03 AJUSTE NECESSARIOS

1052 Palavras
LETICIA ALENCAR NARRANDO Chego à mansão alguns minutos antes do combinado. O portão ainda está fechado, e o silêncio da manhã contrasta com o movimento distante da cidade. Gosto de chegar cedo. Dá a sensação de controle, mesmo quando a vida insiste em provar o contrário. Respiro fundo antes de tocar o interfone. Quando o portão se abre, entro e sigo pelo caminho de pedras até a porta principal. Erick abre sem pressa, vestindo uma camisa clara com as mangas dobradas e uma expressão neutra demais para o horário. Erick — Bom dia. Letícia — Bom dia, senhor Smith. _ Ele se afasta para me dar passagem. Hoje, não há comentários sobre horário, nem ordens imediatas. Apenas um aceno discreto em direção à cozinha. Erick — Café às sete, como combinado. Letícia — Já está quase pronto. _ Ele me observa por um segundo a mais do que o necessário, depois segue para a sala. Coloco a bolsa em um canto e começo a organizar a bancada. O ritual me acalma: moer o café, aquecer a água, separar frutas. Pequenas coisas que não exigem pensar demais. Erick — Você sempre chega antes. _ A voz dele vem da porta da cozinha. Não é acusação. Parece constatação. Letícia — Prefiro evitar imprevistos. Erick — Hábito profissional? _ Penso antes de responder. Letícia — Necessidade. _ Ele assente, como se entendesse mais do que eu disse. coloco as xícaras na mesa e organizo tudo com cuidado. Erick se senta, observa, prova o café em silêncio. Erick — Está do jeito que eu gosto. Letícia — Ótimo. _ Fico em pé, como no dia anterior. Ele percebe. Erick — Não precisa ficar aí parada. Letícia — Prefiro assim._ Ele dá de ombros, mas não insiste. Há algo diferente hoje. Menos tensão direta. Mais observação. Erick — Vou sair por algumas horas. Preciso resolver assuntos pessoais. Letícia — Certo. Quer que eu prepare algo para o almoço? Erick — Sim. Algo leve. Volto antes das duas. _ Assinto e continuo organizando a cozinha enquanto ele se levanta. Antes de sair, ele para perto da porta. — Letícia. Letícia — Sim? Erick — Ontem… eu fui indelicado. _ A frase paira no ar. Não é um pedido de desculpas completo, mas é mais do que eu esperava. Letícia — Não me ofendi. _ Ele me encara, como se tentasse decidir se acredita ou não. Erick — Mesmo assim._ Ele sai. E eu fico ali, surpresa com a sensação estranha que a breve conversa deixa. Não é simpatia. É algo mais sutil. Um ajuste. Como se duas peças estivessem tentando se encaixar sem saber exatamente por quê. ERICK SMITH NARRANDO Dirigir pelo Rio não me acalma como eu imaginei. A cidade é barulhenta, viva demais. Estaciono perto de um café discreto e entro, pedindo algo qualquer. Não estou com fome. Estou inquieto. A conversa da manhã insiste em se repetir na minha cabeça. Letícia não reage como as pessoas costumam reagir comigo. Não tenta agradar demais. Não se encolhe. Não provoca. Apenas existe, firme, no espaço dela. Erick — Controle-se _murmuro. Meu celular vibra. Mensagem do meu pai. ‘Augusto terá uma reunião com o conselho hoje.’ Aperto o maxilar. O jogo já começou, e eu estou a um oceano de distância. Saio do café e volto para o carro, ligando para Simone. LIGAÇÃO ON Erick — Mãe. Simone — Erick, estava pensando em você. Seu pai está nervoso. Erick — Novidade. Simone — Não brinque com isso. Augusto está se aproximando demais. Erick — Eu sei. Já disse que vou resolver. Simone — Resolver como? _ A pergunta fica sem resposta por alguns segundos. Erick — Do meu jeito. _ Encerramos a ligação em um silêncio tenso. Volto para a mansão com a cabeça cheia e o prazo mais próximo do que nunca. LETICIA ALENCAR NARRANDO O almoço fica pronto antes do previsto. Organizo tudo e aproveito o tempo restante para limpar a área externa. O sol está forte, e o cheiro de maresia invade o espaço. Tento me concentrar no trabalho, mas meus pensamentos voltam para a conversa da manhã. Indelicado. Poucas pessoas reconhecem isso. Principalmente homens como ele. Meu celular vibra no bolso. Uma mensagem da cuidadora. MENSAGEM ON Cuidadora — Sua mãe teve um pouco de dor agora cedo, mas o médico ajustou a medicação. _ Respiro fundo, apoiando a mão na bancada. Letícia — Obrigada por avisar. Qualquer coisa, me ligue. _ Guardo o celular e volto ao trabalho. MENSAGEM OFF Não posso me distrair. Preciso desse emprego. Preciso que essa semana dê certo. Ouço o portão se abrir pouco depois das duas. Erick entra, afrouxando a gravata. Erick — Cheguei. Letícia — O almoço está pronto. _ Ele se senta e começa a comer. Hoje, o silêncio entre nós é diferente. Menos pesado. Ainda assim, carregado. Erick — Você não perguntou aonde eu fui. Letícia — Não achei necessário. _ Ele ergue o olhar, interessado. Erick — As pessoas costumam perguntar. Letícia — Eu costumo respeitar limites. _ Um canto da boca dele se curva, quase um sorriso. Erick — Você é cheia deles. Letícia — Aprendi cedo. _ Ele não pressiona. Apenas assente e volta a comer. Erick — Letícia… se eu precisar que você fique um pouco mais esta semana, isso seria um problema? _ Meu coração dá um salto contido. Letícia — Depende do aviso. Posso me organizar. Erick — Ótimo. _ Ele termina a refeição e se levanta. — A tarde está livre para você. Pode ir quando quiser. Letícia — Obrigada. _ Recolho a louça enquanto ele se afasta. Há algo mudando. Ainda não sei dizer se é bom ou perigoso. ERICK SMITH NARRANDO No fim do dia, fico sozinho na sala, encarando o nada. A casa está organizada demais. Silenciosa demais. E, pela primeira vez desde que cheguei ao Brasil, não sinto alívio quando fico sozinho. Erick — Ajustes necessários _ murmuro. Penso no prazo. No casamento. Em Augusto. E, contra a lógica, penso em Letícia Alencar. Não como solução. Ainda não. Mas como uma presença que insiste em não ser ignorada. E isso, eu sei, é o começo de um problema muito maior. Penso em tudo que tenho que fazer. Como vou fazer e se posso fazer isso, mesmo sendo necessário. COMENTEM E VOTEM MUITO.
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