Ao anoitecer, na suíte da mansão dos pais, Marina estava diante do espelho, dando um último retoque no cabelo.
Não era vaidade.
Era nervosismo.
Várias vezes se perguntou se deveria ir. Não pelo cansaço — e sim pelo motivo que a fazia aceitar aquele convite em primeiro lugar.
Erick.
Saber que ele iria embora no dia seguinte a deixava com um aperto estranho no peito. Se ele partisse sem que ela dissesse nada… talvez fosse tarde demais.
E, mesmo morrendo de medo, ela sabia: se existia alguém capaz de impedir aquela despedida, era ela.
Mas a dúvida a corroía.
Será que ele ficaria feliz em vê-la?
Será que adiaria a viagem… por ela?
A resposta veio rápida demais — e a deixou gelada.
Da última vez que o encontrou, ele m*l a olhou.
Passou por ela como se nada tivesse existido.
E aquilo doía porque, no fundo, ela entendia.
Era consequência das escolhas dela.
Talvez, se Erick não tivesse se afastado, Marina nunca teria encarado o que realmente sentia.
— Nossa… — murmurou, deixando escapar um sorriso nervoso, pequeno, trêmulo.
Era assim, então, estar apaixonada.
Respirou fundo, tentando se controlar.
Precisava encontrá-lo. Precisava falar.
Mas quanto mais pensava nisso, mais percebia que não fazia ideia de como começar.
Como se abre o coração para alguém que você mesmo empurrou para longe?
Marina passou o batom quase sem enxergar o próprio reflexo, o estômago tenso, a mente girando em possibilidades que nunca pareciam boas o suficiente.
Talvez não houvesse uma frase perfeita.
Talvez só precisasse estar lá.
Ela pegou a bolsa, respirou fundo pela última vez e finalmente saiu — carregando o medo, a esperança e tudo o que ainda não tinha tido coragem de dizer.
A Luxus estava lotada. Luzes dançavam pelo teto, o som grave fazia o chão vibrar e a pista parecia pulsar com os corpos próximos demais.
No balcão, Nicole balançava o pé ao ritmo da música, empolgada, enquanto Edward observava o movimento com uma tensão m*l disfarçada.
— Ele devia vir — murmurou Edward, mais para si mesmo do que para ela.
— Ele vai vir — corrigiu Nicole, confiante demais para quem já tinha tomado duas caipirinhas.
Horas depois, Marina finalmente entrou na boate — e virou muitas cabeças ao fazê-lo.
O vestido dourado brilhava sob as luzes, colado ao corpo, curto demais para permitir qualquer movimento seguro. As costas nuas, o decote perfeito, o brilho nos olhos realçado pela maquiagem impecável.
Linda. Inesquecível.
E visivelmente desconfortável com a atenção masculina.
Ela caminhou entre as pessoas tentando não esbarrar em ninguém, desviando dos olhares que a deixavam constrangida. Até encontrar Nicole e Eduardo no balcão — e uma fileira generosa de copos vazios diante deles.
— Marina! — gritou Nicole, abrindo um sorriso enorme. — Eu sabia que você vinha!
As duas se abraçaram. Marina cumprimentou Edward e se sentou, ainda sentindo o coração preso no estômago. Nicole insistiu em tequila, mas Marina recusou quase tudo.
Ela não estava ali para beber.
Estava ali por ele.
O tempo passou devagar.
Musas subiram, desceram, mudaram, explodiram.
E Erick… nada.
Nicole, dançando agarradinha com o marido, percebeu Marina olhando para a porta pela décima vez.
— Tadinha — murmurou a amiga. — Pelo visto aquele i*****l não vem.
Edward, um pouco tonto de álcool, completou:
— Eu avisei. Erick não insiste quando acha que já perdeu.
Nicole revirou os olhos.
— Você é um pessimista profissional… vem! Vamos animar essa garota.
Ela puxou Marina pela mão antes que a amiga pudesse protestar.
— Nicole! — Marina riu pela primeira vez naquela noite, rendida.
E então dançaram — frenéticas, desengonçadas, felizes. Nicole descendo até o chão, Marina tentando acompanhar, Edward assistindo a cena como quem assiste a um espetáculo.
Até que dois rapazes apareceram. Um deles se aproximou demais de Marina, oferecendo bebida, sorriso atrevido.
Ela dançou com ele por alguns minutos — precisava esquecer, precisava respirar — mas quando ele tentou beijá-la, ela o afastou com firmeza.
— Maluca — resmungou ele, desaparecendo entre a multidão.
Marina voltou ao balcão. Pediu tequila. Uma, duas, três… na quarta, Nicole tomou o copo da mão dela.
— Pega leve, mulher! — disse a amiga, bochechas coradas.
— Sabe… — Marina apoiou a testa nos braços. — Eu vim aqui pra me declarar pro Erick…
O sorriso que deu logo depois era triste demais.
— …mas o filho da mãe não veio.
Nicole suspirou.
— Ele é um b****a.
— Um grande b****a… — completou Marina, voz arrastada.
Edward trouxe água. Marina pediu para ir ao banheiro, e Nicole a acompanhou. Depois, de volta à pista, Marina ainda quis dançar. Nicole não tinha mais forças; quase desabou nos braços do marido.
— Eu quero ir embora — murmurou ela. — Mas e a Marina? Não dá pra largar ela assim…
Edward franziu a testa.
— Vou ligar pro Erick.
Nicole bufou.
— Tinha que ser aquele trouxa. Era pra ele já estar aqui. Era pra eles estarem… sei lá, se pegando num canto!
Mas Edward já se afastava com o celular no ouvido.
Erick não hesitou.
Veio rápido o bastante para parecer que já estava no caminho.
Quando entrou na boate, o ar pareceu mudar.
Ele vestia um terno preto por cima de uma simples camisa branca — os botões quase todos abertos, o cabelo um pouco bagunçado.
Ele parecia… urgente.
Nicole e Edward foram embora após avisá-lo onde Marina estava.
E então ele a viu.
No balcão, bochechas coradas, olhos vidrados, o vestido dourado brilhando demais sob a luz azulada.
Ela virou uma dose de tequila em um gole só, depois bebeu direto da garrafa de cerveja. E foi nesse instante que Erick se aproximou.
— Acho que você não deveria misturar bebidas assim — disse ele, encostando no balcão.
Marina quase engasgou quando o viu.
— Erick! — o nome saiu como um choque. — Por que… por que você tá aqui?
Ele respirou fundo.
— Vim buscar você.
Ela arqueou a sobrancelha, bêbada demais para filtrar qualquer emoção.
— Eu posso perfeitamente voltar sozinha.
— Seus pais me pediram pra cuidar de você, lembra?
Ela fez uma careta.
— Você cuidou m*l pra c*****o. — Apontou o dedo para ele, descoordenada. — Me evitou a semana toda… e ainda me deixou esperando aqui!
Erick simplesmente ficou sem ar.
Bêbada ou não, aquela doía.
— Então você queria me ver? — perguntou baixo.
— Queria, seu… chato de m***a!
Ela quase caiu da banqueta — e ele a segurou pelos braços.
— Cuidado — falou baixo, firme.
— Você é muito mandão — ela resmungou.
— E você é muito teimosa — ele devolveu.
Marina sorriu com aquilo… e escapou das mãos dele, tropeçando direto no peito de um homem que passava.
— Uhh… que musculoso — ela comentou, rindo.
O homem tentou segurá-la pela cintura.
— Tira as mãos dela — Erick rosnou, puxando Marina para si com um movimento único, rápido, instintivo.
— Ai! Que bruto — reclamou ela, caindo contra o peito dele.
Ele a segurou pela cintura com firmeza. Firme demais.
E agora seus corpos estavam colados — o vestido dela brilhando contra o terno dele, o perfume dela envolvendo os dois.
Marina levantou o rosto, encontrando a boca dele tão perto que bastava respirar errado para encostar.
Os olhos de Erick desceram para os lábios dela — úmidos, trêmulos — e ele engoliu em seco, o pomo de Adão subindo de forma visível.
Marina se ergueu um pouco, quase beijando-o.
Erick fechou os olhos por um segundo.
Desejo demais.
Vontade demais.
Mas era errado. Ela estava bêbada.
Ele desviou o olhar, respirando fundo, como se estivesse segurando o próprio coração no lugar.
— Vamos — disse apenas, a voz rouca.
Marina assentiu devagar, entregue, mole, confusa — e Erick a guiou para fora, ainda segurando sua cintura, como se cada passo fosse uma tentativa de não perdê-la de novo.
Assim que deixaram a boate, o som abafou atrás deles como uma porta se fechando sobre um caos distante. O ar da rua era frio, quase sóbrio. Erick manteve a mão na cintura dela enquanto caminhavam até o Porsche preto estacionado a poucos metros dali.
Ele abriu a porta do carona, ajudou Marina a entrar, e fechou devagar — como se cada gesto precisasse ser calculado para não piorar o estado dela.
O trajeto até o hotel foi silencioso.
Silêncio denso, cheio de coisas que nenhum dos dois tinha coragem — ou condições — de dizer.
Quando chegaram ao estacionamento subterrâneo, Erick deu a volta no carro e abriu a porta. Marina tentou sair sozinha, mas as pernas falharam e ela tombou para a frente. Ele a segurou antes que batesse no chão.
— Achei que estivesse menos bêbada — murmurou ele, tentando conduzi-la até o elevador.
— Eu também… — ela sorriu, um sorriso torto, divertido demais para alguém à beira de desabar.
No elevador, ela encostou a cabeça no peito dele sem aviso. Erick ficou imóvel, os braços tensos ao redor do corpo dela. O perfume doce, a respiração quente, o vestido brilhando sob a luz amarela — era quase tortura.