☆ Capítulo 16☆

1536 Palavras
☆ Mason Miller ☆ Ouço os passos dele pelo escritório. De um lado para o outro. Sempre inquieto, sempre dramático… como se estivesse travando uma grande batalha interna. — Você não pode tratar as pessoas dessa forma e— — E o quê? — corto, virando-me lentamente para encará-lo. — Vai me dizer como administrar a minha empresa agora? Ergo o copo novamente, inclinando-o levemente antes de dar outro gole. — Ou prefere sugerir que eu a puna por me desafiar? — continuo, a voz carregada de um sarcasmo frio. — Ela é minha funcionária, Christopher. Eu a trato da forma que eu quiser. O silêncio dura pouco. Nunca dura. — Não por muito tempo. A resposta vem firme, e isso me faz erguer uma sobrancelha, genuinamente curioso com a ousadia. — Eu vou falar com ela — ele continua, sustentando o olhar. — Vou oferecer um cargo melhor, na área de relações internacionais. Trabalhando comigo. Solto um riso baixo, seco, sem humor algum. — Faça o que quiser — digo, interrompendo antes mesmo que ele termine. — Lívia não vai trabalhar com você. Dou mais um gole na bebida antes de continuar, agora com mais peso nas palavras. — Eu ainda estou à frente dessa empresa. E qualquer movimentação de funcionários passa por mim. — Você a trata como lixo, Mason! A voz dele sobe, finalmente perdendo o controle que tentou manter até agora. Isso me faz revirar os olhos antes de encará-lo de novo, dessa vez com menos paciência. — Você não a respeita — ele continua, avançando um passo. — Brinca com as pessoas como se fossem peças em um tabuleiro. Eu não vou permitir isso. Eu vou falar com nossos pais e— — Cresça, Christopher. Minha voz corta a dele com força, firme o suficiente para fazê-lo parar. Um passo para trás. Instintivo. E eu percebo. Sempre percebo. — Um homem adulto que não consegue resolver os próprios problemas sem correr para os nossos pais — continuo, agora mais baixo, mais controlado… e ainda assim mais perigoso. — E acha que tem moral para me dizer o que fazer? Sustento o olhar dele por um momento, deixando o silêncio pesar entre nós, antes de soltar um riso curto, descrente. Então me aproximo. Devagar. O suficiente para invadir o espaço dele. — Vá em frente — digo, quase em um tom casual. — Faça o que quiser. Inclino levemente a cabeça, os olhos presos aos dele. — Mas, como seu irmão… vou te dar um conselho. A distância entre nós desaparece. — Afaste-se da Lívia… ou eu vou transformar a sua vida em um inferno. — Você não pode nos impedir de— — Posso. A resposta vem imediata, firme, incontestável. — Posso… e vou. Minha voz baixa um tom, mas o peso das palavras só aumenta. — Eu não vou deixar que a Lívia tenha o mesmo fim que a Felicia. O nome cai no ambiente como uma lâmina. E o efeito é imediato. Christopher recua. Um passo. Depois outro. Os olhos dele se arregalam, não só pela surpresa… mas pela dor. Pela lembrança. Pelo ressentimento que ele nunca soube esconder. E, por um breve segundo, há algo ali. Culpa. Raiva. Quebra. Mas eu não me importo. Nunca me importei quando se trata de manter controle. Christopher sabe exatamente onde errou. E se eu precisar abrir essa ferida quantas vezes forem necessárias para mantê-lo longe da Lívia… Eu vou fazer. — Você não tem esse direito, Mason. — ele diz, a voz crua, falhando no meio do caminho, carregada de algo que oscila entre raiva e desespero. Há um peso nas palavras dele, um tipo de culpa que ele tenta esconder, mas que escapa pelas rachaduras. — Felicia não está aqui para se defender... — NÃO ESTÁ PORQUE VOCÊ A MATOU, CHRISTOPHER. — Elevo minha voz mais do que deveria, deixando qualquer resquício de autocontrole se desfazer como fumaça entre meus dedos. Não há espaço para cautela agora, não quando o nome dela ainda ecoa como uma ferida aberta. — Você a matou, Christopher… e eu não vou deixar que faça o mesmo com Livia. — Eu não... você não sabe o que está dizendo, eu jamais... — Jamais o quê? — corto, a pergunta vindo carregada de desprezo, enquanto uma risada amarga escapa dos meus lábios, seca, sem humor algum. — Jamais machucaria a mulher que dizia amar? Poupe-me desse discurso patético, Christopher. Eu vi as cartas. Eu li cada palavra da despedida da Felicia. Enquanto sua esposa estava em casa, lidando sozinha com a p***a de um luto insuportável depois de perder um filho aos nove meses… você estava trancado em uma sala de reuniões, do outro lado do país, fingindo que trabalho era mais importante do que ela. As palavras saem afiadas, calculadas para cortar fundo, e eu não faço o menor esforço para suavizá-las. Não dessa vez. Não quando a memória dela ainda pesa sobre mim como um fantasma que se recusa a ir embora. — Por sua causa, ela tirou a própria vida. — continuo, a voz mais baixa agora, mas muito mais perigosa. — Ela estava cansada de ser viúva de marido vivo… cansada de dividir a própria dor com alguém tão ausente, tão… incompetente. — CALA A BOCA, MASON— — Não gosta de ouvir a verdade, não é? — avanço um passo, sustentando o olhar dele com uma frieza quase c***l. — Engraçado como ela dói mais quando não é você quem está fingindo que ela não existe. Mas você sabe, Christopher. No fundo, você sempre soube. Sabe que deveria ter estado lá. Quatro gestações… quatro perdas… e você não esteve presente em nenhuma delas. Escolheu estar longe, enquanto o corpo dela se desgastava pouco a pouco, enquanto ela desmoronava sozinha. — Você não sabe nada sobre isso… — Sei mais do que você imagina, maninho. — minha voz desce, quase um sussurro carregado de veneno. — Sei que foi pra mim que a Felicia ligou, aos prantos, quando perdeu o terceiro filho de vocês. Sei exatamente onde você estava: Costa Rica. Uma “reunião urgente” que apareceu do nada, curiosamente no mesmo momento em que ela começou a sentir que algo estava errado. Sempre conveniente, não é? Cada palavra é medida. Cada pausa é intencional. Eu quero que doa. Eu preciso que doa. Christopher sempre foi tratado como algo frágil demais para ser quebrado. O filho perfeito. O intocável. Dois anos mais novo e, ainda assim, sempre à frente, sempre protegido, sempre poupado de qualquer consequência real. Ele teve tudo. Absolutamente tudo. Até ela. Felicia. A única mulher que eu quis de verdade na faculdade… e que ele arrancou de mim como se fosse apenas mais uma conquista. Mentiu sobre mim, distorceu histórias, fez com que ela me enxergasse como um monstro — e então a pediu em namoro na minha frente, como se aquilo fosse apenas mais um troféu. Aquilo não me destruiu. Não. Aquilo me ensinou. Porque ninguém vive de amor. Ninguém precisa disso para sobreviver. Foi o que eu disse a mim mesmo por anos… e funcionou. Funcionou até o dia em que Felicia decidiu que não aguentava mais. Eu não a amava mais. Mas isso não impediu que a dor na voz dela, na nossa última ligação, atravessasse cada uma das minhas defesas como uma lâmina. Foi o suficiente para me fazer atravessar o país inteiro sem pensar duas vezes. Só para chegar tarde demais. A imagem ainda está gravada na minha mente com uma clareza c***l: o corpo dela pendurado na viga do teto, imóvel, vazio… e aquela maldita carta ainda presa entre os dedos, como um último pedido de desculpas ao mundo por não ter suportado ficar. Eu não chamei Christopher. Não. Eu não daria a ele esse direito. Nossos pais o enviaram para Miami logo depois, como se distância fosse capaz de apagar o que aconteceu. Como se mudar o cenário fosse suficiente para silenciar a culpa. E, de alguma forma… ele conseguiu. Superou rápido demais. Seguiu em frente rápido demais. Talvez essa seja a parte que mais me enoja. A escolha foi dele. Sempre foi. Mas se Christopher acha, por um segundo sequer, que eu vou permitir que ele destrua Livia como destruiu Felicia… ele está completamente enganado. — Você é c***l, Mason. — a voz dele treme, mas não é fraqueza. É raiva. — Não sabe de p***a nenhuma e ainda se acha no direito de me julgar? Você— — Com licença. A voz suave de Livia corta o ambiente como um contraste absurdo, quase irreal diante da tensão sufocante que toma conta da sala. Ela está parada na porta, silenciosa até então. Em uma das mãos, meu café. Na outra, o tablet com a minha agenda. Profissional. Contida. Como se não tivesse acabado de entrar no meio de um campo de batalha. O vestido que ela usa — um tom de laranja escuro — se molda ao corpo dela de uma forma quase hipnotizante, destacando sua pele n***a com uma elegância que beira o perigoso. É impossível não notar. Impossível não sentir. Pelos deuses… Como é possível olhar para essa mulher… e não desejá-la com tudo o que se tem?
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