Eu havia marcado com ela às 19h, mas uma hora antes eu estava completamente nervoso. Ela fora vigiada de perto tanto quanto possível, mas não foi suficiente para nos deixar tranquilos. Estava no bar do hotel quando a vi descer do UBER, dez minutos antes da hora marcada. Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo, ela ficou do outro lado da rua, observando a entrada do hotel, decidindo se entrava ou não.
Eu quase fui buscá-la, mas ela atravessou a rua e caminhou lentamente em direção ao prédio, parecia desconfiada, mas o importante é que ela veio. Eu estava transbordando de esperança.
— É ela? Perguntou Paul ao meu lado e eu assenti! — Ela é tão jovem e bonita, isso tudo é muito fodido!
— Ela é bonita sim, mas não se vê assim, infelizmente!
Um funcionário do hotel a encaminhou até o mezanino como eu havia pedido. Paul juntou-se aos outros para observa-la de longe. Julian pôs um ponto de escuta na mesa, Becky queria observa-la.
Ela estava incrível, um vestido verde pouco acima do joelho, minha mãe teria amado se a visse agora, um estilo meio hippie, sandália de tiras, cabelos soltos, cachos longos e bem definidos caiam sobre seus ombros. A única coisa que não combinava, fora seus olhos tristes, que me encararam quando me viram. Eu caminhei até ela, peguei suas mãos e beijei sua face.
— Oi, que bom que você veio! — Eu disse e a guiei até nossa mesa. Tínhamos muito que conversar, mas para isso precisava deixá-la o mais a vontade possível.
— A propósito, você está linda!
— Obrigada, eu acho, você também, quer dizer está bonito! E quanto a mim, vou fingir que acredito.
— Você é linda, isso é um fato! Porque não acreditaria?
— Eu não sou isso não, elas são! — Disse apontando para algumas mulheres que ocupavam algumas mesas abaixo de nós.
— Elas estão produzidas Anjo, você é linda. Além do mais, elas vêm de outra realidade, se é que possamos chamar assim. Você é tanto ou mais bonita que elas, para mim você só perde para aquela dama ali. — Eu disse apontando para uma linda bebezinha de olhos azuis e pele branca que ria para mim desde que chegara.
— Ah! Então é assim? Caçador! Leve Branca de Neve ao bosque! — Ela disse rindo e isso me aqueceu de um jeito bom. Ela tem um senso de humor incrível, eu me diverti muito com a sua espontaneidade.
— Posso te oferecer uma bebida? Um vinho talvez?
— Vinho? Isso não é um encontro Don Juan, você disse conversar, e sobre os malditos segredos dos olhos meus traidores.
— Direto ao ponto mais uma vez, gosto disso! — Eu quase podia ouvir o Paul e o Armand rindo disso. Malditos!
— Então Nina o que vai beber?
— Se o vinho for um “Casa Ferreirinha Barca Velha safra 2008” eu aceito, se não, aceito um suco de laranja! — Ela disse brincando, tentando parecer descontraída, mesmo que seu sorriso não chegasse aos olhos.
Coincidência ou não eu tinha esse vinho e de uma safra mais que especial. Ela me olhou surpresa, quando o garçom se aproximou com a garrafa na mão.
— Eu, eu só estava...! — Ela gaguejou.
— Relaxa garota! Vejo que tem bom gosto. Você entende de vinhos?
— Um pouco talvez, fiz um curso básico! — Ela afirmou tímida.
Quando o garçom abriu a garrafa, indiquei que a servisse primeiro, e ele o fez e aguardou. Ela agitou a taça levemente, e inalou profundamente.
— Humm! Complexo! Frutas vermelhas, eu diria, que há um filamento de amoras e menta talvez!
Antes que eu pudesse fechar minha boca, ela continuou. Tomou um longo gole mantendo o na boca por alguns segundos e engoliu, pareceu gemer com os olhos cerrados, claro que foi incrível.
— Impressiona sem dúvida nenhuma por seus taninos e acidez elegante, e pelo sabor prolongado. Simplesmente perfeito eu diria!
Quando ela percebeu que eu a olhava com total admiração, ela corou lindamente.
— Desculpe, eu gosto de vinhos, mas não fazem parte da minha realidade!
— Não se desculpe linda, isso foi simplesmente incrível, eu estou muito impressionado, não conheço muitas mulheres
capazes de apreciar e muito menos identificar um bom vinho, foi espetacular.
— Obrigada, eu acho! — Ela disse de cabeça baixa.
Eu provei da minha taça, claro que concordei com ela, o vinho é muito bom.
— Você disse ter feito um curso básico? Como é isso?
— Nada tão grande, eu não sou uma sommelier, eu fiz um curso de serviço de restaurante e bar tender, vinhos foi uma das matérias, mas nada tão profundo, eu conheço um pouco mais desse vinho em especial por causa de um tour que fizemos na vinícola durante o curso, além do fato de eu amar vinhos. — Ela dizia olhando para as mãos enquanto brincava com os dedos.
— Uau! Serviço de restaurante e bar tender? Tenho uns amigos que adorariam ouvir sobre isso.
— Não é nada de especial, eu gosto de vinhos, mas nunca posso compra-los, conheci alguns durante o curso, e essa marca eu o conheci na casa visita a casa Ferreirinha durante o curso.
— É claro que é especial, mostra que além da sua beleza, você tem bom gosto, e isso a torna ainda mais incrível.
— Desculpe Nicholas, mas pode, por favor, parar com esse negócio de beleza, estou tentando não te ver como qualquer outro i****a que só se aproxima de uma mulher para levá-la para a cama, e isso não rola comigo, então vamos voltar ao assunto, porque eu? E o que você acha que viu em meus olhos?
Então era a hora, torcendo para que ela não fugisse, eu tentei falar o mais diretamente possível.
— O que vi em seus olhos foi à mesma coisa que vi nos olhos da minha irmã, na época com quinze anos, pouco antes de ela
morrer, quero dizer se matar. E o pior é que acho que os motivos são parecidos!
Ela ficou pálida, a cor sumiu da sua face, seus olhos tristes estavam agora assustados.
— Que? Como? Do que você esta falando? Eu não devia ter vindo, tenho que ir! — Ela se levantou, mas eu a segurei pela mão.
— Nina! Seus olhos me pediram a ajuda, um dia minha irmã me pediu ajuda da mesma forma e eu não entendi!
— Talvez você não entenda agora também Nick! Nem se tivesse tatuado neles.
Como se levasse um soco no estômago, eu engasguei.
— Minha irmãzinha, me disse a mesma coisa, e eu não a levei a sério, e na madrugada daquele mesmo dia ela se matou Nina! — Eu disse segurando sua mão, ela tentou puxar, mas segurei firme.
— Não foi sua culpa, e não é sua culpa, não importa o que ele diga ou faça, não é sua culpa, não é você quem tem que se envergonhar, entende isso?
Ela puxou sua mão, seu rosto estava ficando vermelho.
— Você não sabe do que está falando, você não me conhece.
— Talvez eu saiba mais do que você possa pensar! — Eu disse triste com a lembrança da Chloe. — Seus olhos são como uma vidraça, seu coração pediu para que alguém olhasse lá dentro, e eu olhei!
— Você não sabe de nada cara, porque você está falando isso? Eu... Eu, você não pode me ajudar, então para de tentar, sentar aqui com você, nesse lugar todo chique, tomando vinho caro, isso... Merda, isso não resolve nada, isso não é a minha
realidade Nick, e você não é a fada madrinha, então não mexe nisso, você não entende, sou eu quem vai ter que voltar para lá, sou eu quem tem que encara-lo de novo. Droga cara, se você quiser jantar, vamos jantar, mas não vem com esse negócio de beleza, de não é culpa sua, nem com "eu te entendo" porque você não entende coisa nenhuma Nick, ok? Não vem ferrar mais a minha cabeça, por favor! — Ela dizia quase que gritando, seus olhos vazios agora dava espaço a muitas lágrimas, que caiam em cascatas pelo seu belo rosto. E eu estava me sentindo perdido sem saber como consola-la.
Fiz a única coisa que podia fazer naquele momento, a puxei para meus braços, tive medo que ela fugisse, mas ela não o fez, ela abraçou-me e enterrou seu rosto no meu peito e chorou.
— Ei tudo bem, eu não quis te assustar, esquece isso por enquanto. — Eu peguei um lenço e enxuguei suas lágrimas, ela foi se acalmando, e sentou-se novamente.
— Desculpe anjo, eu não quis te deixar triste, mas não posso desistir sem tentar, por isso quero te propor um desafio.
— Desafio? Como assim? — Ela disse ainda fungando levemente.
— Quero que você me dê duas semanas, para que meus amigos e eu possamos te mostrar que podemos te ajudar,
— Que tipo de ajuda?
— Bom para começar, eu disse que você é bela e você não acredita, e disse que elas quem são bonitas, eu não concordo, mas eu quero provar para você que és tanto ou mais bela do elas.
— E?
— Se nos der uma chance, vamos te explicar quem nós somos e como podemos te ajudar.
— E porque eu faria isso, porque acreditaria em você e seus amigos? Além do mais não tenho dinheiro para me manter aqui por tanto tempo.
— Isso não é problema, e quanto a acreditar, o que você tem a perder? Nina, você quer voltar para lá? Para tudo aquilo de novo? Eu só estou te oferecendo às armas para que você possa se defender, garota sua família poderia estar recebendo a notícia da sua morte agora, eu só quero te ajudar se dê uma chance, pensa que um monte de meninas como você não nenhuma chance. Você já é guerreira, só precisa se ver assim.
— Você não pode Nick, ninguém pode.
— O que você tem a perder? Dá-nos uma chance, se em duas semanas você não se sentir mais segura e confiante, nós saímos do caminho e você faz o que você quiser. O que você me diz?
— Não sei, eu...
— Por favor, garota, você se hospeda aqui, meus amigos vão te ajudar, tem uma amiga que é psicanalista especialista em casos de abuso e violência s****l.
— Como você sabe que... — Ela me olhou assustada, mas baixou os olhos logo em seguida.
— Não me conte nada, eu não quero que você fale comigo sobre o que aconteceu com você a menos que você esteja à vontade para isso. Como eu já disse Anjo, seu caso é muito parecido com o da minha irmã, e meus amigos e eu trabalhamos com casos como o seu há muito tempo.
— Ah! Eu não sei Nick, eu não posso pagar por esse hotel, e amanhã vou fazer uma prova, eu preciso pensar.
— Que tal isso, eu peço para te levarem ao seu hotel, você fecha a conta lá e fica aqui com a gente, amanhã você vai fazer sua prova, nós ficaremos aqui na torcida, e quando você voltar você decide se aceita a minha proposta, o que acha?
— Eu concordo, mas se por acaso isso ficar estranho eu vou embora, eu estou de férias ainda por quinze dias, e você tem razão, eu não tenho muito a perder, e não acho que você vai conseguir, mas deixarei você tentar.
— Perfeito! Obrigado por me deixar tentar linda. — Eu a puxei para um abraço. — Agora jantar, depois falaremos sobre meus amigos e eu ok?
Ela concordou dando de ombros. Eu não consegui chegar a tempo para a Chloe, mas algo me diz que cheguei para essa garota, e eu não vou desistir dela.