Respirei fundo, fechei os olhos e tomei coragem para fazer o que acreditava ser o certo.
— Eu, Anika Gauthier, da matilha Lua Crescente, rejeito Damian Lancaster como meu companheiro.
Senti, mais uma vez, como se estivessem arrancando meu coração do peito. Desta vez, uma lágrima solitária escapou e escorreu pelo meu rosto. Damian cambaleou, apoiando-se na cama para tentar se manter em pé.
— Eu, Damian Lancaster... recuso a sua rejeição — ele declarou, fitando-me enquanto lutava para respirar.
— Damian, você não tem esse direito! — exclamei, a raiva pulsando em minha voz.
Ele não respondeu. Apenas se levantou com dificuldade, abriu a porta e saiu. Dylan me lançou um último olhar indecifrável antes de segui-lo.
— Venha, deixe-me ajudar você — disse Dario, guiando-me suavemente para que eu me sentasse na cama.
— Desculpe por descontar em você a raiva que eu sentia deles.
— Tudo bem... desde que você não venha com esse papo de rejeição para o meu lado de novo — ele respondeu, ajoelhando-se para tirar meus sapatos de salto.
— Obrigada por cuidar de mim. Sem você, eu não sei o que seria de mim aqui.
— Eu te amo, Anika. E quem ama, cuida.
Olhei nos olhos dele e soube que era hora de confiar. Se havia alguém em quem eu podia me apoiar para enfrentar os fantasmas do meu passado, esse alguém era Dario.
— Eu menti para vocês, Dario. Não sou uma renegada qualquer. Pelo contrário: tenho uma família horrível e pertenço à matilha Lua Crescente.
Esperei que ele ficasse chateado ou surpreso, mas ele apenas sorriu com doçura e acariciou minhas pernas.
— Meus irmãos e eu já sabemos de tudo, Anika. Desde o momento em que Damian te encontrou na fronteira.
— Vocês sabiam o tempo todo? Por que nunca me questionaram?
— Porque resolvemos esperar o seu tempo. Queríamos que você se sentisse segura para se abrir. Mas... há coisas que ainda precisam ser esclarecidas.
Respirei fundo e, pela primeira vez, deixei as palavras fluírem. Contei sobre o meu passado, sobre os castigos cruéis, as noites intermináveis presa na escuridão do porão e, finalmente, sobre a minha "morte". Enquanto eu falava, Dario fechava os olhos e cerrava os punhos, sua respiração tornando-se pesada.
— Então você nunca tentou matar sua irmã? Foi tudo uma mentira para encobrir o fato de que ela tentou assassinar você?
— Sim. Eu jamais ergueria a mão contra ela. Em troca, ela ordenou a minha execução.
— E o que você pretende fazer agora? — ele perguntou, fitando-me com seriedade.
— Quero a sua ajuda, Dario. Quero que me ensine a lutar. Preciso encontrar uma forma de controlar e canalizar meus poderes.
— Se você quer aprender, eu serei seu mestre. Mas a pergunta que não quer calar é: o que você pretende fazer com essas habilidades? — Ele franziu a testa, buscando a verdade em meu olhar.
Olhei para ele com uma determinação que nunca sentira antes. Falei com voz firme, pausada, deixando cada sílaba ecoar no quarto:
— Eu quero vingança.
Por muito tempo, permiti que me maltratassem, desprezassem e agredissem. Mas essa mulher morreu naquele porão. A que está aqui hoje não aceitará nada menos que a justiça.