A noite parecia mais escura do que nunca. As horas se arrastaram entre a decisão e o momento da partida, e Laura sentia o coração pulsar em cada minuto. O relógio marcava duas da manhã quando ela, finalmente, tomou coragem.
Eduardo dormia profundamente no sofá, vencido pelo álcool. O seu ronco irregular preenchia a sala como um aviso constante: “Cuidado, ele está aí.”
Laura caminhou de ponta de pés até o quarto, onde Malu dormia abraçada à boneca de pano. Acordá-la seria inevitável. Inclinou-se, tocou de leve o ombro da filha e sussurrou:
— Malu… meu amor… é hora de levantar.
A menina abriu os olhos devagar, ainda confusa.
— Mamãe… está de dia?
— Não, filha. Mas a gente precisa ir embora agora. — Laura tentou sorrir, mas seus lábios tremiam.
Malu não entendeu muito bem, mas reconheceu no olhar da mãe algo sério, algo definitivo. Sem protestar, deixou-se vestir apressadamente.
Laura pegou a sacola já pronta, segurou firme a mão da filha e espiou pela fresta da porta. O silêncio da casa era cortado apenas pelo ronco pesado de Eduardo. Qualquer passo em falso poderia ser o fim.
As duas atravessaram a sala lentamente. Malu apertava a mão da mãe, tentando não olhar para o pai estirado no sofá. O medo era tanto que sentia vontade de chorar, mas se conteve.
Quando a mão de Laura alcançou a maçaneta, o coração quase parou. Um estalo da madeira fez Eduardo se mexer, resmungando algo. O mundo pareceu congelar. Laura apertou Malu contra o corpo, prendendo a respiração. Por alguns segundos eternos, o homem virou para o outro lado e voltou a ressonar.
Foi a deixa. Laura abriu a porta devagar e puxou a filha para fora. O vento da madrugada bateu nos seus rostos como um sopro de liberdade e ameaça ao mesmo tempo.
Do outro lado da rua, Rosa as esperava encostada num carro velho, olhando em todas as direções. Quando viu Laura e Malu, correu ao encontro delas.
— Graças a Deus! Eu achei que você tinha desistido…
— Não tinha como desistir — respondeu Laura, com a voz embargada. — Não posso mais deixar ele destruir a nossa vida.
Rosa assentiu, abrindo a porta do carro.
— Rápido, entrem.
Malu acomodou-se no banco de trás, abraçada à boneca, e Laura entrou logo depois, ainda com o coração acelerado. Enquanto Rosa ligava o motor, Laura lançou um último olhar para a casa. Aquela era a despedida do lar que um dia fora cheio de amor, mas que agora só guardava dor e medo.
Quando o carro começou a rodar pelas ruas desertas de Feira de Santana, Malu encostou a cabeça no colo da mãe.
— A gente nunca mais vai voltar, mamãe?
Laura respirou fundo, lutando contra as lágrimas.
— Não, filha. Agora vamos buscar um lugar onde você possa dormir sem medo.
Naquele instante, a estrada escura parecia prometer tanto perigo quanto esperança. Laura sabia: a fuga tinha começado, mas a perseguição também.
O sol m*l havia surgido no horizonte quando Eduardo despertou. A boca amarga, a cabeça latejando — sinais de mais uma noite afogada em álcool. Ele levantou-se do sofá com dificuldade, tropeçando nos próprios pés, e então percebeu: a casa estava estranhamente silenciosa.
Chamou por Laura. Nenhuma resposta. Chamou por Malu. Silêncio.
Franziu o cenho, irritado, e foi até o quarto. A cama estava vazia. As roupas, algumas gavetas abertas. A boneca de pano, que Malu nunca largava, não estava ali. Foi como se uma bomba tivesse explodido dentro dele.
— Não… não… — murmurou, passando as mãos pelos cabelos.
Voltou correndo à cozinha, e foi então que viu o bilhete sobre a mesa. Abriu-o com mãos trêmulas, leu rapidamente e sentiu o sangue ferver.
"Eduardo, não posso mais viver assim. Preciso proteger a nossa filha. Adeus."
— Maldita! — gritou, amassando o papel e arremessando-o contra a parede.
O som do vidro de uma garrafa quebrando ecoou pela sala, quando ele chutou a mesa, cego de raiva. O peito subia e descia com a respiração ofegante. Laura ousara desafiá-lo. Ousara levá-la embora.
Na mente confusa e doentia de Eduardo, aquilo não era fuga. Era traição. Era afronta.
Ele saiu pela rua ainda pela manhã, perguntando aos vizinhos se tinham visto Laura e a filha. Alguns se calaram, outros apenas balançaram a cabeça, temendo o seu olhar agressivo. Mas Eduardo não desistiria.
Foi ao bar da esquina, mostrou a carta amassada ao dono e bateu o punho no balcão.
— Se você souber de alguma coisa e não me contar, vai se arrepender!
As pessoas evitavam responder, mas a fúria de Eduardo se espalhava como fogo. A cada negativa, ele ficava mais convicto: precisava caçá-las, custasse o que custasse.
No fundo, uma obsessão já o consumia: Laura não poderia escapar das suas mãos. Malu não poderia crescer longe da sua “autoridade”. Para ele, eram propriedades suas.
De volta à casa, Eduardo começou a vasculhar papéis, documentos, cartas antigas. Procurava qualquer pista de onde Laura poderia ter ido. Lembrou-se de Rosa, a amiga de infância. O nome dela queimava na sua memória.
— É claro… — murmurou, os olhos faiscando. — A Rosa sabe de tudo.
E assim, com o coração tomado pelo ódio e pela sede de controle, Eduardo começou a sua caça. Não havia mais volta: a fuga de Laura e Malu tinha transformado a sua obsessão numa perseguição implacável.
Enquanto isso, num carro velho que seguia pelas estradas escuras rumo ao desconhecido, mãe e filha acreditavam ter dado o primeiro passo rumo à liberdade. Mas não sabiam que atrás delas crescia uma sombra furiosa, disposta a tudo para alcançá-las.
Eduardo saiu pela rua com passos largos, os olhos vermelhos não apenas pela ressaca, mas pela fúria que o consumia. Cada esquina parecia esconder a sombra de Laura e Malu. Ele perguntava com agressividade a quem cruzava pelo caminho, mas os vizinhos desviavam o olhar, fingindo não saber de nada. O medo que ele inspirava era visível.
Na mente dele, no entanto, aquela fuga não era uma escolha de sobrevivência — era um insulto. Como ousava Laura desafiar a sua autoridade? Como ousava arrancar-lhe a filha, como se ele fosse um estranho? A obsessão crescia como uma chama fora de controle.
Deteve-se diante da casa de Rosa. A lembrança da amizade antiga entre ela e Laura o corroía. Bateu à porta com força, mas ninguém atendeu. A casa silenciosa apenas alimentava a sua desconfiança. Com o punho cerrado, jurou para si:
— Se a Rosa tiver alguma coisa a ver com isso, vai pagar caro.
Eduardo voltou para casa e se trancou. Andava em círculos pela sala, chutando garrafas, socando as paredes. O bilhete de Laura, agora amassado no chão, parecia zombar dele. A cada vez que lia aquelas poucas linhas na sua memória, mais convicto ficava de que precisava encontrá-las. Não importava o tempo, o esforço ou os limites da lei.
Enquanto isso, quilômetros dali, Laura olhava pela janela do carro velho de Rosa. Cada farol que surgia na estrada a fazia prender a respiração. O medo de Eduardo era como uma sombra grudada na sua pele. Malu, adormecida no colo da mãe, parecia por instantes alheia ao perigo, mas o corpo pequeno se mexia inquieto, como se até nos sonhos sentisse o peso da fuga.
Laura sabia que Eduardo não desistiria. Sentia no fundo da alma que ele viria atrás delas. A dúvida c***l era apenas quando e onde ele as encontraria.