O quarto 404 estava em penumbra, iluminado apenas pela luz azulada que entrava pela sacada.
No chão frio, escorado contra a parede, Erick segurava uma garrafa quase vazia de whisky. Seus olhos estavam vermelhos, a barba por fazer, a camisa amassada.
Dois dias ali dentro.
Dois dias evitando o mundo — principalmente evitando a si mesmo.
O álcool não fazia mais efeito.
O ar parecia pesado demais.
E a mente um caos incontrolável.
Ele deu outro gole, grande, amargo, tentando calar o tumulto dentro de si.
Mas a lembrança vinha do mesmo jeito: Marina, tremendo nos braços dele, os olhos desesperados, a respiração falhando.
E depois… o alívio.
E o medo.
E aquela sensação absurda de que ele a queria perto — e isso o apavorava mais do que tudo.
Um toque insistente ecoou na porta.
Toc. Toc.
Erick fechou os olhos, irritado.
— Mas que m***a… quem é agora? — murmurou, tentando se levantar.
Cambaleou. A vertigem o pegou de surpresa. A garrafa quase escapou da mão.
Ele respirou fundo, abriu a porta — e, claro, era Edward.
— O que você quer?! — rosnou, sem paciência.
Edward ergueu uma sobrancelha.
— Nossa. É assim que você recebe um amigo agora?
Olhou o estado do quarto.
— E é assim que você tem passado os últimos dois dias?
Erick ignorou o comentário e voltou a se jogar no sofá, a garrafa balançando na mão.
— Isso não é da sua conta.
Edward entrou sem pedir permissão.
Seu olhar caiu na garrafa. Depois no rosto destruído de Erick.
— Me diz uma coisa… é tão r**m assim admitir que você está gostando dela? — perguntou com leveza, mas atento à reação.
Erick nem respirou por um segundo.
Depois deu de ombros, como se o gesto pudesse esconder o impacto.
— Ela teve alta hoje. — disse Eduardo, observando cada microexpressão.
Erick respondeu num murmúrio seco:
— Eu sei.
— E você foi visitá-la?
Isso acertou um ponto dolorido.
Erick levou as mãos à cabeça, pressionando as têmporas.
— Chega de perguntas. Minha cabeça está explodindo.
— Por quê será? — Edward provocou.
— Você continua insuportável… — Erick resmungou e virou o resto do whisky numa só golada. A garganta ardeu, os olhos piscaram pesados.
— Ei! — Edward arrancou a garrafa vazia. — Você vai acabar com seu fígado antes dos trinta, cara.
Erick riu, sem humor, tropeçando até a cama.
— Eu não tô tão chapado assim…
Deitou-se de lado, a camisa levantando um pouco, revelando a respiração acelerada.
Edward cruzou os braços.
— O que você fez dessa vez?
Silêncio.
Erick piscou várias vezes, entre embriagado e vulnerável demais para admitir.
Mas acabou sussurrando, quase sem querer:
— Eu mandei flores pra ela…
Edward ficou sério.
— Quê?
— As mais caras que eu achei… — Erick murmurou, sem abrir os olhos. — Liguei pra três floriculturas diferentes. Mandei entregar em horário específico. Um cartão i****a. Nem sei o que escrevi direito…
Edward o encarou, surpreso.
Erick continuou, a voz falhando:
— Por que eu fiz isso, Edward? Por quê? — respirou fundo, como se lutasse contra algo dentro dele. — Ela mexe com a minha cabeça… eu não consigo entender. Não faz sentido. Ela me deixa… — ele engoliu seco, como se a palavra fosse um veneno.
— …com medo.
Edward se aproximou um pouco, atento.
— Medo… dela?
— De tudo. — Erick corrigiu, os olhos finalmente abrindo, vidrados no teto. — Do que eu senti quando a vi naquele chão. Do que senti quando ela me olhou no hospital.
Fechou os olhos com força.
— Eu nunca senti isso antes, nunca. E eu odeio… absolutamente odeio não ter o controle.
O silêncio ficou pesado.
Edward respirou fundo, mais sério agora.
— Erick… isso não é o fim do mundo.
— É sim. — Erick interrompeu, com a voz embargada de um jeito que ele mesmo não percebeu. — Porque eu não posso… eu não sei lidar com isso. Eu não sei sentir isso.
Edward ficou em silêncio por alguns segundos, avaliando o amigo destruído diante dele.
— E você pretende se esconder aqui até quando?
— Até isso passar. — Erick murmurou, já sonolento. — Até ela sair da minha cabeça…
Virou um pouco o rosto no travesseiro.
— Mas não tá funcionando.
Edward suspirou.
— Claro que não.
Erick piscou devagar, a embriaguez finalmente vencendo.
— Ela é linda… — sussurrou, como uma confissão arrancada à força. — Linda demais.
E simplesmente apagou.
O corpo relaxou, a respiração desacelerou.
Edward ajeitou ele na cama, tirou o sapato, fechou a cortina.
— O que vai ser de você, cara… — murmurou, olhando o amigo com uma mistura de pena e preocupação. — Se continuar vivendo assim, vai se perder antes de perceber o que encontrou.
Minutos depois, ele saiu do quarto, deixando Erick entregue aos próprios fantasmas.
Capítulo 7
UMA SEMANA DEPOIS
Os primeiros fios de luz atravessaram as frestas das cortinas brancas, rasgando a escuridão com um brilho quente e lento. Foi isso que arrancou Erick do sono pesado. Ele respirou fundo, como quem tenta convencer o próprio corpo de que vale a pena levantar.
A manhã estava calma demais — quase gentil. O sol derramava tons alaranjados pelo quarto, tingindo as paredes de um calor suave que ele não sentia fazia dias. Em passos longos e silenciosos, caminhou até a sacada. O ar frio invadiu seus pulmões, e ele franziu o nariz ao inspirá-lo, como se fosse a primeira respiração verdadeira depois de uma semana inteira submerso.
Momentos assim o reconstruíam devagar.
Mesmo que ainda doesse.
Mesmo que a dor fosse quase confortável, de tão familiar.
Os últimos dias haviam sido um abismo.
Tristeza demais, pensamentos demais.
Medo demais.
Medo de amar.
Medo de admitir que estava apaixonado.
Medo de desejar Marina ao ponto de perder o controle outra vez.
O amor era seu vício mais perigoso — e a bebida, a fuga mais covarde. Bastou um gole, um só, e ele percebeu o quanto estava perto de se perder completamente. Ficou sóbrio à força, por vergonha, por orgulho, por pânico. Mas a abstinência veio como uma noite sem fim, arrastando cada hora pelos dentes.
Ainda assim… ele resistiu.
Ainda assim… estava ali, respirando.
Quando finalmente pegou as chaves do carro para sair daquele quarto que havia se tornado um c*******o, hesitou. Tinha medo do mundo lá fora, das lembranças, das palavras de Eduardo que insistiam em ecoar. Mas a insistência dos amigos o empurrou — e ele saiu, mesmo trêmulo por dentro.
Era hora de viver. Ou pelo menos fingir.
........
O lugar estava um caos luminoso — balões, flores, comidas, risos. Nicole girava pela sala como um tornado elegante, organizando cada detalhe para o aniversário de Edward. Um almoço entre amigos, ela dizia. Mas quando Nicole amava, ela exagerava — e era esse exagero que tornava tudo bonito.
Em minutos, o apartamento parecia digno de revista: pratarias brilhando, flores em cada canto, aromas flutuando no ar.
Edward apareceu, finalmente deixando o notebook. Ao ver a esposa arrumando tudo, sorriu do tipo que denuncia devotamento. Abraçou-a por trás, beijou seu pescoço, declarou amor como quem respira.
Nicole riu da ousadia e das mãos inquietas dele.
Se não fossem os convidados… o resto da história seria outra.
Pouco tempo depois, já arrumado com uma camisa branca leve e bermuda clara, Edward viu a sala se encher aos poucos. Nicole, impecavelmente vestida em um vestido branco de costas nuas, transitava pela casa ajudando suas assistentes.
A campainha tocou.
— Deve ser o Erick — murmurou Edward, indo abrir a porta.
E lá estava ele. Sério como sempre — mas presente, o que por si já era uma grande evolução.
— Você está um pouco atrasado — disse Edward com bom humor.
— Estava procurando um presente decente. Então não reclame — rebateu Erick, entrando.
Nicole se aproximou.
— Então você veio mesmo. E continua sóbrio. Já é um avanço.
Erick revirou os olhos.
— Vocês são insuportáveis.
— Talvez seja porque nos importamos com você — disse Edward, guiando-o até o resto dos amigos.
Erick permaneceu calado, distante. Estava ali, mas sua mente parecia em outro lugar.
Ele tentou interagir, tentou ser simpático…
Até o som da campainha cortar o ar como um estalo.
Nicole passou por ele, provocando:
— Aposto que é a Marina.
O nome dela bateu no peito dele como um impacto físico. Erick ficou tenso — muito mais do que demonstrava — e Nicole percebeu. Claro que percebeu.
Marina! Thereza! Até que enfim! — saudou Nicole.
Marina pediu desculpas pelo atraso, explicou o motivo e entrou sorrindo com Thereza.
E foi então que Erick a viu.
Marina usava um vestido longo, de alças finas, que acompanhava o corpo com uma elegância quase distraída, como se não tivesse consciência do efeito que causava. Os cabelos ondulados caíam soltos pelos ombros. Havia luz em seus olhos — uma presença viva, intensa, que parecia ocupar cada espaço da sala antes mesmo de sua voz chegar.
Erick parou.
Não foi surpresa. Foi impacto. Um desses silenciosos, profundos, que não pedem licença e não deixam marcas visíveis, mas desorganizam tudo por dentro.
O ar pareceu rarear nos pulmões.
Algo se acendeu nele — rápido demais, forte demais — e doeu. Uma pressão no peito, um alerta antigo que ele conhecia bem… e que vinha evitando reconhecer há dias.
Pronto, pensou. Chega.
Não dá mais para fingir que isso é só cansaço. Ou hábito. Ou falta.
Tentara negar. Passar os dias no automático. Afogar a inquietação em copos vazios, convencer a si mesmo de que era apenas ausência, apenas costume. Que passaria.
Não passou.
Durante aqueles dias longe dela, algo nele permanecera em suspensão. Um vazio que não se preenchia com nada. Uma vontade constante de procurá-la, mesmo sabendo que não tinha esse direito. Mesmo fingindo não sentir.
E agora, ali, diante dele, Marina parecia diferente — ou talvez fosse ele que já não fosse o mesmo. Havia nela algo ainda mais luminoso, mais inteiro, como se estivesse exatamente onde deveria estar.
Ela ainda não o tinha visto. Conversava animada com Nicole e Thereza, sorrindo, gesticulando, viva de um jeito que o atingia em cheio.
Erick desviou o olhar por um instante, como se precisasse se recompor. Como se pudesse.
Mas o corpo já tinha entendido o que a mente insistia em não dizer.
E, naquele segundo suspenso, ele soube: nada dentro dele estava intacto como antes.
— Nossa, e quem é aquele bonitão? — perguntou Thereza, divertida.
Marina olhou.
E encontrou o olhar dele.
Erick não desviou. Nem por um segundo.
E Marina sentiu. Deus, como sentiu.
O ar fugiu de seus pulmões, os lábios se entreabriram, o corpo respondeu tão rápido que quase denunciou tudo. A lembrança dele a segurando, o calor do abraço, o jeito como ele acariciou suas mãos… tudo voltou, quente, forte, inesperado.
Ela desviou rápido, tentando recuperar o controle.
Nicole apresentou: — Aquele é o Erick. Você lembra?
— Ah, o das flores! — disse Thereza, surpresa. — Meu Deus, que gato, Marina!
— Para com isso, ele só foi gentil — murmurou Marina, desconfortável.
— Gentileza é uma coisa. Olhar desse tipo é outra — provocou Thereza.
— Ele pode estar gostando de você. Já pensou nisso? — disse Nicole, com malícia.
— Não começa — Marina respondeu, nervosa.
A festa seguiu — ou fingia seguir — porque a tensão entre eles preenchia cada espaço da sala.
O tempo escorria, as pessoas conversavam, riam, brindavam…
Mas Erick não fazia parte de nada.
Ele só observava Marina. Como se precisasse disso para respirar.