Lembranças ruins

1294 Palavras
Joalin se sentou respirando fundo e olhou ao redor. Estava no quarto de Sabina, seu corpo estava agitado, Sabina se aproximou da garota e a abraçou, Joalin aos poucos foi se acalmando e fechou os olhos se entregando ao abraço de Sabina e escondendo o rosto em seu peito. - Está tudo bem... - Diz Sabina. - Já acabou... - Sabina beijou a cabeça de Joalin que se permitiu chorar. - Ele está mesmo morto? - Sua voz saiu abafada. Sabina engoliu em seco. - Sim... Você está livre. - Diz novamente. Sabina descansou sua cabeça, na cabeça de Joalin. - Sabi... - Joalin se engasgou com um soluço. - Acho que você deve saber o que aconteceu... - Não precis ... - Sabina tentou. - Sim, precisa! Joalin Viivi Sofia Loukamaa, nascida na Finlândia. Teve uma infância feliz na Espanha, em seguida voltando à Finlândia e por último, no México com sua família e seu novo pai, já que antes era apenas ela e sua mãe e agora ela tinha um pai e dois lindos irmãos. Quando criança, recebia apelidos por conta de suas bochechas, mas na pré-adolescência começou a chamar a atenção por seu olhar de tirar o fôlego e sua beleza digna de esculturas e deusas gregas. Atenção essa que chegou à um homem, ele sempre observava a menina sair da escola, observava seu jeito, passou anos a estudando, até que se passou por um agente de modelos interessado na garota, ganhou a confiança da menina, e, aos dezesseis anos, Joalin foi sequestrada e levada para o Estados Unidos, primeiro a levou para um lugar cheio de outras meninas, Joalin se encantou e se apaixonou por uma delas, foi pega beijando a garota no banheiro do cativeiro onde estavam, aquilo causou repulsa no homem, que tinha um desejo estranho e psicopata para com a garota. Joalin foi tirada do que eles chamavam de abrigo e levada para outro lugar, foi espancada e abusada, o homem dizia que ela iria se tornar mulher, ela chorava, ela tentava tirar sua própria vida, ela se sentia culpada. Era abusada por não só aquele homem, mas às vezes outros apareciam, ás vezes vários ao mesmo tempo, era um tratamento horrível e doente, ela só queria que tudo acabasse, se sentia suja, humilhada, os dias que se passavam, ela só desejava a morte, morte essa que nunca chegava, mas ela já se sentia morta por dentro, ela só queria acabar com toda a dor que era viver naquele quarto sufocante. No quarto onde ela estava havia uma velha TV, uma cama, uma porta que dava para um banheiro estreito, um fogão, armário, pia, era como uma pequena casinha, que o homem tentava pôr na sua cabeça que era para ela se sentir em casa. Quando soube que estava grávida, a menstruação atrasada e a barriga a crescer, além dos chutes que sentia, decidiu que iria fugir, não iria submeter ao ser que crescia dentro de si, viver daquela maneira, ou ser vendido ou descartado como se fosse nada, era isso que o homem dizia, quando a criança nascesse, ele se livraria dela. Ela precisava fugir, a criança era inocente, não tinha culpa de nada. Então arquitetou seu plano. Fingiu estar doente, o homem culpou a gravidez dela, e Joalin passou cinco dias sustentando a mentira de que não se sentia bem, até que no sexto dia, o homem se preparava para sair, Joalin esperou ele digitar a senha no painel de segurança, e gritou, chamando atenção e quando o homem se aproximou para examiná-la, já achando estranho a doença que ela dizia ter. Joalin conseguiu usar uma pequena faca para ferir seu rosto, resgatando forças que nem sabia que tinha para chutá-lo e sair correndo do quarto onde estava, não se importou com a dor que sentia, não se importou com a chuva, ela só queria fugir. Caiu, mas não desistiu, se levantou e voltou a correr. A dor foi ficando insuportável, ela não sabia por quanto tempo estava correndo e fugindo, parava para recuperar o fôlego, mas voltava a correr, m*l vendo por onde ia e sem saber por onde ia, até que ela parou na casa de Sabina, sua única chance de ajuda. A morena chorava ao ouvir aquela história, seu coração estava apertado. Joalin tinha uma vida feliz, tinha uma mãe que a amava, tinha um pai orgulhoso, tinha dois irmãos pequenos e foi tirada deles da maneira mais brutal possível, foi sequestrada, agredida, abusada, Sabina socou a cama com força. - Joalin... - Tentou falar algo, mas não conseguiu. Joalin também chorava ao lembrar de tudo. Nenhuma das duas sabiam, mas uma estava salvando a outra. Sem falar nada, Sabina apenas a abraçou apertado, olhando para cima tentando espantar as lágrimas, mas ela não conseguia e não podia imaginar a dor que Joalin sentiu. - Eu me sinto tão suja, Sabina... - Diz Joalin. - E eu sei que a Liv não tem culpa, mas sempre que eu olho para ela, eu lembro e me sinto culpada por uma alma tão pura e inocente ter vindo ao mundo dessa maneira. - Você não tem culpa de nada, Joalin... - Sabina se afastou e enxugou as lágrimas da loira. - Nem a Lívia... O único culpado é quem fez isso com você e agora ele teve o que mereceu. - Joalin engoliu em seco. - Você e a Liv estão livres agora. - Joalin enxugou as lágrimas. - Eu não sei se ele é o pai da Liv, ou um dos muitos que às vezes iam com ele. - Joalin fez uma careta. Sabina negou. - Nenhum deles é ... A Liv não tem um pai, tudo que ela tem é uma mãe maravilhosa... - Sabina acariciou o rosto de Joalin, que sorriu fraco e segurou a mão da morena ali. - Você não tem nojo de mim? - Sabina negou. - Claro que não, Joalin... Já passou, eu tenho nojo deles, você... - Sabina sorriu. - Você é uma das pessoas mais preciosas que eu já conheci... A Liv tem sorte de ter você. - Joalin conseguiu sorrir. - Ela também tem sorte de ter você... - Respondeu no mesmo tom. - Não quero que pense jamais que eu deva ter nojo de você, está bem? Eu não quero você triste ou cogitando a ideia de deixar a sua filha com uma surtada depressiva. - Joalin desviou o olhar, mas Sabina a seguiu, a forçando encará-la, Sabina queria olhar para aqueles olhos azuis brilhantes enquanto pronunciava as palavras. - Eu digo que a Liv me salvou, e é verdade, mas você também fez isso... - Joalin a encarou com dúvida. - Você me dá forças para continuar de uma maneira absurda... Lembra quando eu surtei semana passada? - Joalin assentiu e Sabina sorriu. - Você ficou comigo, o tempo todo, me abraçou, passamos o dia todo apenas abraçadas e eu nunca me senti tão calma. Eu preciso de você Joalin... - E eu preciso de você, Sabina... Nenhuma das duas percebeu quando aconteceu, uma força parecia ter puxando-as uma para a outra e no segundo seguinte, as duas estavam envoltas em um beijo, uma beijo calmo e cheio de carinho. Mas logo é interrompido por Sabina. - Desculpa... - Pediu Sabina. - Eu não devia... - Sabina iria se levantar, mas Joalin segurou seu braço, as duas se encararam por pouco tempo, você pode dizer muito com apenas um olhar e era o que Joalin estava fazendo, com um olhar disse sim, Sabina a beijou novamente, segurando levemente o seu queixo e sendo a mais carinhosa possível, afim de fazer Joalin esquecer, nem que fosse por um segundo, o que havia acontecido, tentando, com aquele beijo, espantar as lembranças ruins da garota.  
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