Alguns dias depois, tentando esquecer tudo o que sentia, Julia aceitou o convite de uma amiga para ir a uma festa. Ela precisava sair, respirar, se sentir viva outra vez.
O lugar era elegante, cheio de música alta, risadas e copos tilintando. Julia acabou bebendo mais do que costumava. Não porque queria exagerar, mas porque precisava calar o vazio no peito. Cada gole parecia aliviar, ainda que por pouco tempo.
Em determinado momento, sentindo-se tonta, ela se afastou do salão principal e seguiu por um corredor mais silencioso, decorado com quadros antigos nas paredes. A música chegava abafada ali.
Foi quando um homem surgiu à sua frente. Ele sorriu de um jeito que a fez estremecer.
— Princesa… tá fácil demais te achar aqui — disse ele, se aproximando.
Julia franziu a testa, confusa.
— Eu não conheço você. Quem é você?
— Só um cara legal — respondeu, dando mais um passo. — Vem comigo.
— Não. Eu não vou — disse ela, tentando manter firmeza.
— Relaxa… vem comigo, tranquilo — insistiu ele, estendendo a mão.
— Não! Eu não quero!
Julia o empurrou com a pouca força que tinha e tentou seguir pelo corredor, mas as pernas não obedeceram. Ela tropeçou e caiu no chão.
O homem riu, se aproximando ainda mais.
— Eu não vou desistir agora… você é linda demais, sabia?
Julia se encolheu, o coração disparado.
— Não… não se aproxima… por favor…
Foi então que uma sombra se projetou entre eles.
Um homem surgiu à frente dela. Postura impecável. Alto, forte, terno escuro perfeitamente alinhado. O olhar era frio, firme — perigoso.
— Você está atrapalhando a minha conversa com a menina — disse o outro, irritado.
O homem do terno respondeu calmamente, mas com uma autoridade que fez o ar pesar:
— Conversa? A garota não quer você. Ela não está nem em condições de entender o que você está fazendo. Sai daqui. Agora.
— E quem você pensa que é? — provocou o homem.
Sem dizer mais nada, o desconhecido levantou discretamente o paletó, mostrando o que carregava preso à cintura.
O sorriso do agressor desapareceu na mesma hora. Ele empalideceu… e saiu correndo.
O homem então se abaixou diante de Julia.
— Vem, garotinha… já passou.
Com cuidado, ele a ajudou a se levantar. Mesmo tonta, Julia sorriu de leve.
— Você é meu herói? — murmurou.
Ele não respondeu. Apenas a conduziu até o carro e a levou para sua casa.
Já lá, falou com a voz firme, mas controlada:
— O que aconteceu com você? Por que está assim? Te deram alguma coisa?
— Eu… eu não sei… — respondeu ela, confusa. — Talvez eu tenha bebido demais. Eu só… precisava beber.
Ele assentiu, pensativo.
— Vamos cuidar de você.
Levou-a até o banheiro e ligou o chuveiro.
— Fica aí um pouco. A água vai ajudar. Vou buscar uma roupa limpa.
Pouco depois, deixou no banheiro um vestido simples, uma calcinha nova e uma toalha.
— Consegue se vestir sozinha? — perguntou do lado de fora.
— Consigo… obrigada — respondeu Julia, com a voz ainda fraca.
Enquanto a água caía sobre seu corpo, ela não fazia ideia de que aquele homem — que surgira como um salvador naquela noite — era, na verdade, a porta de entrada definitiva para o mundo da máfia.
Ele saiu do banheiro em silêncio e sentou-se na beira da cama, mantendo certa distância, como se não quisesse invadir mais do que já havia invadido naquela noite. Julia apareceu alguns segundos depois, enrolada na toalha, secando os cabelos ruivos com cuidado.
Ele levantou o olhar sem perceber… e ficou alguns instantes observando. Não de forma invasiva, mas atento, quase impressionado. Havia algo nela que não era só beleza — era fragilidade misturada com força.
— Obrigada… — disse Julia, quebrando o silêncio. — Obrigada mesmo por hoje, viu?
— Tudo bem — respondeu ele, com a voz baixa. — Amanhã cedo eu te levo pra casa.
— Amanhã eu trabalho cedo, moço — ela disse, ajeitando melhor a toalha.
— Que horas você entra?
— Sete horas.
— Então a gente sai daqui seis — ele falou naturalmente. — Te levo em casa, você se arruma e vai pro trabalho.
Julia franziu a testa.
— Eu não preciso fazer isso.
— Por que não?
Ela hesitou, desviou o olhar.
— Porque eu tenho medo da história se repetir.
— Como assim? — ele perguntou, atento.
— Nada… ainda não. Eu só pensei alto demais. Obrigada. De verdade.
Ele a observou por alguns segundos antes de falar:
— Me fala mais de você.
Julia sorriu de leve, sentando-se na ponta da cama, ainda mantendo distância.
— Você tem namorado? — ele perguntou com cuidado. — Uma moça bonita como você… com certeza deve ter.
Ela soltou um riso curto, sem humor.
— Sinceramente? Eu nem sei mais.
— Por quê?
— Eu namoro… ou namorava… um cara chamado Carlos. Ele é de família rica, sabe? Só que eu não sou.
Ele permaneceu em silêncio, ouvindo.
— Eu trabalho, sustento a minha mãe e a minha irmãzinha de 12 anos. E, há mais ou menos quinze dias, a gente estava completando um ano de namoro — ela continuou. — Ele me buscou no trabalho, me levou pra casa dele. Comprou um vestido bonito pra mim…
Ela respirou fundo, como se revivesse tudo.
— Tomei banho, me arrumei e fomos jantar num restaurante. Estava tudo agradável… até passar uma loira bonita. Com certeza do mesmo nível dele.
Ela sorriu de lado, amarga.
— Ele levantou pra cumprimentar ela. A mulher me olhou de cima a baixo. Eu falei “oi”, ela respondeu “oi”. E ele continuou conversando com ela… passando o braço nela. Como se eu nem estivesse ali.
O homem fechou levemente a mandíbula, mas continuou em silêncio.
— Depois ele disse pra ela: “depois eu falo com você”. Quando voltou pra mesa, eu perguntei por que ele não me apresentou… se tinha vergonha de mim. E ele disse que eu estava estragando o jantar.
Julia abaixou a cabeça.
— Eu fiquei quieta.
Ela respirou fundo e continuou:
— Quando o jantar acabou, ele perguntou se eu ia pra casa dele. Eu disse que não… que não sou assim. Que queria ir pra minha casa. Ele ainda quis questionar, mas eu não respondi. Ele me deixou em casa e… sumiu. Não falou tchau, não ligou, não explicou nada.
O quarto estava silencioso. O homem apenas a observava, atento a cada palavra.
— Talvez a culpa seja minha — ela disse por fim, com a voz embargada. — Eu, uma pobre, sem condição nenhuma, querendo me meter num mundo de gente rica… Nunca daria certo.
Ela ergueu o olhar, os olhos azuis marejados.
— Ele nunca precisou lutar por nada. Nunca precisou se preocupar se ia ter o que comer ou vestir. A única responsabilidade dele é gastar o dinheiro do pai… um pai que eu nunca nem conheci… e sair por aí desfilando de carro.
Ela ficou em silêncio.
O homem respirou fundo e finalmente falou, com a voz firme e segura:
— Nunca diminua quem você é pra justificar a falta de caráter de outra pessoa.
Julia o olhou, surpresa. Pela primeira vez naquela noite, sentiu algo diferente: respeito.
E sem saber, estava sentada diante do homem que mudaria completamente o rumo da sua vida.