Preço ou valor

1017 Palavras
Pablo aproveitou a correria para entrar no quarto de Ming, o marido de Lis havia desaparecido junto com os demais hóspedes, sabia que em breve receberiam a inspeção do corpo de bombeiros, mas não tinha tempo para esperar. O padrão respiratório que notou na ex-noiva pelas câmeras era conhecido como respiração de Kussmaul, típico no início do coma diabético, a garota tinha passado muito tempo sem a insulina e bebeu com o marido, a irresponsabilidade com a própria saúde também era recorrente em Lis, a primeira vez que aconteceu estavam namorando e ele entrou em pânico, aprendeu absolutamente tudo sobre diabetes tipo 1 e desde então cuidava para que ela seguisse o tratamento. Aplicou duas doses de insulina aspart, um tipo de ação ultrarrápido. Segurou a mulher junto ao próprio corpo, já não se importava se fossem descobertos. - Acorda, boxeadora. Volta para mim, encrenqueira. Falou enquanto tentava aquecer as mãos da garota, notou a respiração ganhar um ritmo normal e o suor gelado desaparecer. No saguão do hotel Ming exigia que deixassem seus homens voltarem para buscar a esposa, foram impedidos até a chegada dos bombeiros. Pablo ajudou a colocar a ex-noiva na maca quando o socorro chegou. - Ela tem diabetes, estava com hiperglicemia, bebeu ontem e não estava com a bomba de insulina, fiz dez unidades, ela está melhor, mas desidratada. - O senhor é o marido? Pode acompanhá-la até o hospital. Pablo se deu conta do que estava fazendo só depois da pergunta. - Sou um funcionário do hotel, temos as fichas médicas para casos de emergência, preciso ir. Deixou Lis sob os cuidados do bombeiro e saiu pelo estacionamento, ligou para que Dragón viesse, provavelmente teria que fazer a liberação para voltar ao quarto. - Está me dando trabalho, sabia? É minha lua-de-mel! Estava aplicando um óleo corporal em Solar e adorando cada minuto até o telefone tocar, apesar disso, atendeu, mas a esposa recolocou o roupão deixando claro que a brincadeira tinha acabado. - Lis foi para o hospital, alguém precisa estar aqui para impedir que mexam demais nas coisas ou vão acabar descobrindo as câmeras, escutas e todo o resto. Preciso saber como ela está, me ajuda. Apesar de ter sido minimamente racional estava preocupado, pela condição de saúde de Lis e por descobrir que Ming era capaz de abandoná-la a própria sorte. Havia hóspedes segurando seus cachorros nos braços, mas o chinês abandonou a esposa, não a tratou nem como um objeto, uma vez que se lembrou de pegar o celular e a carteira antes de sair. Toda a documentação e pagamento do hospital foi realizada pelo chinês, saiu em seguida, deixou dois homens responsáveis pela segurança do lugar e voltou ao trabalho, precisava garantir que o negócio de ópio voltasse a funcionar e os médicos disseram que Lis ficaria internada por pelo menos 48 horas para observação, não viu problemas em se ausentar, ela estava recebendo assistência de primeira linha. Já Pablo também usou dinheiro, mas para comprar o seu acesso ao quarto da garota, entrou como enfermeiro, o jaleco serviu bem para disfarçar a prótese. Um médico o ajudou em troca de algumas centenas de dólares, o hacker pagou feliz, daria muito muito se tivesse pedido. - Hei, tudo bem, boxeadora? Lis sorriu sem abrir os olhos, estava bem, saiu do hotel já consciente, de qualquer forma era bom, muito bom ouvir a voz de Pablo. - Acho que estou te devendo uma. - Precisa parar de me assustar desse jeito. - Esqueci a caneta no seu quarto e não podia recolocar a bomba, usei o vestido como desculpa para ter tirado, achei que duas doses não fariam muita diferença. - E por que tirou a bomba? Lis não quis confessar que gostava de ser cuidada, sentiu vergonha, tinha causado uma confusão imensa apenas por uma vontade sem sentido. - Estava incomodando, acho que não me adaptei. - Certo, mas precisa usar, pelo menos até voltarmos para casa, boxeadora, depois eu cuido de você, minha encrenqueira, mas até lá precisa ficar viva. Lis quis mudar de assunto, estava cada vez mais envergonhada. - O ar-condicionado e o chuveiro, foi você, não foi? - Foi sim, eu não consegui, sei que combinamos, mas... porrα, Lis tem ideia do que eu sinto por você? - Vamos acabar com isso logo, e depois eu juro que não vou desgrudar de você nunca mais. Era uma promessa que Lis realmente pretendia cumprir, já não se importava com Rachel ou Noah, só queria se livrar o mais rápido possível daquelas pessoas e voltar para a vida que tinha, em meio ao pensamento procurou pela aliança e não a encontrou. - Pablo! Cadê minha aliança? Alguém pegou. O hacker não tinha pensado naquele detalhe nem por um minuto, parecia tão pequeno diante de tudo o que estavam vivendo, havia deixado a sua aliança com o subchefe, tentou jogar fora, mas não conseguiu, enquanto isso, Lis nunca a tirou. Estava com a respiração pesada e o peito dolorido, mas só a acalmou. - Os hospitais guardam essas coisas, está tudo bem. Lembrou de tudo o que tinha planejado, apesar de ser algo que na maioria das vezes é mais importante para as mulheres, Pablo sonhou com cada detalhe do dia em que se casaria com Lis. Mandou fechar a praia em que passaram o réveillon, as casas dos pescadores também ficariam vazias por cinco dias, a casa que antes tinha sido comprada para passar temporadas foi reformada e decorada para receber a mulher que amava, toda a estrada da rodovia até a praia tinha recebido nas duas margens uma plantação com flores de lis. Adoraria ter tido a oportunidade de ver como ela reagiria, não teve, acabou casado com uma mulher que nem conhecia enquanto Lis estava do outro lado do globo, pensou que talvez a mulher tenha tido uma cerimônia bonita, ganhado joias muito melhores do que aquela, mas a felicidade não costuma medir preço e sim valor, para ela a joia comprada na relojoaria sem nome do Rio de Janeiro valia muito mais do que qualquer outra que pudesse receber de Ming.
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