Capítulo:4- Deusa da Lua

810 Palavras
O que houve, irmãzinha? Não vai me dizer que um deles é seu companheiro, há não... esqueci. Você é uma aberração sem lobo, não é?" ​Thayssa zombou, cruzando os braços, enquanto os dois homens parados na porta a observavam como predadores. A vaidade dela parecia ter atingido o auge. ​"Bom, hoje é o meu dia de glória, e para você, Anika, é o seu último dia de vida aqui." O sorriso de Thayssa era de pura satisfação. ​"Por quê? Por que você me odeia tanto, Thayssa?" A pergunta me escapou, um murmúrio fraco de dor. Eu ansiava por uma razão, qualquer motivo horrível que eu pudesse ter dado a ela. ​Ela inclinou a cabeça, pensativa, e depois sorriu abertamente, um sorriso que não alcançava seus olhos. ​"Nada. Absolutamente nada. Somente o fato de você existir já me dá motivos suficientes." ​Uma estranha calma desceu sobre mim, uma aceitação fria e silenciosa. ​"No fundo... bem no fundo, eu estou feliz. Feliz por não ser o monstro que sente ódio por nada." ​Minha voz estava rouca e fraca, mas a verdade das palavras acendeu uma fúria selvagem nos olhos de Thayssa, que escureceram por um breve e terrível segundo. ​"Ela é toda de vocês, meninos. Se livrem do corpo quando acabarem. Tenham uma boa noite, irmãzinha." ​Thayssa alisou seu vestido vermelho e fechou a porta com um estrondo ensurdecedor, selando minha escuridão e me abandonando à mercê daqueles dois homens. ​O primeiro me suspendeu. As correntes atadas aos meus braços se esticaram e me puxaram para o alto até que meus pés não tocassem mais o chão. A dor em meus ombros rompeu-se, mas era apenas o começo. O segundo injetou prata líquida em minhas veias. Gritei, um som primal e agudo, enquanto o metal tóxico se espalhava, queimando cada célula do meu corpo. A prata não era apenas dolorosa; ela inibia o que restava do meu fraco fator de cura. ​Em seguida, vieram os choques elétricos. Meu corpo se contorceu descontroladamente sob o assalto da eletricidade, meus músculos se rasgando. Quando eu desmaiava, eles me jogavam baldes de água gelada para me trazer de volta à tortura. Eu já não conseguia mais gritar. ​Depois de horas que pareciam uma eternidade, a vida começou a esvair-se de mim. Pude sentir meu coração vacilando, a exaustão vencendo. Comecei a implorar, não por socorro, mas à Deusa da Lua, pedindo misericórdia para que a dor finalmente acabasse. ​Minha visão ficou nebulosa. O porão desapareceu, e tudo ficou escuro, depois inundado por uma luz suave. ​Eu estava sentada sob a árvore com meu pai. Eu deveria ter uns sete anos. Ele sorria, e o mundo era perfeito. Fiquei ali, observando de longe minha versão criança, protegida. ​Então, senti uma mão pousar gentilmente em meu ombro. ​Virei-me e vi uma mulher de pele luminosa, olhos castanhos gentis e longos cabelos pretos que voavam ao vento, assim como seu vestido branco. Ela sorria para mim. ​"Anika, você precisa voltar." Sua voz era um eco tranquilizador. ​"Eu não quero voltar. Não quero sofrer nunca mais. Eu prefiro ficar aqui, prefiro ver meu pai," Falei, as lágrimas caindo ao contemplar a cena de amor perdida. ​"Anika, ainda não chegou a sua hora. Sinto muito, mas você terá que voltar. Faça isso pelo seu pai. Ele nunca chegou até mim, Anika." ​O choque me atravessou, superando toda a dor física. ​"Meu pai nunca chegou aqui? Por quê? O que isso significa?" O desespero tomou conta de mim. ​A Deusa da Lua limpou minhas lágrimas com ternura, sua mão fria e suave. ​"Anika, eu não posso te contar. Você terá que voltar agora, seu tempo está acabando. E quando seu lobo despertar, você terá a resposta." ​"Meu lobo? Eu terei meu lobo?" ​"Sim, Anika. Eu irei despertar seu lobo. Não vou mandá-la de volta sozinha." A Deusa da Lua afastou uma mecha de cabelo do meu rosto, e senti a força da vida retornando, fria e potente, correndo em minhas veias. ​"Eu voltarei. Voltarei pelo meu pai. Somente por ele." ​Assim que as palavras saíram da minha boca, tudo ficou preto. ​A escuridão, no entanto, não durou. Um segundo depois, uma explosão de calor e poder me atingiu. Foi como se o universo inteiro estivesse se condensando em meu peito. A dor da prata e do acônito não sumiu, mas foi esmagada por uma força maior, selvagem e primária. ​Abri os olhos. O porão estava o mesmo, mas a escuridão dentro de mim havia se dissipado. No lugar do medo, havia fúria. O elo que me ligava à minha loba, antes uma chama fraca, agora era um inferno crepitante. ​O lobo da neve cinzenta estava acordado. E estava com fome.
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