capítulo 12

1981 Palavras
Enquanto isso, Erick caminhava para longe do quarto como se fugisse de um incêndio — ou de si mesmo. O peito apertado, a respiração presa, a lembrança dos olhos dela queimando como um aviso. Edward, que o esperava a poucos metros dali, ergueu as sobrancelhas ao ver o estado dele. — Erick. — chamou, aproximando-se. — Você já vai? Erick apenas deu um aceno curto, quase seco. — Sim. — Mas… você nem chegou a falar com ela. Erick manteve os olhos fixos no chão, a voz baixa, tensa: — Isso não importa. Ela está bem. É o que importa. Edward cruzou os braços, avaliando. Depois soltou: — Erick… você está gostando da Marina, não está? A pergunta atingiu Erick como um soco surpresa. Ele piscou, rígido, o corpo inteiro se enrijecendo num reflexo automático de defesa. — Ora, o que está dizendo? — rebateu irritado, lançando um olhar afiado. Edward não recuou — pelo contrário, sorriu de leve, aquele sorriso de quem conhece o amigo melhor do que ele próprio. — Eu sou seu amigo, Erick. Não precisa esconder nada. Eu vi como você olhava pra ela. Erick desviou o olhar imediatamente. A mandíbula trincou. Um nó subiu pela garganta. A respiração pesou. Edward observou cada detalhe — e o sorriso de canto voltou. — Finalmente… você está superando a Eliza. Aquilo fez Erick congelar. O nome dela. Eliza. Não trazia mais dor — trazia raiva. Frustração. Indiferença. Um vazio quase frio. E perceber isso o assustou. Perceber que ela não ocupava mais aquele espaço imenso dentro dele… Perceber que outra pessoa — outro olhar, outra voz doce, outro sorriso — estava ganhando esse espaço sem permissão… Aquilo o deixou sem chão. — Eu não estou gostando dela, tá legal? — disparou, irritado demais, rápido demais. — Eu m*l a conheço. Você tá viajando. — Ah, meu amigo… — disse Edward, rindo pelo nariz. — Você vai perceber que se apaixonar é muito mais fácil do que imagina. Às vezes acontece… e você nem percebe. — Para, Edward. — Erick cortou, ríspido. — Eu saberia se estivesse apaixonado. — Saber? — Edward inclinou a cabeça. — Ou admitir? Erick cerrou os olhos. A respiração dele tremeu. Porque aquela frase o acertou no ponto exato que ele estava tentando evitar. Edward deu dois tapinhas no ombro dele antes de se afastar: — Tudo bem. Se quiser enganar a si mesmo… vai em frente. E saiu, deixando Erick sozinho no corredor silencioso. Erick ficou parado ali, imóvel, como se o chão tivesse sumido. Ele não sabia dizer o que sentia. Só sabia que Marina estivera desacordada, e isso tinha destruído algo dentro dele. E que quando ela abriu os olhos… alguma coisa renasceu. E que negar aquilo estava ficando… impossível. Erick desceu o corredor com passos longos, ainda ouvindo, contra a própria vontade, o eco das palavras de Eduardo que o perseguiam como lâminas: “Você está gostando da Marina, não está?” “…finalmente superando a Eliza.” Ele não respondeu. Não conseguia. O peito estava apertado demais, a garganta travada demais. Tinha a sensação absurda de que, se respirasse fundo demais, algo dentro dele ruiria. Ele odiava essa sensação. Odiava mais ainda o fato de Eduardo estar certo — porque uma parte dele, uma que não queria admitir, sabia que estava. Enquanto isso, no quarto, Miranda ainda abraçava Marina com o alívio de quem quase perdeu tudo. Edward, já recomposto, explicava com calma o que havia acontecido, desde o momento em que a encontrara desacordada até o instante em que ela despertou. Marina, conforme ouvia, começou a compreender. Ele estava ali. Aquele olhar no corredor… Aquele choque suave, silencioso, que ela achou ter imaginado… Não era alucinação. Ela sorriu — pequeno, tímido, involuntário. — Onde ele está agora? Quero agradecê-lo. — disse Marina, ajeitando-se devagar na cama. Edward soltou o ar, um pouco frustrado. — Ele já foi. O sorriso dela murchou, e Marina baixou os olhos por reflexo. Não conseguiu esconder a pontada estranha — quase infantil — de decepção. Edward percebeu, mas não comentou. Miranda, ainda emocionada, tentou suavizar: — Querida, não se preocupe. Eu já o agradeci. Ele só foi embora quando soube que você estava bem. Ele realmente… é um médico e tanto. Marina apenas assentiu. Mas dentro dela havia uma pequena, insistente, e incômoda pergunta: Por que ele foi tão rápido? Um leve pigarro da médica chamou a atenção de todos. — Felizmente, Marina está fora de perigo. Sem indícios de sequelas, mas vamos seguir com alguns exames para garantir. Recomendo observação pelos próximos dois dias. — Claro — respondeu Patrício. — O mais importante é que ela se recupere totalmente. A família saiu para que os exames fossem feitos. As horas seguintes foram calmas. Os resultados confirmaram que Marina estava bem, mas debilitada. Quando Miranda e Patrício retornaram ao quarto, a tensão tomou o ar como se os muros tivessem ouvido demais. Miranda, ainda com os olhos marejados, sentou-se na beira da cama e tomou a mão da filha. — Marina… por que você fez isso? Não estou te julgando, meu amor. Mas… eu quase te perdi. A expressão de Marina endureceu imediatamente. Ela virou o rosto para Patrício. — Você venceu, pai. Considere-se sortudo por eu ser um fracasso. — disse ela, com uma frieza que cortava. Patrício respirou fundo, como alguém que estava esperando esse confronto, mas não pronto para ele. Miranda olhou de um para o outro, confusa. — Do que estão falando? Marina ergueu o queixo. — Você conta… ou eu conto? Patrício pigarreou, desviando os olhos. — Querida — disse ele para Miranda — Marina precisa descansar. Seja lá o que você queira saber… eu te conto depois. Miranda hesitou, olhando de um para o outro, mas enfim se levantou. Antes de sair, Patrício se aproximou da filha. — Nós te amamos, Marina. Nunca duvide disso. — disse ele, com uma sinceridade que partiu mais que consolou. Ela virou o rosto para o lado, tentando controlar o tremor nos lábios. Assim que a porta se fechou e o silêncio tomou conta, Marina finalmente deixou as lágrimas escorrerem. Não sabia se chorava pela família. Pelo desespero recente. Ou pelo médico que a salvou… e sumiu antes que ela pudesse agradecê-lo. O sol já estava quase se pondo quando Erick desceu do táxi em frente ao hotel. O céu, manchado de laranja e violeta, parecia mais um alerta do que um fim de tarde. Ele atravessou o saguão com passos lentos, arrastados — como se cada movimento exigisse mais energia do que ele tinha. Seguiu para o restaurante por pura obrigação. Precisava comer. Precisava fingir normalidade. Precisava fazer o corpo funcionar, já que a mente estava em guerra. Sentou-se numa mesa afastada e pediu qualquer coisa — frango grelhado, arroz, salada, legumes. Nada que exigisse escolha. Quando o prato chegou, parecia apetitoso… mas ele estava longe demais, perdido dentro de si. Endireitou-se na cadeira, respirou fundo e levou a primeira garfada à boca. Mastigou devagar, sentiu o tempero… mas não o gosto. Nada tinha sabor desde o hospital. Desde o toque dela. Desde aquele beijo que ele tentava fingir que não lembrava com detalhes demais. E, principalmente, desde que Edward soltara aquilo sem cerimônia: “Você gosta dela, idiota.” As palavras ecoavam como um soco repetido, insistente. As lembranças vinham iguais — Marina tremendo, Marina desabando nos braços dele, Marina se agarrando a ele como se fosse o único lugar seguro que existia. E o pior: ele se lembrava do que sentiu naquele momento. Proteção. Fúria. Desejo. Pânico. Ele inspirou profundo, empurrando o ar para dentro do peito, tentando expulsar a bagunça. Expirou com força. Nada. — m***a… — murmurou quando o estômago virou, a comida pesando como chumbo. Levantou-se tão rápido que quase derrubou a cadeira. Abandonou o prato intacto e saiu como quem precisa fugir de si mesmo. No quarto, abriu a porta com brutalidade e caminhou até a sacada. O vento frio bateu em seu rosto, cortando um pouco do calor que subia sob a pele — mas não o suficiente. Passou as mãos pelos cabelos, puxando-os para trás com frustração, e se apoiou no parapeito, o peito arfando. Era ridículo. Absurdo. Mas, ali, sozinho, não tinha mais como fugir da pergunta: Será que era isso? Será que estava apaixonado? Por Marina? O pensamento fez um sorriso torto surgir em seus lábios — um sorriso que era quase um deboche de si mesmo. — Não… claro que não. — murmurou, inquieto. — Não em poucos dias. Não sou mais um garoto pra acreditar em amor à primeira vista. Isso é loucura. Mas a lembrança do beijo veio como um flash, tão viva que seu corpo reagiu antes da razão. O calor. A proximidade. O gosto dela. A forma como ele perdeu o controle por alguns segundos. E como, desde então, não passou um único dia sem pensar naquilo. E, sem nem perceber, os planos meticulosamente traçados que ditavam sua vida… haviam começado a desmoronar pouco a pouco, por causa dela. A constatação o atingiu com força — um soco invisível no estômago. Mesmo ciente de tudo isso, Erick não conseguia entender exatamente o porquê. Era como se Marina tivesse entrado pelas frestas que ele achava que estavam bem fechadas. Ele saiu da sacada num impulso, irritado com o próprio corpo. Sentou-se na cama e pegou o celular, buscando qualquer distração — qualquer coisa que o puxasse de volta para o chão. ABRIU A GALERIA. E clicou na foto de Eliza. A imagem dela encheu a tela: loira, elegante, olhos azuis que já tinham sido seu norte. O sorriso perfeito. O mesmo sorriso que ele guardou como lembrança… ou como prisão. Mas, desta vez, nada doeu. Não havia saudade. Não havia amor. Nem sequer tristeza. Só raiva. Raiva dela. Raiva do passado. Raiva de si mesmo por ter permitido que ela ocupasse um espaço tão grande por tanto tempo. Ele não sorriu. Não amoleceu. Não sentiu nada além de uma irritação amarga, que queimava de dentro pra fora. E, por algum motivo que o deixava ainda mais desconfortável, a imagem de Eliza pareceu menor do que antes. Insignificante. Como se alguém estivesse, aos poucos, ocupando o lugar que ela deixou. E esse alguém tinha nome. Marina. — d***a. — explodiu, apertando o celular com força. — d***a! Era isso que ele não queria aceitar. Era isso que o deixava nauseado. Não era só atração. Não era só o impacto do beijo. Não era só preocupação. Era algo maior… e muito mais perigoso. Ele estava se apaixonando. Por ela. E isso o aterrorizava mais do que qualquer coisa. Porque sabia exatamente como aquilo terminava. — Não. Não e não. — disse alto, como se pudesse sufocar o pensamento pela força da voz. — Eu não vou passar por isso de novo. Não vou ficar machucado… nunca mais. A última frase saiu fraca, engasgada, como se tivesse sido arrancada dele. Erick abaixou o rosto, os ombros curvando sob um peso que ele fingia não sentir. Ficou ali, encarando o chão, tentando negar o óbvio. Mas quanto mais negava, mais o nome dela retornava. Mais o beijo voltava. Mais a sensação da presença dela invadia sua mente. Como se o coração — traidor — já tivesse escolhido por ele. E ele também sabia, com uma lucidez amarga, que aquele desejo era verdadeiro. Cru. Irreversível. Irresponsável. Por horas, ficou sentado na cama, imerso na própria confusão. Tentou racionalizar, apagar, esquecer. Mas nada funcionava. Porque, no fundo, ele já sabia. Marina estava ocupando um lugar que, antes, ele achava que ainda pertencia a Eliza. E, mesmo lutando, mesmo negando, mesmo apavorado… Ele não conseguia tirá-la da cabeça. Nem do peito. O sono só o venceu quando o cansaço se tornou maior que a resistência. Mas a inquietação não foi embora — porque Marina já estava onde ele jurou que ninguém voltaria a entrar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR