☆ Capítulo 5 ☆

1487 Palavras
°°° Mason Miller °°°° Medo. Eu vi o medo refletido nos olhos de Lívia — cru, nítido, impossível de ignorar. E o pior de tudo era saber que eu não podia fazer absolutamente nada para consolá-la. Afinal, havia sido eu o responsável por provocar aquele sentimento nela. Sinto-me um completo babaca ao pensar que, onde deveria existir um sorriso em seus lábios, o que eu presenciei foi o brilho contido de lágrimas ameaçando cair. Não era assim que as coisas deveriam acontecer. Nunca foi. Não, eu não havia planejado aquilo. Minha intenção era simples — fazê-la desistir de sair com Christopher. Apenas isso. Mas não daquela maneira. Nunca daquela maneira. Ver o espanto estampado em seu rosto, seguido pelo desapontamento silencioso que se instalou em seus olhos, foi uma dor mais intensa do que qualquer tortura que eu pudesse imaginar. E a pior parte? Eu sabia exatamente quem havia causado tudo aquilo. Agora, sentado na varanda do apartamento, observo a cidade lá embaixo, viva, agitada, indiferente ao caos que me consome por dentro. Levo o charuto aos lábios e trago a fumaça lentamente, como se isso pudesse, de alguma forma, me acalmar. Uma tentativa falida — ou talvez não tão falida assim. Ironicamente, funciona por alguns segundos. Eu deveria ter cuidado dela. Protegê-la. Não fazê-la sentir medo de mim. O peso da incerteza é o que mais me corrói. O pensamento martela minha mente sem piedade: e se ela pedir demissão? Não sei o que faria se isso acontecesse. A simples ideia me deixa inquieto, irritado, à beira de algo que prefiro não nomear. Não. Ela não vai pedir demissão. Lívia não pode — e não vai — sair da minha vista. Isso é algo que considero simplesmente inadmissível. Dou mais um longo trago no charuto enquanto meus pensamentos se perdem, vagando para um futuro que só faz sentido se ela estiver nele. Tudo será perfeito quando estivermos juntos. Todos esses imprevistos, esses erros, esses momentos m*l calculados… tudo será esquecido. Lívia será feliz. E eu farei absolutamente tudo por ela. Sou capaz de matar. E morrer. Por aquela mulher. O toque irritante do celular ecoa pelo apartamento, quebrando o silêncio carregado. Pego o aparelho com certa relutância e desbloqueio a tela, já sabendo o que encontraria. O nome de Samantha pisca diante de mim. Sem saída, atendo a ligação — embora, no fundo, saiba que talvez fosse melhor tê-la deixado tocar até cair. — ONDE VOCÊ ESTÁ, MASON? — ela grita assim que percebe que atendi. — SÃO QUASE MEIA-NOITE E VOCÊ NEM SEQUER DEU SINAL DE VIDA! — Sinto muito, Sam — respondo com calma, controlando cada sílaba. — Aconteceu um imprevisto e eu não consegui chegar. — Eu liguei para a sua casa — ela rebate, a voz carregada de irritação. — Seu irmão disse que você já tinha saído. Isso foi há duas horas. Agora estou aqui, no estacionamento, feito uma i****a, esperando por você… enquanto você sequer teve a decência de avisar que preferiu estar com outra pessoa a resolver as coisas do nosso casamento! Fecho os olhos por um breve momento. Posso compreender sua irritação, até certo ponto. Temos um acordo. E eu havia assumido um compromisso com ela naquela noite. — Não estou com ninguém, Samantha — digo, firme. — Apenas tive um imprevisto no caminho e precisei voltar para casa. Acabei esquecendo de avisar. Há alguns segundos de silêncio do outro lado da linha. — Tudo bem… — ela responde, agora com um tom mais contido. — Você pode ao menos vir me buscar? Não quero pegar um táxi a essa hora. Sua voz soa mais baixa. Levemente trêmula. Quase chorosa. Respiro fundo. Sair não fazia parte dos meus planos para aquela noite. Mas deixá-la sozinha também não é uma opção. — Estou indo — digo, encerrando a ligação antes que ela possa responder. Apago o charuto, pego as chaves e, minutos depois, já estou dentro do carro, dirigindo pela cidade iluminada. Mas minha mente… Minha mente ainda está presa ao olhar assustado de Lívia. E isso, eu sei, vai me perseguir por muito tempo. ●●●●●●●● °°° Lívia Cárter °°°° Todos os adjetivos do mundo ainda seriam insuficientes para descrever o quão desastroso meu domingo havia se tornado a partir do exato momento em que coloquei os pés na casa dos pais de Summer. Era quase como se o universo tivesse decidido brincar comigo — e, como sempre, eu era a piada. Sentado no sofá da sala, completamente à vontade, estava Mason. Um copo de limonada em uma das mãos, o celular na outra. Vestia roupas casuais, simples demais para alguém como ele, o que só tornava tudo ainda mais irritante. O sorriso malicioso descansava em seus lábios com uma naturalidade absurda, enquanto seus olhos permaneciam focados na tela do celular, como se nada ao redor merecesse sua atenção. Summer e eu trocamos um olhar rápido. Silencioso. Cúmplice. Ela apenas deu de ombros, como quem diz “não fui eu”. Eu tentei. Juro que tentei passar despercebida, desaparecer no ambiente, ser apenas mais uma sombra naquela sala. Mas o destino — que claramente não gosta de mim — achou por bem me fazer tropeçar no enorme tapete no meio do caminho. Quase fui ao chão, não fosse por Summer, que me segurou a tempo… quase caindo junto comigo. Perfeito. Absolutamente perfeito. — Boa tarde para você também, Lívia — a voz de Mason ecoou pela sala, baixa e provocadora. Revirei os olhos no mesmo instante, bufando de raiva antes mesmo de conseguir me controlar. — Summer — ele completou, erguendo levemente a cabeça em um aceno contido. — Mason — ela respondeu no mesmo tom, devolvendo o gesto. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Summer praticamente me arrastou para fora da sala, em direção ao quintal. Seguimos para a área externa, onde o pai dela cuidava do almoço com uma atenção quase cerimonial. Nos juntamos à mãe de Summer e à Samantha, que conversavam perto da piscina. O clima ali era mais leve, mais respirável. Passamos um bom tempo jogando conversa fora, rindo de coisas bobas, tentando fingir que tudo estava… normal. Depois de um tempo, todos nos sentamos à mesa para almoçar. A conversa, inevitavelmente, girou em torno do casamento de Samantha — os preparativos, os detalhes, a data da cerimônia. Coisas assim. Coisas que definitivamente não eram meu ponto forte. Depois de um casamento de dois anos completamente abusivo, falar sobre alianças, promessas e “felizes para sempre” ainda era um terreno sensível demais para mim. Tudo o que eu menos queria naquele momento era mergulhar nesse tipo de assunto. Quanto à Summer… bem, ela é a Summer. Livre, intensa, dona de si. A mulher que faz o que quer sem pedir permissão ou se importar com opiniões alheias. Não quer se sentir presa, evita qualquer conversa sobre relacionamentos sérios, casamento ou formar família. E, sinceramente, eu a admiro profundamente por isso. Seria mentira dizer que não foi exatamente esse jeito caótico e livre que nos uniu ainda no colegial. Éramos parecidas em tantas coisas. Era reconfortante ter uma amiga que acreditava, assim como eu, que a vida não acabava quando saíamos da escola — pelo contrário, ela estava apenas começando. — Lívia, você está ouvindo? — a voz de Samantha me puxou de volta à realidade. Percebi, então, que todos à mesa me observavam. — Perdão… acabei me distraindo — respondi, um pouco sem jeito, levando o copo aos lábios e tomando um gole do suco. — O que vocês estavam dizendo? — Quero que seja uma das minhas madrinhas — Samantha disse, os olhos brilhando e um sorriso largo no rosto. — Você faz parte da nossa família. Seria uma honra para mim se você aceitasse. Fui pega completamente de surpresa. — Eu… eu não sei nem o que dizer, Sam — confessei, sorrindo com sinceridade. — Seria uma honra para mim. Samantha, assim como Summer, faz parte da minha vida. Uma amiga querida. Talvez não tão próxima quanto Summer, mas ainda assim alguém importante para mim. — Então está decidido — ela disse, animada. — Você e minha irmã serão as madrinhas. — Vai haver outros padrinhos, certo? — perguntei, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa. — Sim. Ainda estamos fechando a lista, mas você e Summer já estão inclusas — respondeu, voltando a atenção para o tablet em suas mãos. Samantha continuou falando com aquele brilho contagiante nos olhos. Estava tão feliz, tão envolvida com cada detalhe, que tudo o que eu conseguia desejar era que ela fosse verdadeiramente feliz. O almoço seguiu tranquilo — graças aos céus. E eu segui ignorando completamente a presença de Mason, exatamente como havia planejado desde o início. Mesmo sentindo, em algum lugar incômodo dentro de mim, que ele não fazia o mesmo.
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