O delegado abriu a porta e a moça de 22 anos entrou, acompanhada de dois policiais.
- Me deixem a sós com a moça.
Os policiais se retiraram e a moça sentou na cadeira de frente para o delegado.
- Seu nome é Angélica Bustamante, sua queixa foi dada à vinte dias quando você desapareceu.
- Isso! - a moça assentiu.
- Onde você passou esses vinte dias?
- Não me recordo. - Angélica suspirou.
O delegado encostou na cadeira e foi sua vez de suspirar.
- Me conte do que você se lembra.
- Eu estava saindo do trabalho, quando vi um vulto, na verdade parecia um animal.
- Um lobo? O tal lobo cinzento que todos acreditam ser habitado pela alma de um homem amaldiçoado?
- Isso, só que não consegui ver muito bem e então eu acredito que desmaiei.
- E acordou na tal casa misteriosa que não faz ideia de onde fica?
- Exatamente. - a moça assentiu.
- Me conte sobre o homem que a raptou.
- Bom! Ele era alto, forte, muito bonito, tinha alguma coisa que chamava a minha atenção, mas não sei bem o que era, eu sinto como se o conhecesse.
- Consegue descrever o seu rosto para mim? É alguém conhecido na cidade? Alguém que tem posses?
- Não me lembro do rosto dele. Só sei que fui muito bem tratada quando estava sob seus cuidados, ele me tratou com muito respeito e dedicação. Disse que queria que eu me sentisse à vontade e em troca só queria apenas uma coisa de mim.
- E que coisa era essa?
- Não sei senhor, se ele me disse não me recordo!
- Ele mantinha o rosto oculto quando se encontrava com a senhorita?
- Não senhor, não me lembro do rosto dele, mas tenho certeza que vi seu rosto todas as vezes. Às vezes sinto falta dele, queria poder vê-lo de novo. - Angélica suspirou.
- E como foi que voltou à cidade? - o delegado a encarou, cansado da mesma conversa.
- Lembro que estava naquela casa e de repente começou a me dar muito sono. Quando acordei estava na entrada da floresta. Sem saber pra onde ir, voltei pra casa, mas não sei como cheguei até lá e não faço ideia de onde fica a casa onde eu estava. Me lembro dos momentos em que passei na casa, me lembro do homem, do som da sua voz, mas não conseguiria voltar até lá, não consigo me lembrar de seu rosto.
- É o suficiente, você pode se retirar, obrigado pelo depoimento.
Angélica ficou de pé e sorriu cumprimentando o delegado antes de sair da sala dele.
- Alguma novidade chefe? - o policial entrou na sala.
- Nada! É a décima quarta jovem que reaparece misteriosamente exatamente vinte dias depois de desaparecer misteriosamente. E todas vem com a mesma história, que não se lembram da fisionomia do raptor, nem de onde era o c*******o. Todas só sabem elogiá-lo, algumas como esta que saiu agora, chegaram a me dizer que sentem falta dele e de onde estavam.
- O que o senhor pretende fazer?
- As moças que estão sumindo todas elas tem entre 20 e 28 anos, nenhuma moça com mais ou menos idade foi sequestrada. Para mim esse homem não passa de um sedutor que convence as vítimas a passar determinado tempo com ele. Certamente depois que enjoa delas, ele dá algum dinheiro à elas para que inventem essa história de que não se lembram dele e do lugar.
- Então não acredita nelas senhor?
- Todas me garantiram que ele nunca ocultou o próprio rosto, então como é possível que não se lembrem da fisionomia dele? Para mim elas estão mentindo e quando eu pegar este homem, este t****o, irei provar que estou certo. Que ele coagiu as vítimas para protegê-lo.
- Tomara que o senhor consiga.
- Quero ver como este homem irá s********r mais jovens depois do toque de recolher que demos para as moças e com as patrulhas vigiando toda a cidade.
- Espero que nenhum novo sequestro aconteça. - o delegado suspirou.
Taylor levantou da mesa ao terminar de comer. Tatte, sua irmã mais velha de 29 anos a encarou.
- Aonde você vai?
- Vou ajudar nossos pais na loja, você precisa ficar em casa e se curar dessa tuberculose.
- Não sei como posso lhe agradecer. Você foi embora dessa cidade para fazer sua faculdade de Literatura, agora acabou de se formar e ao invés de buscar um emprego na sua área, a faço voltar para cá.
- Você está seriamente doente, eu não podia ficar na capital e deixar nossos pais sozinhos pra cuidar da loja, e me desculpe, mas Antony não iria dar conta de cuidar dos gêmeos sozinho.
- Sim eu sei, obrigada por tê-los colocado para dormir ontem à noite.
- Os dois já foram pra escola?
- Já, mas eles me contaram a história que a tia deles contou assim que chegou de viagem. - Tatte sorriu.
- O que eu posso fazer? São os garotinhos de seis anos mais corajosos que eu conheço e eles amam aquela lenda, sempre que eu venho para cá me pedem para conta-la. Os rapazes ainda fazem aquela competição boba de quem consegue ficar mais tempo na entrada da floresta depois das onze?
- Fazem ou faziam, não sei. Depois que as moças começaram a ser raptadas, o prefeito da cidade junto com o delegado resolveram fazer um toque de recolher. Como elas estavam sumindo sempre a noite, querem evitar novos desaparecimentos.
- Fui informada assim que cheguei. Ouvi histórias de que o lobo que guarda a floresta, o mesmo lobo da lenda que seus filhos amam é quem está sequestrando as moças. - Taylor sorriu com incredulidade.
- Algumas que sumiram acreditam que dormiram com o lobo quando estava na forma de homem e engravidaram dele. Vai ser uma boa justificativa se aparecer alguma mãe solteira por aqui. - Tatte riu.
- Acho engraçado algumas pessoas acreditarem nessas coisas em pleno século 21. Acho que vou aumentar minha estadia aqui na cidade, quem sabe com esse clima de lendas eu consiga inspiração para escrever meu primeiro livro. - Taylor sorriu.
- Te desejo toda a sorte do mundo!
- Obrigada, nos vemos mais tarde. - mandou um beijo pra irmã e deu as costas.
Quando chegou na perfumaria da família, Taylor entrou pelas portas do fundo e foi até o escritório do pai.
A família Mackenzie era conhecida em toda a cidade pela venda de suas essências e perfumes únicos, um negócio que passou de geração para geração, de herdeiro para herdeiro. Leon, o avô de Anahí, dizia que a arte de fabricar perfumes era um dom, um dom que precisava ser passado adiante para continuar sempre prosperando.
A família de Taylor não sabia lidar com outra coisa a não ser com perfumes. Seu pai aprendera a fabricar as essências com seu pai e seu avô, que também aprendeu com seu pai e seu avô e assim sucessivamente.
Tatte escolhera fazer faculdade de Química e com o pai delas aprimorou sua formação e aprendeu tudo que precisava ser feito para produzir os perfumes. Eram das mãos dela e de Enrique que as essências eram fábricas, que novos perfumes e cosméticos eram criados.
Um dom que Taylor às vezes lamentava não possuir. Até os 18 anos ela cresceu na loja, ajudando na parte das vendas, anotando os pedidos, mas nunca sentiu que tinha o dom para aquilo. Tatte desde pequena vivia atrás do pai no laboratório, curiosa em saber como os perfumes eram criados, uma curiosidade que Taylor nunca possuiu. Ela tinha o dom de criar também, mas ao contrário da família que queria criar essências e perfumes, ela sonhava em criar histórias, sonhava levar o nome Mackenzie para outro rumo que não fosse o da área de cosméticos.
Às vésperas de se formar no colegial ela encontrou coragem e disse à sua família que ao contrário do que esperavam não iria fazer faculdade de Farmácia ou de Química, mas sim de Literatura.
- Quero lidar com livros, quero ensinar sobre as histórias dos livros para as pessoas. Quero escrever um livro um dia. - ela dissera numa noite à mesa do jantar.
Para a surpresa dela, seus pais aprovaram a decisão dela, o tio de Taylor trabalha na capital, então foi mais fácil para ela se mudar, quando passou no vestibular um ano depois.
Agora depois de 5 anos fora ela tinha voltado a sua cidade natal para ajudar a família enquanto Tatte estivesse doente. Antony era advogado e trabalhava para o prefeito da pequena cidade, então não tinha tempo para cuidar dos gêmeos e seus pais ficavam o dia todo na loja.
Recém-formada e sem um emprego Taylor era a única com tempo disponível para ajuda-los, então não pensou duas vezes ao decidir voltar para sua cidade e passar um tempo ali.
- Como estão as coisas por aqui? - ela abriu a porta e entrou no escritório do pai.
- Que bom que você veio filha, preciso que me ajude no laboratório. - Enrique respondeu.
- Tem certeza de que não vou estragar uma de suas essências, como fiz ainda criança?
- Você não é mais uma garotinha de nove anos, mas aquele episódio foi bom, foi naquele dia que percebi que você não tinha dom para fabricar perfumes. - Enrique sorriu e abriu a porta que dava no laboratório.
- Por isso foi tão a favor que eu fizesse faculdade de Literatura? - Taylor sorriu vestindo o jaleco.
- É claro, eu não queria que você explodisse a loja com nosso laboratório junto. - Enrique brincou.
Taylor vestiu a luva e colocou os óculos e a máscara de p******o, assim como seu pai. Alguns produtos antes de serem diluídos podiam ser fortes demais e causar tonturas.
- Esse lugar ainda me deixa fascinada sabia? - sorriu.
- Talvez devesse colocar uma fábrica de perfumes no seu primeiro livro. - Enrique piscou pra ela.
- E eles deveriam se chamar "Essências Mackenzie", ou algum outro nome cafona? - cruzou os braços.
- Não é cafona! É o nome que seus antepassados escolheram quando começaram a produzir os perfumes e as essências. Você deveria ter mais respeito pelo negócio que está na família a tantas gerações.
- Não brigue comigo, o tio Fernando concorda comigo que esse nome ta meio fora de moda.
- Meu irmão sempre foi cheio de inventar histórias, você teve a quem puxar, mas a última coisa que vou deixar ele fazer é mudar o nome da nossa empresa. Ele vai ter que abrir a dele se quiser fazer isso.
- E arriscar uma concorrência com você? Nunca! - sorriu.
- Que bom que ele e você sabem disso, agora mãos à obra. - Enrique sorriu.
Taylor bateu continência e só fez exatamente o que seu pai pediu. Da última vez em que se atreveu a mexer por conta própria no laboratório do pai ela tinha nove anos. No que achou ser uma brincadeira ateou fogo em uma das mesas, quando inventou de pôr substâncias altamente inflamáveis num becker e aquecê-las.
Já estava escurecendo quando Taylor saiu da loja. Depois de ficar a tarde toda ajudando o pai, ela foi até o escritório e acabou ficando por lá pra adiantar o trabalho da mãe que já tinha ido pra casa.
Enquanto caminhava pelas ruas, ela sorriu vendo as casinhas antigas. Apesar de toda a tecnologia, inclusive de ter uma faculdade nas redondezas, aquela pequena cidade mantinha a sua essência, como se o tempo nunca tivesse passado. Era o lugar perfeito para relaxar e ter inspirações para histórias, ainda mais com uma floresta ao lado que todos acreditavam ser amaldiçoada e protegida por um homem que virava lobo.
O barulho do que parecia ser uma buzina ecoo dos alto-falantes que Taylor tinha visto no dia anterior quando chegou na cidade. Uma moto parou ao lado dela.
- A mocinha está indo para onde?
- Para a minha casa. - ela sorriu e deu de ombros.
- Precisa se apressar, o toque de recolher já soo, a senhorita tem dez minutos para estar em sua casa. - o policial avisou e saiu acelerando a moto.
- Toque de recolher. - Taylor revirou os olhos. - Até parece que que o tal lobo cinzento vai vir atrás de mim, se transformar num homem e me s********r. Esse povo tem cada ideia, espero ser criativa assim com meu livro. - riu desdenhando deles.
Ao invés de ir para casa como dissera Taylor acabou indo até o cemitério. As pessoas só visitavam aquele lugar durante o dia e apenas acompanhadas. O cemitério da cidade ficava ao lado da floresta, então todos os habitantes acreditavam que se fossem até ali à noite, depois das onze horas ou desacompanhados, seriam pegos pela tal maldição do homem lobo.
Taylor não deu importância aquilo, entrou no cemitério e parou em frente ao tumulo de seus avós.
- Me desculpem por não ter trazido uma flor para vocês. Venho duas vezes ao ano visita-los e hoje nem tive a decência de lhes trazer uma flor. - ela sorriu, se inclinou e acariciou o retrato dos avós.
Aqueles dois senhores de cabelos grisalhos nas fotos haviam criado as netas, Taylor e Tatte, como filhas. Eles eram teimosos, relutaram em ir morar com Enrique o quanto puderam, mas apenas porque tinham medo de incomodar, de se tornarem estorvos.
Infelizmente o tempo passa, as pessoas envelhecem e uma hora acabam partindo, foi isso que aconteceu com eles. E apesar de serem extremamente teimosos Giovanna e Leon se amavam. Amavam-se tanto que quando Giovanna partiu, Leon adoeceu de tristeza e logo foi encontrá-la. E apesar da tristeza que os filhos sentiam, eles cumpriram o que prometeram aos pais e enterraram os dois juntos, lado a lado.
- Nem parece que vocês partiram há sete anos. Sinto tanta falta de vocês! - suspirou.
Um barulho na árvore chamou a atenção de Taylor, quando ela olhou pro lado acreditando ser algum habitante ou outro guarda, ela viu um vulto escondido atrás das árvores.
- Quem está ai? - se aproximou, estreitando os olhos.
No escuro era difícil enxergar, mas ela reconheceu um par de olhos brancos e ouviu um rugido que ela jurou ser de um animal. Seus olhos se arregalaram quando ela reconheceu aquele vulto.
- Um lobo! Um lobo cinzento?! - deu um passo atrás assustada. - Não pode ser, devo estar imaginando coisas, o clima dessa cidade só pode estar me afetando outra vez.
Ela encarou a figura tentando determinar se era mesmo um lobo ou alguém tentando lhe pregar uma peça ou uma advertência por estar ali depois do toque de recolher.
A forma do lobo começou a borrar diante de seus olhos, Taylor sentiu sua cabeça girar e foi ao chão.
Quando abriu os olhos de novo, Taylor estreitou os olhos encarando o teto de madeira. Olhou em volta e percebeu que estava deitada numa cama. Primeiro pensou que alguém a tinha encontrado no cemitério e a levado pra casa, mas quando não reconheceu a casa, o piso de madeira, os móveis antigos, ela se deu conta de que não estava na casa de seus pais.
Com cuidado ela se levantou prestando atenção à todos os sons, mas tudo no lugar estava silencioso. A porta de madeira estava entreaberta e reunindo coragem, Taylor a abriu e saiu do quarto.
Seguiu pelo corredor pouco iluminado sem saber onde estava, dava pra ver que o lugar era antigo apesar de ser muito bem cuidado. Quando encontrou a escada, ela segurou o corrimão de madeira e desceu com cuidado. Um tapete cobria os degraus deixando seus passos mais silenciosos.
Prendendo a respiração ela desceu até o final e encontrou uma sala. Viu um piano à sua frente, um sofá de couro, uma lareira e alguns móveis antigos. Parado de pé ao lado da lareira estava um homem. Usava calça preta, sapato social e uma camisa branca, destoando, assim como ela, daquele cenário antigo.
- Quem é você e o que estou fazendo aqui? - tomou coragem pra perguntar.
O homem se virou. Os olhos de Taylor se arregalaram ao mesmo tempo em que ela ficou de boca aberta. O homem bem vestido na sua frente, era alto, forte, de uma beleza admirável. Tinha cabelos negros, olhos esverdeados e uma barba bem cuidada que parecia deixa-lo ainda mais bonito.
Mas não foi sua beleza que a impressionou, e sim o fato de que ela conhecia aquele rosto, aquele homem. Todos na cidade o conheciam.
- Você é Archer Collins!
- Por favor não se assuste! - ele se aproximou. - Eu não vou machucá-la.
- Você está morto! - ela ofegou e agarrou o corrimão da escada. - Todos na cidade sabem que você morreu há três anos, então como pode estar na minha frente? Oh meu Deus, eu também estou morta?