O que?

2745 Palavras
                                                                                       KIERAN ROSS Olhei no relógio vendo que marcava exatamente oito da noite. Depois do nosso passeio eu me vi exausta. Sem contar que além de almoçarmos, nós resolvemos ir até uma confeitaria e comer tudo o que tinha mais açúcar por lá.   Passamos o dia caminhando e aproveitando a sexta-feira como bons amigos, e agora eu só quero dormir. Mas antes eu teria que colocar a minha linda mala na prateleira de cima do meu closet, eu sou bagunceira, mas a mala no meio do quarto toma muito espaço, então prefiro guardar cheio de coisas dentro a ter que deixar no meio do caminho. Mas eu não aguentei o peso, parecia chumbo. — Liam? – o chamei do corredor, ouvindo ele deixar algo no sofá e se levantar — Pode me ajudar colocando minha mala na prateleira? Não aguento sozinha. — Claro — ele sorriu, vindo até meu quarto — não quer desfazer a mala? Será melhor arrumar as roupas agora. — Eu estou com preguiça e ainda tem muita coisa — abaixei o olhar coçando os olhos ouvindo-o rir. — Se quiser, eu ajudo a desfazer — ele sugeriu — olha, quanto mais você tardar para desfazer as malas pior será. Experiência própria. — Você tem razão — suspirei — eu vou desfazer, mas você não precisa se preocupar em ajudar. — Eu estou sem nada para fazer. Eu cedi, não é sempre que alguém ajuda a colocar toda bagunça no lugar. E ele é mil e uma utilidades. Muito bom. — Pensei em fazer uma pipoca para nós, você gosta? — Gosto – afirmei, dobrando algumas peças de roupa — todo mundo gosta de pipoca, quem não gostar, tem algum problema. É do paladar universal. — Exato – Liam fingiu aplaudir e retirou várias camisetas de uma vez, e me olhou imediatamente ao ver o fundo da mala. Eu olhei três vezes. Na primeira vez eu não acreditei, na segunda olhada eu quis me matar, e na terceira eu cocei os olhos, afim de me beliscar. Porra! Estavam ali calcinhas que eu jamais comprei, todas com renda, cinta liga, um par de algemas e muitas camisinhas. Entre um sutiã e outro, tinha um cartão com um bilhete em cor de rosa: “Aproveite Toronto, beijos. Madison”. Maddie, tinha que ser coisa dela. Minha melhor amiga, acabando com a minha vida. Ela sabe que eu namoro e com certeza fez isso para me matar de vergonha em uma situação como essa. — De-desculpe – eu só sabia proferir essas palavras, até porque minha garganta estava estranhamente seca, e meu rosto queimava feito brasa. Eu certamente estava vermelha como um tomate.  — E—eu não sabia que isso estava aí eu… — fechei a mala e coloquei ambas as mãos no rosto — Deus! E ali, eu vi um centelho de malícia no olhar do meu guia, que apenas ficou em silêncio me observando. — Eu juro que não é meu. — Tem um cartão para você – rapidamente, Liam retrucou. ­— Trocaram a mala na escala que o avião fez na Dinamarca, certeza – eu estava tentando desesperadamente arrumar uma desculpa. ­— Então você ia usar as roupas de uma desconhecida e se quer notou antes? – Liam negou com a cabeça — Olha, todo mundo faz sexo — ele finalmente riu — está tranquilo, é bom saber que você se previne. — Eu não transo — Juro que eu disse por impulso, e não podia faltar eu arrastando a mala da cama e esbarrando no abajur, que caiu e apesar do barulho, não quebrou. — Você não precisa explicar o porquê disso – ele segurou meu braço, me fazendo soltar a mala — é normal, todo mundo faz, não precisa disso. Eu não vou te julgar por ter preservativos e lingeries nas suas coisas. Em uma situação dessas, eu deveria chorar ou agradecer a compreensão? — Certo – m*l pude encará-lo — acho melhor eu assumir daqui. — Eu disse que ia te ajudar e… — Você pode ir fazendo a pipoca? – interrompi, tentando ficar sozinha de todas as formas. Liam olhou mais uma vez a mala e me olhou, coçando a nuca. Eu não fazia ideia do que ele estava pensando, mas se houvesse um buraco no chão, eu estava nele enterrada. E, graças aos céus, meu guia deu as costas e saiu do quarto. — Deus! – eu chamei uma divindade celestial, mas na minha mente se passavam várias formas de assassinar a minha melhor amiga — que vergonha! E sem respeitar o fuso, ou qualquer coisa, eu liguei para a minha amiga, e imagino que ele iria rir muito só de imaginar a situação que me colocou. E a maldita não tardou em atender. — Maddie! – nós duas gritamos, e meu ouvido doeu, mas não importa. Era só muita saudade. — Kirah!! Como você está? — Estou bem. Constrangida mas bem, e você? – eu me joguei na cama, empurrando todas as roupas para o lado. — Estou bem também! – Maddie fez uma pausa, seguindo a conversa com cautela — mas e aí? Por que está constrangida? — Porque o agente de viagens acabou de ver as lingeries que você colocou na minha mala. As camisinhas “Extra G” e a algema! – eu fiz uma voz de quem estava muito zangada, mas só ouvia mutas gargalhadas. — Eu só queria te dar um presente de despedida! Gostou? — Vá a merda! – reclamei — você sabe que não tem com quem usar, meu namorado está em Liverpool, esqueceu? — Como foi depois da festa de despedida que fizemos para você? — ela mudou o assunto drasticamente – você e o Dean deram uma sumidinha. — Eu realmente não quero falar sobre isso – fiquei desconfortável. Não vale a pena lembrar. — Sou sua melhor amiga desde a quinta série, fala! Ela tinha razão, eu teria que falar para alguém. — Sabe, no dia da despedida eu e o Dean fomos para o carro dele – falei bem baixo e fui fechar a porta. Tudo que eu menos quero é que Liam escute essa conversa desastrosa. — E você finalmente fez? Ou ficou só nos beijos? — Nós fizemos... – prendi meu lábio entre os dentes e balancei a cabeça, como se a Maddie pudesse ver a minha decepção — foi horrível. — Por que? — Dean estava muito estranho, parecia que se eu não desse a ele o que ele queria, ele terminaria comigo. Nós entramos no carro para ter privacidade e ele começou a se despir e... Nem era o que eu queria – eu estava derrotada — depois Dean praticamente arrancou minha roupa, mas eu não estava com vontade, eu não senti nada. Ele só me machucou e disse coisas sujas demais, e teve tapas e... Eu odiei – Eu só percebi que estava chorando quando uma lágrima caiu, me obrigando a piscar algumas vezes — foi péssimo. — Poxa, Kirah — ela suspira – ele foi um i*****l. Você nem chegou perto de... — Nada – cortei suas palavras – me sinto usada. Você sabe como é a minha autoestima, ela é pior do que r**m. Ele praticamente me tratou como uma vagabunda. Eu pedi para ele parar, mas não adiantou, só doía mais.   — Kieran! Isso é estupro! — Não – neguei para ela e para mim mesma – eu comecei, precisava terminar. — Ele te deve respeito, ele é seu namorado! Isso é coisa de doente assediador. É abuso. Você ainda está falando com ele? Quer que eu denuncie? — Calma, amiga. Eu e ele já conversamos, Dean estava um pouco alterado por causa das bebidas da festa. Não foi nada demais, eu só me frustrei – tentei me convencer das minhas próprias palavras – eu só me frustrei. — Eu não concordo, mas se você está bem é isso que importa. E eu vou matar seu namorado, ache um novo que te trate com respeito. Esse já era. — Me conhecendo, acho difícil um namorado aparecer – brinquei, ainda meio chateada com o rumo do assunto – O Dean é lindo, eu não sei o que ele viu em mim. Foi milagre. — O milagre foi que você é linda demais, tem um corpo que… p**a que me pariu! Você sempre chamou à atenção na escola. Só não vê isso porque passa tempo demais encontrando defeitos que nem existem no seu corpo. — Desculpe. — Para, Kieran. Você é maravilhosa. — Obrigada, eu amo você! E, depois de uma conversa intensa ao telefone com a minha amiga maluca, eu guardei tudo de volta na mala e não demorou para Liam bater na minha porta. — Pode entrar – eu o olhei, e, sinceramente... Se toda vez ele aparecer do nada sem camiseta, eu vou andar com um babador.  — Já fiz a pipoca, vamos assistir? — Sim. Nós fomos para a sala e Liam se esparramou no sofá maior, eu estava no sofá ao lado, mas não conseguia ficar confortável. O cabelo loiro bagunçado, as tatuagens, o cheiro. Ele sem dúvidas é uma das pessoas mais atraentes que eu pude conhecer. — Qual filme você quer? – perguntou, e eu fui pega o encarando. — Você decide – apenas murmurei, fingindo olhar minhas unhas. — Que tal uma comédia? — Me parece ótimo – enchi minhas mãos com pipoca. Espero que o filme seja hilário e me faça parar de querer olhar o tanquinho do meu guia... E esquecer do episódio horrível entre mim e o Dean.                                                                                       (...) Amanhecemos agitados. Eu e Liam decidimos fazer um passeio no shopping logo pela manhã, pois iria ficar mais frio após o meio-dia. Então ele me mostrou onde comprar tortas doces deliciosas, roupas, materiais escolares, comida indiana... — Tem muito mais coisas para se ver. Por exemplo, ontem pela noite, nós não fomos lá em cima da Torre CN, mas podemos ir hoje se não estiver tão congelante. A cidade é linda vista de lá de cima, as luzes parecem pisca-piscas, é maravilhoso. — Vou adorar ir lá – ajeitei meus óculos no rosto. Liam retirou um par de óculos do bolso e colocou também, me fazendo rir. Ficou muito fofo. — Meus olhos estão cansados — ele justificou e nós saímos do carro, recebendo uma chicoteada do vento gelado, graças ao bom Deus que em duas semanas a primavera inicia. — Está com muito frio? — ele perguntou, esfregando as mãos e apenas fiz um movimento com a cabeça. Liam segurou minha mão e passou pelo braço esquerdo – hora de ver se é verdade mesmo... Aquilo de que duas pessoas transmitem calor uma para outra. Eu não falei nada, porque realmente não sabia o que responder, então apenas entramos no shopping. — Uau – olhei a decoração de inverno, e o tamanho do local. É de perder de vista. — Fica lindo no Natal e Ano Novo.  Fui atraída por um cheiro incrível de café moído e olhei para uma cafeteria. Estava cheia, e me deu água na boca. — Aceita tomar um café comigo? — convidei em um sussurro. Vergonha é uma merda. — Mas é claro! – imediatamente, Liam me arrastou até lá — Não precisa ter vergonha, somos amigos. — Certo. — Você quer o que? — Nada disso, Liam, eu pago – falei com firmeza, mas ele se pôs na minha frente, negando com um sorriso — vou pagar e ponto final. Ele cedeu e nós escolhemos dois cappuccinos, nos sentando para esperar os pedidos. — Eu tenho que pagar, sabia? Eu que estou apresentando a cidade para você – Liam retirou os óculos, e eu revirei os olhos. — Eu não ligo, você já está fazendo muito por mim. — É o meu trabalho, Senhorita Ross. — Liam se acomodou, semicerrando os olhos, fingindo intimidar. — Eu não ligo, senhor Brooker – eu o imitei, o intimidando com os olhos semicerrados e de alguma forma, ele adotou um comportamento estranho e olhou para as mãos, negando levemente com a cabeça — tudo bem? — Eu preciso ir ao banheiro. Sem mais, ele deixou o local ajeitando a roupa. — Aqui está — a garçonete deixou os pedidos na mesa e eu agradeci, esperando por Liam, que demorou, e quando voltou estava atordoado. Nós estávamos em silêncio, o que nunca acontecia, então eu decidi puxando assunto. — Em Liverpool o café é diferente — eu realmente falei isso? Sou horrível em puxar assunto. Liam parou de tomar a bebida e encarou as mãos. Parecia que o envergonhado era ele. — Gostaria de ir lá um dia. Eu definitivamente preciso parar de reparar no Liam. Apesar dele ser lindo, ter uma boca e sorriso sensacionais, um perfume incrível e um par de olhos castanhos que... — Está me ouvindo, Kirah? – ele riu – ficou aí parada. — Ah, estou com sono – respirei fundo – o que você falou? — O que você gosta em Liverpool? — É… com certeza a praça da cidade, eu ia lá todos os dias quando estudava com meu namorado e minhas amigas. — Huh, você namora? – questionou – pensei que estava solteira. — Por quê? — Não vi aliança no seu dedo — observou e eu me lembrei de que tirei quando eu tive a minha primeira vez e… Bom eu não me senti bem em ter aquilo no meu dedo, Dean caiu no meu conceito. — Mas me diz uma coisa... Você terminaria com sua namorada se ela não…Não… — coloquei entrelacei meus dedos – Nada. — “Se ela não” o quê? — Nada, sério. Eu nem deveria pedir conselhos para você. — Nós estamos morando juntos, nós somos amigos de curta data, mas somos. Eu não quero que você se sinta forçada em falar comigo sobre sua vida pessoal, mas somos adultos e eu confiaria em você se eu precisasse de um conselho. — Tudo bem – tomei coragem, mas sem olhá-lo — você terminaria o seu namoro se a sua namorada não quisesse – eu gesticulei — sabe… fazer aquilo... Liam caiu na gargalhada e eu quis chorar de constrangimento. — Sexo? — ele completou — lógico que não.  Sexo é maravilhoso, eu adoro t*****r. Porém, se você sente algo pela pessoa, principalmente em um relacionamento, não faz sentido basear isso em sexo. — Certo. Eu só... Obrigada por falar isso. Liam cruzou o cenho e no instante seguinte, estava muito bravo. — Calma, seu namorado te forçou a f********o com ele!? — Deixa isso pra lá – eu sorri forçado – claro que não, foi só uma dúvida – menti. Ele não pareceu convencido, mas não perguntou nada, apenas sugeriu que fôssemos visitar a sala de jogos.                                                                                      (...)   Depois do shopping nós fomos até a Torre, e de lá pudemos ver cidade totalmente iluminada. Foi com certeza, uma das paisagens mais lindas que já vi. Tudo parecia bem pequeno e as luzem eram pisca-piscas. Eu aproveitei para tirar muitas fotos e quando voltamos para casa, eu estava exausta. A princípio eu disse que chegaria e iria dormir, bom eu cheguei e tomei um banho, e me deitei. Mas o sono sumiu. Eu queria ligar para o Dean e acabar com tudo, queria denunciá—lo e tentar esquecer. Mas eu colocaria o relacionamento das nossas famílias em risco, e eu não estou em Liverpool. Eram quase meia noite, eu estava sem sono ouvindo Aerosmith e me atualizando sobre tudo da faculdade, e quando eu estava no limite do tédio eu me levantei e decidi assistir algo.   Com o cobertor, eu me arrastei até a sala e decidi assistir a minha série preferida desde a adolescência: The Vampire Diaries. Depois de alguns minutos assistindo, eu ouvi passos lentos pelo corredor e me veio a ideia de assustar o meu guia. Ele entrou na cozinha e com tudo escuro sequer me viu. Corri até o balção e acendi a luz, gritando um “Buh!”, mas quando ele se virou, nós dois congelamos e eu desci o olhar. Meu Deus. Encontrar o agente de viagens, totalmente nu de madrugada? Eu definitivamente não esperava por isso. — p**a que pariu! Mas que merda você está fazendo acordada?! — Desculpe – eu tampei meus olhos, tremendo. Aquela imagem não vai sair da minha cabeça tão cedo.  Para ajudar, ele estava e******o. 
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