Taylor bateu de encontro às paredes e gritou.
- Alguém me ajuda, por favor.
O corredor era estreito, pouco iluminado e parecia não ter mais fim, Taylor achou que daria em algum lugar quando entrou ali, mas havia se perdido e agora não sabia como voltar.
- d***a! - suspirou sentando no chão. - Como eu vou sair daqui agora? - cobriu o rosto com as mãos.
Vincent vasculhou toda a redondeza da floresta por onde Taylor poderia ter ido, mas não encontrou nenhum vestígio dela. Com o decorrer dos anos ele aprendera a rastrear pegadas atrás de pessoas e não encontrou nada que pudesse assegurar que Taylor tinha ido em qualquer uma daquelas direções.
Quando voltou pra mansão já estava escurecendo.
- Você a encontrou? - Archer perguntou quando ele entrou no escritório.
- Não, ela não foi pra floresta, não há sinal de nenhuma pegada dela por lá.
- Você tem certeza? - Archer perguntou preocupado.
- Absoluta. - Vincent assentiu. - Ela tem que estar aqui na mansão.
- Mas aonde d***a, eu já vasculhei tudo. - Archer deu um murro na parede.
Vincent o encarou e então se lembrou de uma coisa.
- Pelos sete Deuses, tomara que eu esteja enganado. - deu as costas e saiu às pressas.
Archer o seguiu pra fora do escritório, os dois passaram pela sala e entraram na biblioteca. Vincent subiu até o segundo andar e quando viu uma das prateleiras fora do lugar suspirou.
- Ela não fez isso!
- O que foi? - Archer perguntou preocupado.
- Há muitos anos minha família construiu essa mansão com uma espécie de túnel, uma passagem secreta passando por todo o casarão, com acesso à floresta. Em épocas de guerra ou invasão de terras, minhas famílias entravam por essas passagem e se escondiam. Se a estante está fora do lugar é que a Taylor encontrou esse lugar, entrou e se perdeu. - Vincent suspirou.
- Eu não acredito que ela entrou nessa passagem. - Archer suspirou.
- Você não entendeu, o problema não é só ela se perder, esse corredor tem bifurcações que levam a todos os lados da mansão, ela pode estar em qualquer lugar, presa atrás dessas paredes, incapaz de nos ouvir. Além disso o local é frio e escuro e podemos levar dias pra encontrar o corpo dela.
- Não fala isso, a gente vai achar ela e ela vai estar bem. - Archer respondeu preocupado.
- Você não conhece os túneis, fique aqui e deixa que eu entro pra procurar ela.
- Mas e se você se perder?
- Já está anoitecendo Archer, posso usar meus instintos de lobo para rastrear o cheiro dela, além do mais, caminhei por esses túneis incontáveis vezes, te garanto que não vou me perder. - Vincent garantiu.
Antes que Archer tivesse tempo de protestar, Vincent se transformou num lobo e entrou atrás da estante.
- Por favor, encontre ela e que ela esteja bem. - suspirou.
Maryane entrou no quarto de Taylor cabisbaixa e encontrou Tatte arrumando as coisas da irmã.
- Como pode uma pessoa sumir assim do nada? Ela estava bem, com a gente e agora...
- Ela vai aparecer filha, não se preocupe. - Maryane apertou o ombro dela tentando lhe passar algum conforto.
- A senhora acredita de verdade que com ela vai acontecer o mesmo que as outras moças? Que ela vai regressar dentro de 20 dias como o delegado disse? - Tatte encarou a mãe.
- Temos que ter fé que sim, que ela vai retornar provavelmente antes do esperado, sua irmã é esperta, meu amor, logo estará aqui com a gente. - Maryane sorriu, tentando se manter confiante.
- Tomara que a senhora tenha razão. Às vezes me sinto culpada pelo sumiço dela. - Tatte suspirou.
- Não foi sua culpa, filha.
- Se eu não tivesse adoecido mãe, Taylor não teria vindo para cá. - respondeu.
- Ela veio porque é boa, generosa e te ama. Não acreditou de verdade que ela ficaria lá, longe da única irmã que estava doente. - Maryane sorriu.
Tatte forçou um sorriso e abraçou a mãe.
- Já estou com saudades dela.
- Eu também querida, mas ela logo irá aparecer, você vai ver.
- Você me ajuda a esconder as coisas dela? Não quero que os gêmeos vejam. - Tatte pediu.
- Boa ideia, afinal, eles acreditam que ela está na capital. - respondeu com tristeza.
Tatte assentiu desanimada, com a ajuda da mãe, as duas dobraram e guardaram todas as roupas de Taylor.
Vincent vasculhou todos os corredores e bifurcações que recobriam as paredes da mansão. Usando seu olfato apurado na forma de lobo, ele buscou pelo odor de Taylor, até começar a senti-lo.
Quando identificou a direção de onde o cheiro vinha, ele apertou o passo. O corredor era estreito, mas largo o suficiente pra ele passar. Quando a avistou ao final de uma curva caída no chão, ele retornou à forma de homem e correu até ela.
- Taylor! - se abaixou na altura dela e tocou seu rosto.
Os fios de cabelos estavam presos à testa molhada. As mãos dela estavam geladas e seu rosto estava frio. Na forma humana Vincent percebeu o quanto aquele lugar estava gelado.
- Temos que sair daqui!
Com algum esforço ele a pegou no colo e seguiu em frente, se continuasse por aquele caminho daria no corredor para os quartos, seria mais rápido ir por ali do que voltar tudo que tinha andado.
- Archer! - ele gritou, empurrando uma parede falsa. - ARCHER!
Os passos apressados na escada denunciaram que Archer o tinha escutado.
- O que aconteceu com ela? - perguntou quando viu Taylor desmaiada.
- Está em crise de hipotermia, lembra que eu te disse que os corredores eram muito frios?
- Lembro! - Archer assentiu.
- Pegue vários cobertores e leve até o quarto dela. - Vincent pediu.
Archer correu até seu quarto e pegou duas mantas grossas. Vincent a cobriu, Archer encarou Taylor tremendo e ficou ainda mais preocupado.
- Por que diabos ela tinha que entrar naquela passagem?
- Não a recrimine, você fez a mesma coisa, sua sorte é que assim que viu que o corredor era longo e escuro demais voltou pra trás. Ela pode ter tentado a mesma coisa sem sucesso. - Vincent se inclinou sobre a cama e pegou o pulso de Taylor. - A pulsação dela está lenta, mais um pouco e ela iria acabar morrendo lá.
- Ela vai ficar bem, não vai? - Archer a encarou, ficou com medo de que ela morresse.
- Eu espero de verdade que sim. Deite ao lado dela enquan...
- O que? - Archer o interrompeu.
- Estou te pedindo pra deitar ao lado dela, o calor do seu corpo vai ajudar a aquecer o dela, enquanto isso irei fazer uma bebida quente para ela. - Vincent respondeu e deu as costas.
Parou na porta quando viu Archer ainda a encarando.
- O que está esperando? Faça o que eu te pedi.
Archer suspirou, mas se aproximou da cama, tirou os sapatos e puxou as cobertas. Os dentes de Taylor batiam uns de encontro ao outro, tamanho o frio que ela sentia.
Archer deitou ao lado dela, apoiou a cabeça dela em seu ombro e acariciou seus cabelos.
- Calma, você vai ficar bem, você vai ficar bem. - repetiu.
Taylor não parava de tremer e sussurrar palavras incoerentes. Archer a abraçou com mais força e com uma das mãos ficou acariciando os cabelos dela. Seus lábios quentes tocaram a testa fria dela, depositando um beijo ali.
- Você não vai morrer entendeu? Não vou deixar você morrer. - respondeu acariciando os braços dela.
Apoiou as mãos de Taylor perto do peito dela, de forma que ficassem aquecidas.
- Eu vou cuidar de você, não vou deixar te acontecer nada. - sussurrou e mais uma vez beijou sua testa.
Na cozinha Vincent preparou um chá quente e quando terminou, subiu até o segundo andar da casa. Ao entrar no quarto de Taylor, ele sorriu ao ver Archer dormindo abraçado à ela.
- Está gostando dela, ainda não se deu conta, mas está gostando dela. - sussurrou com um sorriso nos lábios. - Logo vocês irão saber o que é estar apaixonado.
Vincent se aproximou e com cuidado pra não acordá-lo, puxou o pulso de Taylor, sua mão já não estava mais gelada e a pulsação estava um pouco mais rápida.
- Você vai ficar bem! - sorriu.
Sem querer atrapalhar Vincent deu as costas e levou a xícara de chá com ele.
Ao chegar no escritório ele encarou seu retrato e de Catherine.
- Não sabes quanta falta me fazes, meu amor. - acariciou o rosto dela na pintura. - Eu aceitaria ser castigado novamente, por toda a eternidade, sem em troca pudesse vê-la pelo menos mais uma vez.
Tatte cobriu os gêmeos e deu um beijo na cabeça de um, depois na do outro.
- Boa noite, meus queridos, mamãe ama vocês.
- A gente também te ama, mamãe. - Alec respondeu.
- Mamãe conta a lenda do homem lobo pra gente? - Enzo pediu.
- Eu não sei essa lenda filho, é a tia de vocês que gosta e conhece. - Tatte suspirou.
Alec abaixou a cabeça enquanto Enzo dizia:
- Sinto falta da titia, quando será que ela volta?
- Ela só está fora há um dia, meu amor, talvez demore um pouco para voltar.
- Mamãe, a gente fez alguma coisa pra tia Taylor ir embora? - Alec perguntou confuso.
- Será que a gente encheu muito a paciência dela? - Enzo estreitou as sobrancelhas.
- Claro que não, meu amores, eu já disse, ela precisou se ausentar, mas logo ela estará de volta. Agora vamos parar de conversa fiada e dormir ok? - Tatte se levantou.
- Ta bem. - os dois responderam e acenaram com a cabeça, ao mesmo tempo.
Tatte sorriu, gostava quando eles se comportavam como robozinhos e faziam gestos iguais.
- Boa noite. - ela soprou um beijo para os dois, e saiu fechando a porta.
Taylor acordou sentindo-se um tanto zonza e se assustou ao ver Archer deitou ao lado dela.
- Oh meu Deus! - sussurrou, encarando seu rosto.
Archer tinha a aparência serena e seus braços a envolviam de forma protetora. Taylor sorriu não conseguindo esconder que estava gostando de ficar daquele jeito com ele.
- Como eu vim parar aqui? - sussurrou para si mesma.
Percebeu que já tinha anoitecido e lembrou da passagem onde ela havia entrado, os corredores frios e idênticos. Lembrou de andar entre eles, procurando uma saída e não encontrar nenhuma.
Encarando Archer novamente, ela ficou ali observando as feições dele. O maxilar proeminente, a barba farta cuidadosamente aparada, as sobrancelhas grossas, os cabelos negros, e o que mais lhe chamou a atenção, os lábios. Lábios que na opinião dela eram perfeitos, do tamanho certo e bem desenhados.
Taylor passou a língua pelos lábios e sem resistir tocou o rosto de Archer, a barba fez cócegas em sua mão. Seus olhos estavam focados nos lábios dele, a vontade súbita de beijá-lo se tornava cada vez mais forte.
Archer abriu os olhos e Taylor se afastou às pressas levantando da cama. Archer ao vê-la acordada também se levantou, constrangido com a forma como eles estavam.
- Desculpe! - ele pediu sem jeito, encarando-a do outro lado da cama.
- Por que você estava dormindo comigo? - ela o olhou assustada.
- Foi ideia do Vincent, você estava gelada e precisava se aquecer.
Taylor se encarou, aliviada ao ver que estava vestida, era só o que faltava pular da cama totalmente nua.
- Como vocês me acharam e o que era aquela passagem?
- Foi construída a muitos anos, como rotas de fuga pra floresta, você se perdeu porque ela percorre todo o casarão. Foi o Vincent quem te encontrou, você não devia ter entrado lá Taylor.
- Me desculpe! - ela abaixou a cabeça. - O lugar era tão frio, fiquei com medo de nunca mais sair de lá, pensei que iria morrer.
- Mas você está bem agora, não está? - Archer deu a volta na cama e parou na frente dela.
Com uma das mãos ergueu o queixo dela e a fez olhar pra ele. Com as duas mãos acariciou o rosto dela e suspirou aliviado, ao ver que o rosto dela estava quente e mais quente ainda na região das bochechas, que estava adquirindo um tom mais rosado.
- O... O que está fazendo? - Taylor gaguejou.
- Só estou checando se você está bem, você estava gelada quando a encontramos. - ele respondeu soltando o rosto dela.
- Você se preocupa comigo? - ela sorriu.
- É claro que sim, você é um pouco curiosa demais, mas eu... Eu não ia gostar nenhum pouco se você morresse. - confessou.
Taylor mordeu o lábio inferior, constrangida e feliz ao mesmo tempo pela forma como Alfonso a estava tratando.
- Sabe... Você sabe ser um cara legal quando quer. - sorriu.
- Que bom! - Archer sorriu de volta.
Taylor suspirou e fechou os olhos, o quarto parecia rodar em volta dela.
- O que foi, você está bem? - Archer agarrou os braços dela, com medo de que ela caísse.
- Só to um pouco zonza. - Taylor segurou nos braços dele em busca de apoio.
- É melhor você se deitar.
- Tudo bem já ta passando. - ela suspirou e ergueu o rosto pra encará-lo. - Alguém já te disse que você tem olhos muito bonitos. - sorriu.
- Não, você é a primeira que me diz isso.
- Você deveria sair mais vezes, aposto que ouviria a mesma coisa de outras garotas.
- Não ligo pra opinião de outras garotas. - respondeu.
- Não? - Taylor piscou confusa.
Archer negou com a cabeça e a encarou nos olhos.
- Você também tem olhos lindos Taylor, são os azuis mais belos que eu já vi.
Taylor sorriu de volta, sentindo suas bochechas pegarem fogo. Archer segurou o rosto dela entre as mãos e os dois ficaram em silêncio se encarando. Quando ela fechou os olhos, ele trouxe o rosto dela pra perto do seu e a beijou sem mais poder esperar.