A noite caiu pesada sobre Trabzon, como se a cidade prendesse a respiração. O plano estava montado: nada podia falhar. Laura sentia as mãos suadas, o corpo tenso, mas havia uma força nova percorrendo suas veias — a certeza de que ali terminaria a caça. Selim, Fatma, Ayla e um grupo de aliados — o padeiro, o pescador, a vendedora de frutas e alguns trabalhadores do porto — espalharam-se pela cidade como peças de um xadrez silencioso.
A ideia era simples na sua crueldade: alimentar Eduardo com uma trilha falsa de orgulho e ódio que o levaria ao velho cais do porto, onde acharia provas — roupas, um lenço com cheiro familiar, a boneca de pano de Malu — indicando que Laura teria ido naquele rumo. Enquanto ele seguisse confiante, Ayla e o pescador conduziriam Laura e Malu por outro caminho; Selim e o padeiro fariam a distração no mercado; Fatma cuidaria para que ninguém suspeitasse do esconderijo. Às onze, quando a maré baixasse, Eduardo receberia sua armadilha.
Laura apertou a mão de Malu. A menina, pequena e assustada, olhava com olhos grandes, mas com uma expressão curiosa — como se quisesse entender se a mãe tinha medo. Laura inclinou-se e sussurrou, voz trêmula mas firme:
— Vai dar certo. Confia em mim, princesa.
Tinham ensaiado cada gesto, cada rota, cada desculpa. Às dez e meia, Selim deixou cair propositalmente um saco de tecidos e fez barulho no mercado; alguns homens simpáticos começaram a falar alto sobre uma mulher que teria saído em direção ao cais. O boato, cuidadosamente plantado, correu pelas esquinas. Eduardo, faminto por controle e certezas, recebeu a informação como uma confirmação.
Quando o carro de Ayla arrancou, levando Laura e Malu por ruas secundárias, elas ouviram, ao longe, a voz de Eduardo — um murmúrio irritado — e passos apressados. Ele estava vindo.
No cais, a lua fazia o Mar n***o brilhar como metal fundido. Redes encolhidas, caixas de peixe e cheiro de sal formavam o cenário perfeito. Selim e o pescador esconderam-se entre as pilhas; o padeiro abriu uma porta lateral para quem viesse correr. Um tecido manchado de lama e o lenço com aroma conhecido foram deixados em cima de uma caixa, à vista. A boneca, cuidadosamente perfumada para evocar lembrança, estava colocada com intenção.
Eduardo chegou com a respiração ardendo, olhos faiscantes. Quando viu os objetos, uma risada seca escapou dele — o triunfo bruto do homem que acreditava sempre merecer vitória.
— Viu? — murmurou, acariciando o lenço como se fosse prova de propriedade. — Eu sabia que ela não conseguiria me escapar.
Foi o sinal. Dois homens levantaram-se e cercaram-no. Ele tentou recuar, mas a maré de gente que Selim havia convocado — pescadores, trabalhadores do porto e até o padeiro — fechou as saídas. Eduardo percebeu tarde demais que fora enganado. A fúria converteu-se em desespero.
— Soltem-me! — rugiu, empurrando um homem de camisa azul. — Vocês não têm ideia com quem estão mexendo!
— Sabemos exatamente com quem estamos mexendo — respondeu Selim, a voz baixa e cortante. — Com um homem que bate em mulher e em criança. Hoje você para aqui.
Eduardo riu, um som sem alegria. Aproximou-se de um dos pescadores, tentando forçar passagem, mas tropeçou em uma rede. O movimento foi rápido: o pescador segurou-o pelos ombros, outro pescador lançou uma corda leve, que passou por trás e amarrou os pulsos de Eduardo, não com crueldade, mas para contê-lo. Ele ficou de joelhos, o rosto colado ao cheiro de peixe e cordas, gritando impropérios.
— Laura! — berrou Eduardo, a voz se envenenando. — Você vai se arrepender! Eu vou arrancar vocês de qualquer buraco! Vocês não me roubam assim!
Do outro lado, Laura estava sendo levada por Ayla em segurança; mas ao ouvir o grito de Eduardo, sentiu algo romper dentro de si: medo, sim, mas também uma fúria ancestral. Ela olhou para Malu, que apertava a boneca nova contra o peito, e respondeu, com voz que tremia mas não vacilava:
— Nunca mais. Nunca mais você vai nos machucar.
Eduardo, dominado pela ira, aproximou-se da borda onde alguns homens o seguravam. Pulou para cima numa tentativa violenta de escapar, grunhindo, os olhos quase febris de ódio. Um pescador, com mãos firmes, deu-lhe um soco no ombro; outro bloqueou sua corrida. A luta foi curta, incómoda, e deflagrou um murmúrio entre os presentes — ninguém ali quis ferir gravemente, mas também ninguém aceitaria seu terror.
No final, com os pulsos atados, Eduardo ficou prostrado, arfando, e as palavras que saíram da sua boca eram os mesmos xingamentos de antes, agora sem poder:
— Isso é injusto! — uivou. — Vocês não sabem o que vão provocar! Eu vou me vingar!
Fatma aproximou-se, olhos duros:
— Se você ousar, será a última vez que alguém vai ouvir seu nome com medo.
Alguns homens chamaram a polícia local composta por guardas noturnos. Chegando, encontraram Eduardo amarrado e cansado; ele gritou acusações, mas havia provas — as pessoas que testemunharam as agressões, as cartas, e o comportamento violento que Selim e outros já tinham registrado sem coragem suficiente para confrontar antes. A autoridade ouviu tudo, e após conferirem as queixas e o estado em que o homem se encontrava, levaram-no algemado.
Laura observava à distância enquanto a cena se desenrolava. O nó no estômago não desapareceu imediatamente: ela sentia a realidade pesada — a angústia pelos anos perdidos, a culpa por ter levado a filha a tanto, mas também um alívio tão forte que a fez chorar em voz baixa. Selim aproximou-se, colocando a mão no ombro de Laura com ternura:
— Você foi mais corajosa do que eu teria sido — disse ele, com os olhos molhados.
Quando a viatura arrancou levando Eduardo, ele gritou uma última ameaça, a voz cheia de ódio e derrota:
— Isso não acaba aqui! Vocês só adiaram o que eu vou fazer!
Laura respondeu apenas com um olhar firme. Não prometeu vingança; prometeu a si mesma e à filha um futuro diferente. Malu, curiosa, se aninhou ao lado da mãe e perguntou baixinho:
— Ele vai ficar preso para sempre, mamãe?
Laura beijou a testa da filha, sentindo a areia do cais ainda sob os sapatos, e murmurou:
— Não sei por quanto tempo. Mas hoje, minha pequena, nós ganhamos um pouco de paz.
A noite aprisionou o som dos passos da polícia, os murmúrios dos vizinhos solidários e o vento frio do Mar n***o. No cais, entre redes e caixas, uma mulher que havia sido caçada durante tanto tempo respirou profundamente. A armadilha funcionara — com risco, com medo, com sangue frio e com solidariedade. E, pela primeira vez em muito tempo, Laura permitiu-se acreditar que havia luz além da sombra.