Capítulo 3

2099 Palavras
Ela estava chorando. Eu me encostei na parede ao lado da porta do seu quarto. Eu não queria ter reagido da forma que eu fiz, mas eu só consegui pensar em Elisa. A minha mente vagou pelo cenário perturbador onde a minha namorada ouvia boatos sobre eu estar transando com a minha colega de apartamento e eu fiquei apavorado. Quer dizer, nem foi um medo racional, quais são as chances de Elisa ouvir qualquer coisa sobre isso? Eu não pensei direito e agora estou me sentindo uma m***a. A garota está chorando! E só há duas possibilidades: ela pode estar chorando pela forma como eu falei com ela e apesar disso mostrar que ela é sensível pra caramba, eu me sentiria um i****a de ser o culpado pelas lágrimas. Ou ela está chorando por causa do b****a arrogante que saiu daqui e isso significa que ela provavelmente me usou porque realmente precisava afastar o cara. Eu achei que só queria causar ciúmes nele, mas agora acho que é mais que isso. E então, ao invés de ser compreensível com o que provavelmente já estava sendo difícil para ela, eu comecei a gritar. E isso também faz de mim um i****a. Só existe uma pessoa que sabe lidar com a minha idiotice como ninguém. Peguei o celular no bolso e abri a conversa com Elisa. Eu: Começo r**m. Acabei de me desentender com minha colega de apartamento. Elisa: Oh! Você tem uma colega? Eu pensei que fosse um cara. Erik, não? Eu: sim, ele também. Elisa: ela é f**a? Eu não poderia dizer isso. Eu: oh querida, eu só tenho olhos para você! Elisa: hahaha se saiu bem! Por enquanto... Elisa: então, o que você aprontou contra a garota? Eu: por que você supõe que é minha culpa? Elisa: porque você tá se sentindo culpado! Ela me conhece tão bem que não posso deixar de sorrir um pouco. Eu: o ex apareceu aqui. Ela parecia abalada e me usou de escudo. Disse pro cara que a gente estava... Elisa: é bonitinho que você não consiga digitar as palavras. Você não consegue me trair nem por mensagem. Eu: digitar as palavras não seria te trair por mensagem, você sabe... trocar mensagens de s**o com outra garota? Sim. Elisa: há espertinho! Elisa: você brigou com ela? Eu: fiquei preocupado que você ficasse chateada. Elisa: você sabe que eu jamais teria ouvido essa história se você não tivesse me contando, não é? Eu: claro. Isso faz todo o sentido agora. Elisa: e você se preocupou ainda assim. Elisa: você é fofo, cowboy Elisa: vá. Peça desculpas e seja um bom colega. É o seu primeiro dia! Elisa: mas não jogue muito do seu charme pra cima dela. Eu não preciso que ela realmente queira ... com você. Eu: hahaha eu te amo Elisa: eu sei. Sorrio para a mensagem espertinha, mas o sorriso morre quando escuto um fungar vindo do quarto de Briana. Eu guardo o celular e respiro fundo, então bato na porta. - Erik? - Hum, não. - Ahg! Eu estou ocupada. - ah... ok. Eu só... queria saber se posso assistir um pouco de tevê ou é a sua vez? - Faz o que quiser. Tá legal. Ela não ia facilitar. - Na verdade... eu posso falar com você? - Não. Isso é frustrante. Ela está sendo frustrante de propósito e eu começo a sentir uma irritação vir. Foi ela quem me meteu nessa história, afinal. Mas eu sei que errei também. Elisa concordou que eu deveria falar com Briana, então trato de engolir a frustração. Ela pode continuar sendo difícil depois se quiser, mas primeiro eu iria fazer a minha parte. Empurro a porta de leve, esperando que ela esteja decente. Briana está encarando o teto e abraçada a um travesseiro cumprindo. Ela se apoia nos cotovelos para me olhar. Os olhos ainda estão vermelhos, mas acho que as lágrimas pararam. A imagem dela apaga toda a irritação. Ela está m*l. - Você invadiu o meu quarto! - Eu sei. Eu posso falar com você? - Você fez essa pergunta segundos atrás e eu disse não. - Foi... bom, estou esperançoso que alguns segundos sejam o bastante para você mudar de opinião. Quer dizer, eu mudei de opinião sobre aquela cortina horrosa, né? Ela sorri. Na verdade ela não sorri mesmo, mas eu vejo o princípio de um sorriso querendo se formar. Ela vai ceder. - Você tem cinco minutos. Briana encosta as costas na cabeceira da cama e recolhe os pés. Ela não me diz para sentar, mas acho que está tentando abrir espaço para mim na cama. Eu fico na beirada dela. - O que você quer? - Eu quero me desculpar. Eu fui grosso sem um motivo pra isso. Você não merecia. Ela não diz nada, então eu continuo falando. - Eu tenho uma namorada, sabe? E eu só estava pensando sobre ela ouvindo aquela coisa que você inventou e... não foi legal o meu comportamento. Mais silêncio... Eu espero dessa vez porque não sei mais o que dizer. Briana fica em silêncio por um minuto inteiro antes de responder: - Ok. - Ok? - Ok. Eu desculpo você. - Hum... certo. Obrigado. - Você quer kit-kat? Eu pisco. O que é essa pergunta agora? Eu nem respondo, mas ela abre a gaveta da escrivaninha ao lado da cama e pega duas barras. Joga uma para mim e imediatamente abre a outra. Ela começa a comer e eu encaro o chocolate na minha mão. - Você é meio esquisita. - Sou honesto. - a gente estava brigando e agora você me oferece um kit-kat. Isso tá envenenado? - Eu jamais iria desperdiçar uma barra de chocolate colocando veneno nela. - Então o quê? - Eu não sou muito boa nessas coisas: Desculpas, conversas... É só... tudo bem, eu sei que eu fiz m***a e agora estou exagerando na minha reação, vamos deixar isso pra lá e tome um chocolate! - É um chocolate da paz, então? Ela assente. Eu abro a barra e como um pedaço. - Não está mesmo chateada? Nós vamos morar sob o mesmo teto e eu não quero um clima r**m. - Não estou, eu acabei de te dar um kit-kat! - Certo. Desculpe por dizer que você não é minha amiga. Acho que nós não somos ainda, mas espero que isso aconteça. - Desde que eu não diga para mais ninguém que a gente está transando. - Ela ri. - Desculpa por isso. Eu não queria causar um problema. Não sabia que você tinha uma namorada e reagi m*l ao meu ex-namorado. - E eu reagi m*l a ideia da minha namorada reagindo m*l a isso... mas não se preocupe. Elisa está bem. Ela me aconselhou a falar com você. Eu já sabia que deveria me desculpar, mas ela me deu coragem pra isso. - Você contou pra ela? - Briana sorri e balança a cabeça. - isso é meio fofo. E inesperado. Onde ela está agora? - Longe. - Eu suspiro. - Elisa só acaba o ensino médio no final do ano. Eu vim pra faculdade e ela ficou. Nós somos do Texas. - Parece um bom lugar. Vai passar rápido, não faz essa cara de pobre apaixonado. Ela vai vir para Nova York também quando se formar? É claro que Briana não sabe disso, mas ela acabou de fazer a pergunta proibida. Eu mordo mais um pedaço do chocolate e encaro um pouco a coberta na cama, traçando linhas nela. A coberta é amarela e isso meio que me faz pensar nos cabelos de Elisa. - Não sabemos... - Digo por fim. - Ela vem ou eu me transfiro de volta. - Você não parece tão animado com a segunda opção. Eu não sei como ela interpreta isso. Essa verdade é algo que não admiti completamente nem pra mim mesmo. E não quero admitir para ela também. Balanço a cabeça. - Eu não estou desanimado com isso. Eu amo o Texas. Mas... eu não sei. O mundo é enorme. - Eu entendo o que você quer dizer. Como saber se você ama o Texas mais do que outros lugares se existe um milhão de outros lugares que você não conhece. É exatamente isso. Elisa diz que não há outro lugar no mundo em que ela queira viver. Mas... de onde vem essa certeza? O Texas é tão... eu não sei. Há tanta história em Nova York. Não sinto isso em casa. Mas novamente, Texas é a minha casa. Não é que eu não ame o lugar de onde eu vim, porque eu amo, mas eu quero... mais. Então tem a Elisa... eu posso viver uma vida sem ela? Pouco provável. - Elisa gosta de lá. Ela ama. - Eu suspiro - Ainda não chegamos a uma decisão. - Um ano passa rápido. Faço uma careta. Penso nisso o tempo todo. - Eu sei. Não há muitas opções. Ela cede ou eu cedo. É assim que as coisas são. - E você não vai acabar se ressentindo dela? Se você precisar ceder. Eu encaro Briana. Nossa, essa garota faz as piores perguntas! Mas essa é fácil. Balanço a cabeça. - Eu jamais iria me ressentir dela. Elisa nunca despertaria sentimentos ruins em mim. Vamos lidar com isso na hora certa. - Você a ama. Não era uma pergunta e acho que não precisava ser. A minha relação com Elisa sempre foi óbvia para qualquer um. - Sim. - Algum sentimento passa em seus olhos. Eu não identifico, mas posso dizer que ela ficou abalada. Eu me sinto de novo um i****a porque ela estava aqui chorando pelo ex-namorado e agora eu estou jogando a minha relação na cara dela. - mas e você... seu namorado... Eu deixo no ar. Não vou insistir no assunto caso ela não queira. - Eu o traí. Não esperava por essa e não sei exatamente o que dizer. Eu achava que ele pudesse ter feito algo assim. Não ela. - Você está me julgando. - Não estou. - Está sim. Tá na sua cara. Bom, eu não posso dizer que entendo a traição. Se você está com t***o basta t*****r com o seu parceiro. Não é mesmo preciso inserir uma outra pessoa na história. Não me parece justo. - Você se apaixonou por outra pessoa? Talvez eu pudesse entender isso. Isso era melhor do que traição por atração física. Ou por pura falta de caráter. - Não. Eu não me apaixonei - Ela suspira e parece cansada. - Não importa. Eu só quis te contar porque é claro que você vai ouvir essa história na faculdade. Todo mundo ouve. Então, você deveria saber que eu sou uma v***a por mim e não pelos idiotas da UNY. Eu não gosto da palavra. Não gostei quando saiu da boca do seu ex-namorado e não gosto agora quando sai da sua. Eu imagino que seja pior para ela. Para as mulheres em geral. Um cara que trai é normal. Na maioria das vezes é até aplaudido por isso. A garota? A garota nunca é aplaudida. - Não existe isso de ser uma v***a. Eu vou supor que você tem os seus motivos. Não precisa me contar e eu obviamente não sei da história inteira para te julgar. Então... vou apenas dizer que o cara que estava aqui hoje parecia um b****a e por isso... bem feito pra ele. Briana abre o sorriso mais largo que eu já a vi dar. Eu só a conheço por algumas horas então talvez não seja nenhum especialista nos seus sorrisos, mas é bonito. É sincero e muito bonito. Eu desvio os olhos. - Obrigada. Isso foi meio que a coisa mais legal que você poderia me falar. Estou feliz que eu tenha dividido o meu kit-kat com você. Eu rio um pouco. - Estou feliz também. Acho que podemos dizer que esse é o início de uma boa amizade? - Claro. Eu não divido doces com qualquer um. - Bom saber. Eu pulo para fora da cama. Alguma coisa no fundo da minha mente sussurra o nome de Elisa. Eu não sei por que esse lembrete aparece, mas me agarro a ele. Talvez eu esteja tempo demais no quarto de outra garota. Elisa é compreensiva, mas não quero fazer nada que possa a irritar. - Bem, acho que vou tomar aquele banho agora. - Ah claro! Os sabonetes ficam na terceira gaveta do banheiro. - Certo. Valeu. Eu deixo o quarto de Briana e me sinto leve agora. Estou feliz que tudo está no lugar. Acho que vou gostar de morar aqui...
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR