, tenho que me arrumar antes de sair pro trabalho. Depois vemos isso direito, certo? - Bakugou sorriu em sua direção e Izuku retribuiu. - Certo. - Nos vemos depois. Com um último beijo, o cupido se levantou, olhando para trás ao esverdeado que sorria feito bobo em sua direção, então saiu. Com os dias, começaram os planejamentos e as preparações para a mudança; Katsuki não quis levar muita coisa, no máximo metade do seu guarda roupa e os materiais de trabalho. “É desnecessário levar bens extravagantes para uma vida simples”, raciocinava ele. Enquanto encaixotavam seus pertences e gradualmente se preparavam para o grande dia, planejavam também a data da visita à senhora Midoriya, enquanto isso, o íncubo também se preparava psicologicamente do seu lado. Fazia um tempo que Katsuki se via frente à casa de sua mãe, não ousou dar as caras desde aquele último sermão, afinal sabia o que lhe aguardava e não estava a fim de ouvir. Respirando fundo uma última vez, o cupido ergueu a mão hesitante e bateu na porta de madeira antiga, sendo recebido quase que imediatamente por um mordomo. - Amo Katsuki, que surpresa agradável! - Saudou radiante. - Vou avisar a ama Mitsuki que está aqui, pode entrar. Katsuki resistiu ao impulso de revirar os olhos e adentrou o hall da mansão; antes que o mordomo tivesse tempo de se retirar, no entanto, a súcuba apareceu à sua frente. - Hora, que surpresa… O que aconteceu, desta vez? - Mitsuki perguntou ao filho com uma sobrancelha arqueada. O mordomo lhes deu privacidade para botar a conversa em dia e Katsuki hesitou acanhado. - O que te faz pensar que preciso da sua ajuda? - É sempre o único motivo que te traz aqui. Seu filho abaixou os olhos com uma pontada de culpa. - Precisamos conversar um pouco… - Certo, então venha sentar. - Mitsuki se retirou, indicando para que a acompanhasse à sala de lareira. Katsuki a seguiu relutante. Enquanto se sentavam, Mitsuki ordenou às empregadas que lhe trouxessem chá, no que obedeceram de prontidão. - Não planejo ficar muito tempo. - Avisou Katsuki. - Sei que é ocupado, mas poderia fazer isso ao menos pela sua mãe, não é? O cupido abaixou os olhos antes de se voltar para Mitsuki. - Escuta, eu… tem uma pessoa que eu quero te apresentar. - Hmpf! Eu sabia. Só fico feliz que não tenha se deixado chegar ao limite antes de aceitar sua alma gêmea. - Mãe… - Está bem, querido, e quando planeja me apresentar esse sortudo? - Mitsuki lançou uma piscadela em sua direção. - Ainda estamos vendo tudo isso… Vou conhecer a mãe dele nos próximos dias agora que estamos ficando sério, mas pretendo te avisar assim que a próxima oportunidade surgir. - É bom que agora aceite sua alma gêmea, eu te disse que não era conto de fadas. Katsuki rosnou impaciente. - Sabia que diria isso. Mitsuki riu divertidamente. - Às vezes é bom poder soltar um “bem que eu te avisei”, eu não resisti! Mas esse rapaz parece estar te fazendo bem… estou orgulhosa de você, Katsuki. O íncubo coçou a nuca acanhado. - Bom… obrigado. - E ele já sabe? - Ah, bem… sim. Eu o contei, quando me pediu para morarmos juntos. - E como ele aceitou? - Foi até bem… levou um tempo para tudo voltar pro lugar, mas, no fim, ele entendeu. - Isso é ótimo! - É… - Katsuki sorriu constrangido. - m*l posso esperar para conhecê-lo! Um sentimento reconfortante preencheu o peito do cupido, não lembrava a última vez que tivera uma conversa tão agradável com sua mãe pois sempre fora mimado e respondão. Izuku estava lhe fazendo um bem maior do que havia imaginado. Finalmente chegou o dia, Izuku e Katsuki estavam do lado de fora da casa da senhora Midoriya e, apesar de não demonstrar, o íncubo estava uma pilha de nervos. - Tem certeza de que a sua mãe vai me aceitar? - Perguntou nervoso quando Izuku tocou a campainha. - Não se preocupe, Kacchan… tenho certeza de que ela vai gostar de você! - Não é esse o problema. - Está tudo bem, ela já sabe que eu sou bi. Katsuki mordeu a língua; não imaginava que a senhora Midoriya soubesse desse detalhe, também não fazia ideia se aceitava bem. Antes que pudesse perguntar, no entanto, a porta abriu revelando uma senhora baixinha e rechonchuda de cabelos esverdeados. - Oi, mãe! - Izuku cumprimentou radiante. - Izuku! - A mulher se aproximou para abraçar o filho e então se afastou para dar-lhe uma boa olhada. - Há quanto tempo, querido! Queria que tivesse visitado mais vezes. - Ah, claro! Desculpe por isso… - Izuku coçou a cabeça, acanhado. Sua mãe negou com a cabeça. - Sei como é ocupado, mas gostaria que encontrasse um pouco mais de tempo para a sua mãe… tem sido meio solitário. - Disse ela e se virou para Katsuki. - E você deve ser o senhor Bakugou, certo? Izuku me contou sobre você. - Ah- isso! É um prazer, senhora Mido- - O íncubo se abaixou para reverenciar, mas foi recebido com um tapa na cara. Katsuki cambaleou para trás segurando o próprio rosto e se virou para Izuku que olhava do namorado pra mãe em choque. - Quanto você contou para ela? - Resmungou Katsuki. - O suficiente, senhor Bakugou… - Inko sorriu sarcástica. - Mãe?! - Mas, apesar do seu começo conturbado com meu filho, agradeço o que vem fazendo por ele… Espero que cuide bem do Izuku, daqui para frente. - Disse ela com uma reverência. - Ah- claro! Pode contar comigo para isso, senhora Midoriya. - Disse Bakugou, seguindo a deixa. - Bom, vamos entrar, meninos! O jantar está pronto. - Mãe, eu disse que te ajudaríamos com isso, quando chegássemos. - Izuku suspirou cansado ao segui-la para dentro de casa. - Eu sei, querido! Mas queria fazer algo especial, afinal, sei como gosta do meu katsudon*. Izuku riu acanhado; realmente nada batia o katsudon de sua mãe. No fim, tudo correu melhor do que o esperado. Inko visivelmente ainda carregava certo rancor de Katsuki pelo que fez com seu filho mas, fora o literal tapa na cara, não comentaram mais sobre o assunto; Katsuki estava realmente apaixonado por Izuku e isso era bem visível. Após o jantar, os rapazes se ofereceram para ajudar com a louça e então assistiram um pouco de TV, conversando e tomando chá; quando se despediram, Inko se virou pro filho antes que fossem embora. - Ah, Izuku! Pode ficar mais um pouco…? Precisamos conversar sobre algo. O esverdeado se virou pro namorado, cujo lhe lançou um olhar encorajador. - Claro… sobre o que seria? - Precisamos conversar em particular. - Disse Inko ao se virar para Bakugou. - Claro… Vou indo na frente, te espero no carro. - Disse para Izuku. Beijando a testa do namorado, Katsuki se retirou, deixando mãe e filho sozinhos. Ambos voltaram para a sala de estar e se sentaram. - Não tem jeito fácil de te dizer isso, querido… seu pai e eu… vamos nos divorciar. - Hã…? - Izuku comentou com um tom decepcionado. - Eu não queria que chegasse a esse ponto… mas, sem nenhuma previsão pro seu pai voltar e, com você seguindo sua própria vida, tem sido difícil lidar com a solidão. Izuku abaixou os olhos, tristonho. - Desde quando? - Já fazem algumas semanas que conversamos por telefone… ele concorda com a decisão… talvez fique nos Estados Unidos, depois de tudo. Izuku não sabia mais o que dizer, seus olhos verdes marejaram com a notícia repentina. - Ah, querido… - Inko segurou sua mão para consolá-lo. - Eu não queria que tivesse chegado a isso. - Você tem esse direito… Lamento que tenha se sentido sozinha por tanto tempo. - Está tudo bem… Eu… acabei conhecendo alguém. Izuku se virou pra mãe, espantado. - Hã…? - Sei o que está pensando, mas não é bem assim… Nós nos conhecemos por acaso no meu serviço e nos interessamos um no outro… ainda não tentamos nada, afinal ainda sou casada e ele sabe disso mas, assim que o divórcio for oficial, vamos tentar nos encontrar e ver no que vai dar. O esverdeado se calou mortificado, era muita informação ao mesmo tempo. - Eu sinto muito que tenha chegado a isso. - Inko disse devagar. Izuku fungou. - Está tudo bem, mãe… só é difícil de engolir tudo de uma vez. Mas, afinal, com quem está se encontrando? Inko esboçou um sorriso fraco. - Seu nome é Toshinori Yagi, é um empregado recente na empresa… Posso apresentá-lo qualquer dia, se quiser… - É claro que eu quero. - É justo, não? Inko consolou o filho enquanto este assimilava o que acabara de ouvir, precisava de um tempo, afinal. Logo após, mãe e filho se despediram e Izuku foi até Kacchan que o esperava no carro, seus olhos inchados e expressão cansada não passaram despercebidos. - Ei… sobre o que conversaram? - Indagou o íncubo preocupado. Izuku hesitou. - Meus pais vão se divorciar. A notícia veio como um choque. - Ah… eu sinto muito por isso. - Tudo bem… meu pai não dá as caras há dezessete anos, minha mãe merece mais do que isso. Bakugou não pensou duas vezes, desatou o cinto de segurança e se aproximou para um abraço repentino, e então Izuku deixou fluir, chorando tudo o que estava segurando até agora. Ficaram um bom tempo assim até finalmente poderem voltar para casa.
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