Capítulo 2: Homem Errado, Desejo Certo

1066 Palavras
A tarde caiu como uma cortina dourada sobre a cidade, pintando os arranha-céus com tons de mel e cobre. Kael estava sentado em uma das poltronas de couro da área de descanso do prédio, a xícara de café esquecida entre os dedos. Os olhos estavam fixos em uma tela de vidro à sua frente — não pela vista, mas pelo reflexo que captava a imagem dela. Alanna. Ela ria de algo que uma colega dizia, jogando a cabeça para trás com tanta naturalidade que o coração de Kael bateu em falso. Ela não sabia o que fazia com ele. E isso a tornava ainda mais perigosa. Não era apenas o corpo — embora aquele corpo merecesse uma estátua. Era o jeito descomplicado de ser. Alanna era pura luz, uma força bruta de charme sem esforço. Não usava o desejo como uma arma, como tantas mulheres que ele conhecera. Alanna não precisava tentar. Ela simplesmente era. E isso o deixava em combustão. Kael tinha o domínio da sedução. Sabia exatamente como encantar, envolver, manipular. Mas com ela... sentia-se como um homem à deriva, apenas observando a maré puxá-lo para o meio do furacão. — Tá me seguindo? — a voz doce e provocante quebrou seu devaneio. Ele olhou para o lado e ela estava ali. Cabelos soltos, blusa clara com o primeiro botão aberto o suficiente para que ele visse o início de um sutiã rendado preto. Distraído, quase deixou a xícara escorregar. — Não. Só estou no lugar certo, na hora certa — respondeu com um meio sorriso. Ela se sentou na poltrona ao lado como se fosse o lugar mais natural do mundo. — Então o destino está brincando com a gente — disse ela, cruzando as pernas de forma inconsciente. O gesto simples fez o sangue de Kael ferver. — Ou testando meus limites. Ela riu, bebendo da própria xícara, sem perceber que o movimento da boca contra a borda o fazia imaginar aquela boca em lugares muito mais íntimos. — Você é engraçado, Kael. — E você é… — Ele hesitou por um segundo, os olhos fixos nos dela. — Hipnotizante. Ela corou. Um leve tom rosado nas bochechas que a deixava ainda mais tentadora. — Eu? Com essa cara de TPM eterna? Ele riu, sincero. — Você não tem ideia do que provoca. E isso é parte do problema. Alanna arqueou uma sobrancelha. — Problema? — Sim. Para mim. Porque cada vez que você aparece, me sinto menos no controle. Ela o encarou por um momento mais longo. A tensão se esticou entre eles como uma corda prestes a arrebentar. O ar ficou mais denso. Mais quente. — Kael... — ela começou, e a voz saiu mais baixa, mais rouca. — Você é diferente dos caras que trabalham aqui. — Diferente como? — Você não olha pra mim como eles olham. Tem algo no seu jeito... é como se você enxergasse mais do que deveria. Ele inclinou-se para frente, os olhos presos nos dela. — E se eu dissesse que vejo mais? Que vejo cada detalhe que você tenta esconder? Que seu jeito forte esconde um furacão de desejos que você finge não ter? Ela engoliu em seco. O peito subia e descia devagar, os lábios entreabertos. Por um instante, o mundo se resumiu àquele momento. Dois estranhos fingindo serem conhecidos. Dois desejos se reconhecendo em silêncio. — A gente devia voltar pro trabalho — ela murmurou. Kael assentiu, mas não recuou. — Eu vou atrás de você depois. O seu computador… — Vai travar de novo? — ela provocou com um sorriso malicioso. — Só se você prometer não me processar por mexer com suas configurações. Ela riu. — Kael… você é mesmo problema. — O melhor tipo de problema, Alanna. Ela se levantou e saiu. Mas dessa vez, não olhou para trás. E isso o deixou ainda mais obcecado. Naquela noite, Kael reprogramou não apenas o sistema dela. Mas o próprio autocontrole. Sabia que estava indo longe demais, brincando com a verdade, com identidades, com desejos que não poderiam mais ser contidos. Mas também sabia de uma coisa: Ela estava cedendo. E ele… já tinha cedido. O jogo estava se tornando um campo minado. Mas entre mentiras e olhares ardentes, Kael só conseguia pensar numa coisa: Ela era a mulher errada. Mas o desejo… era absolutamente certo. — Você não cansa de me provocar, Kael? — Alanna perguntou com um sorrisinho torto, jogando um travesseiro nele depois que ele a elogiou pela terceira vez naquela noite. — Eu? Provocar? — ele fez cara de inocente, segurando o travesseiro contra o peito. — Só tô sendo sincero. Você fica linda com esse moletom velho e esse coque bagunçado. Ela rolou os olhos, rindo. Era mais fácil rir do que aceitar que talvez ele estivesse falando sério. — Claro. E você deve dizer isso pra todas as amigas desajeitadas que não têm a menor chance contigo. — Quem disse que você não tem chance comigo? — ele rebateu rápido, o tom meio brincalhão, meio sério, e isso fez o estômago dela revirar. Ela desviou o olhar, mordendo o lábio para esconder o sorriso que ameaçava escapar. Sabia que era só Kael sendo Kael... não era? — Ah, para. Você é tipo... o cara que todas as garotas querem. Bonito, charmoso, misterioso. Eu sou só... eu. — E eu gosto desse "só você", Alanna. Silêncio. Ela riu, nervosa, jogando o cabelo pro lado como sempre fazia quando estava sem saber o que responder. Ele estava próximo demais, os olhos fixos nos dela com aquela intensidade que sempre a deixava sem ar. O clima mudou, como sempre mudava. Eles podiam estar falando sobre qualquer coisa — filmes, pizza, política — mas bastava um olhar, uma frase, e o ar entre eles ganhava outra temperatura. — Você tá me deixando sem graça — ela murmurou, baixinho. Kael se aproximou ainda mais, os joelhos quase tocando os dela no sofá. — E se eu estiver falando sério, Alanna? Vai continuar levando tudo como brincadeira? Ela piscou, tentando manter o controle da própria respiração. Aquilo era só Kael sendo gentil... ou não era? Ela riu de novo, tentando esconder o quanto aquela pergunta tinha mexido com ela. — Você é um i****a. — Pode ser. Mas sou um i****a que adoraria saber como seria te beijar. Ela engoliu seco. Brincadeira? Talvez. Mas seu corpo não estava rindo.
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