O que houve, irmãzinha? Não vai me dizer que um deles é seu companheiro, há não... esqueci. Você é uma aberração sem lobo, não é?"
Thayssa zombou, cruzando os braços, enquanto os dois homens parados na porta a observavam como predadores. A vaidade dela parecia ter atingido o auge.
"Bom, hoje é o meu dia de glória, e para você, Anika, é o seu último dia de vida aqui."
O sorriso de Thayssa era de pura satisfação.
"Por quê? Por que você me odeia tanto, Thayssa?"
A pergunta me escapou, um murmúrio fraco de dor. Eu ansiava por uma razão, qualquer motivo horrível que eu pudesse ter dado a ela.
Ela inclinou a cabeça, pensativa, e depois sorriu abertamente, um sorriso que não alcançava seus olhos.
"Nada. Absolutamente nada. Somente o fato de você existir já me dá motivos suficientes."
Uma estranha calma desceu sobre mim, uma aceitação fria e silenciosa.
"No fundo... bem no fundo, eu estou feliz. Feliz por não ser o monstro que sente ódio por nada."
Minha voz estava rouca e fraca, mas a verdade das palavras acendeu uma fúria selvagem nos olhos de Thayssa, que escureceram por um breve e terrível segundo.
"Ela é toda de vocês, meninos. Se livrem do corpo quando acabarem. Tenham uma boa noite, irmãzinha."
Thayssa alisou seu vestido vermelho e fechou a porta com um estrondo ensurdecedor, selando minha escuridão e me abandonando à mercê daqueles dois homens.
O primeiro me suspendeu. As correntes atadas aos meus braços se esticaram e me puxaram para o alto até que meus pés não tocassem mais o chão. A dor em meus ombros rompeu-se, mas era apenas o começo. O segundo injetou prata líquida em minhas veias. Gritei, um som primal e agudo, enquanto o metal tóxico se espalhava, queimando cada célula do meu corpo. A prata não era apenas dolorosa; ela inibia o que restava do meu fraco fator de cura.
Em seguida, vieram os choques elétricos. Meu corpo se contorceu descontroladamente sob o assalto da eletricidade, meus músculos se rasgando. Quando eu desmaiava, eles me jogavam baldes de água gelada para me trazer de volta à tortura. Eu já não conseguia mais gritar.
Depois de horas que pareciam uma eternidade, a vida começou a esvair-se de mim. Pude sentir meu coração vacilando, a exaustão vencendo. Comecei a implorar, não por socorro, mas à Deusa da Lua, pedindo misericórdia para que a dor finalmente acabasse.
Minha visão ficou nebulosa. O porão desapareceu, e tudo ficou escuro, depois inundado por uma luz suave.
Eu estava sentada sob a árvore com meu pai. Eu deveria ter uns sete anos. Ele sorria, e o mundo era perfeito. Fiquei ali, observando de longe minha versão criança, protegida.
Então, senti uma mão pousar gentilmente em meu ombro.
Virei-me e vi uma mulher de pele luminosa, olhos castanhos gentis e longos cabelos pretos que voavam ao vento, assim como seu vestido branco. Ela sorria para mim.
"Anika, você precisa voltar."
Sua voz era um eco tranquilizador.
"Eu não quero voltar. Não quero sofrer nunca mais. Eu prefiro ficar aqui, prefiro ver meu pai,"
Falei, as lágrimas caindo ao contemplar a cena de amor perdida.
"Anika, ainda não chegou a sua hora. Sinto muito, mas você terá que voltar. Faça isso pelo seu pai. Ele nunca chegou até mim, Anika."
O choque me atravessou, superando toda a dor física.
"Meu pai nunca chegou aqui? Por quê? O que isso significa?"
O desespero tomou conta de mim.
A Deusa da Lua limpou minhas lágrimas com ternura, sua mão fria e suave.
"Anika, eu não posso te contar. Você terá que voltar agora, seu tempo está acabando. E quando seu lobo despertar, você terá a resposta."
"Meu lobo? Eu terei meu lobo?"
"Sim, Anika. Eu irei despertar seu lobo. Não vou mandá-la de volta sozinha."
A Deusa da Lua afastou uma mecha de cabelo do meu rosto, e senti a força da vida retornando, fria e potente, correndo em minhas veias.
"Eu voltarei. Voltarei pelo meu pai. Somente por ele."
Assim que as palavras saíram da minha boca, tudo ficou preto.
A escuridão, no entanto, não durou. Um segundo depois, uma explosão de calor e poder me atingiu. Foi como se o universo inteiro estivesse se condensando em meu peito. A dor da prata e do acônito não sumiu, mas foi esmagada por uma força maior, selvagem e primária.
Abri os olhos. O porão estava o mesmo, mas a escuridão dentro de mim havia se dissipado. No lugar do medo, havia fúria. O elo que me ligava à minha loba, antes uma chama fraca, agora era um inferno crepitante.
O lobo da neve cinzenta estava acordado. E estava com fome.