— Então aprende — ele falou. — Aprende a não dar suas reações de graça. Aprende a não deixar ninguém te colocar no lugar de vítima.
Eu encarei ele, incrédula.
— Você tá me dando lição agora?
Dante aproximou o rosto de novo, e a presença dele encheu o carro inteiro.
— Eu tô te dizendo como ficar viva — respondeu. — Porque eu não vou te perder.
A frase bateu no meu peito de um jeito que eu não queria sentir.
— Você não pode "me perder" se você nunca me teve — eu rebati, teimosa.
O olhar dele escureceu mais. Um segundo e então ele disse, como se fosse a verdade mais simples do mundo:
— Eu tive você no momento em que eles te venderam.
Meu estômago virou com a lembrança crua do começo de tudo.
— Isso não é "ter" — eu cuspi. — Isso é comprar.
Dante ficou imóvel por um segundo, como se a palavra tivesse sido uma faca.
— Você quer que eu diga o quê, Elena? — ele perguntou, baixo. — Quer que eu finja que esse mundo é limpo? Quer que eu finja que eu sou um homem bom?
Eu não respondi.
Porque eu não queria um homem bom.
Eu queria um homem que não me destruísse.
— Você quer me chamar de i****a? — ele continuou, a voz mais áspera agora. — Então chama. Mas não me chama de mentiroso. Eu nunca menti pra você sobre o que eu sou.
Eu apertei os dedos no tecido do paletó sobre meus ombros. O cheiro dele me enjoava e me atraía ao mesmo tempo.
— Você mentiu quando disse que ia manter distância — eu falei, e senti a voz tremer.
Dante soltou uma risada baixa, sem humor.
— Eu tentei.
— Tentou e falhou — eu disse, e doeu dizer.
Dante ficou em silêncio por mais um segundo.
Então ele se inclinou, devagar, e a mão dele veio até meu rosto. Não segurou meu queixo como um comando. Encostou na minha bochecha com um cuidado que parecia uma contradição ambulante.
— Eu falhei — ele admitiu, e a honestidade foi mais perigosa do que qualquer ameaça. — Porque eu gosto demais do jeito que você me olha quando quer me odiar e não consegue.
Minha respiração falhou.
— Eu odeio — eu sussurrei, mentindo m*l.
Dante aproximou a boca do meu ouvido.
— Não odeia o suficiente.
Ele se afastou antes que eu respondesse, como se tivesse decidido não cruzar mais um limite dentro daquele carro.
A voz dele voltou pro tom de chefe, de homem que se protege com comando.
— Você vai dormir na minha residência hoje.
Meu coração disparou.
— Eu não quero.
— Eu não perguntei — ele disse.
Eu apertei os olhos, sentindo a raiva e o medo se misturarem como veneno.
— Você tá fazendo isso de propósito — eu falei, e a minha voz saiu num fio. — Tá me confundindo pra eu parar de lutar.
Dante me olhou, e dessa vez havia algo duro e triste ao mesmo tempo.
— Eu tô fazendo isso porque eu não sei outra forma — ele disse. — Porque quando eu sinto... eu viro vulnerável. E vulnerável, Elena, morre.
Eu fiquei quieta.
Porque aquela era a primeira vez que ele dizia "morre" e eu acreditava que não era teatro. O carro seguiu pela cidade, e as luzes lá fora passaram como fantasmas.
Eu puxei o paletó mais apertado em mim e encostei a testa no vidro, tentando esfriar o rosto.
Mas não esfriava. Porque por dentro eu estava queimando e o pior era que eu sabia: o confronto não tinha terminado.
Ele só tinha mudado de forma.
Porque eu tinha feito a pergunta.
E Dante Valentini tinha respondido do jeito mais perigoso possível.
Com verdade.
O carro parou e, por um instante, o mundo lá fora ficou quieto demais.
O portão de ferro se abriu como se a casa respirasse e engolisse a gente. As luzes do jardim eram baixas, discretas, mas tudo ali tinha uma intenção: mostrar que nada acontecia sem permissão. Nem o vento.
Eu desci com o paletó dele ainda nos ombros, o coração batendo num ritmo que eu não conseguia controlar. A mansão parecia maior à noite. Mais escura. Mais... dele.
Dante saiu do outro lado e, sem tocar em mim, se posicionou perto o suficiente pra me conduzir. Era sempre assim: ele não precisava encostar pra mandar.
Na entrada, as pessoas da casa já estavam prontas, como se sempre soubessem a hora exata em que ele pisaria ali. Uma mulher mais velha, postura impecável, avental escuro, olhos atentos, não tinha o olhar de quem "serve" por submissão. Tinha o olhar de quem comanda a própria rotina com disciplina.
Ela inclinou a cabeça.
— Senhor. O jantar está pronto.
A voz era respeitosa, neutra. Sem curiosidade. Sem julgamento. Mas eu senti o microsegundo em que os olhos dela passaram por mim, rápido, registrando o paletó, a minha cara, meu cabelo, a forma como eu segurava o tecido como se fosse armadura.
Dante respondeu sem diminuir o passo.
— A gente vai tomar banho antes de comer.
A frase caiu estranha, íntima, como se fosse a coisa mais normal do mundo dizer aquilo na frente de terceiros. Meu rosto esquentou na hora.
A mulher assentiu, profissional.
— Sim, senhor. Posso preparar...?
— Água e gelo no quarto — ele cortou. — E ninguém entra no andar de cima sem eu chamar.
A mulher não hesitou.
— Entendido.
Eu segui Dante pelo hall, e a casa parecia ainda mais silenciosa do que eu lembrava. Luxo frio. Madeira escura. Uma ordem que chegava a ser agressiva. Não havia nada ali que dissesse "lar". Tudo dizia "território".
— Você gosta de morar sozinho? — eu perguntei, porque o silêncio estava me esmagando.
Dante subiu o primeiro degrau da escada sem olhar pra trás.
— Eu moro com o que eu preciso.
Eu subi atrás dele, tentando ignorar a dor no tornozelo e o cansaço no corpo. O paletó dele escorregou de novo e eu ajustei, irritada comigo mesma por não largar aquilo. Mas eu não queria que ninguém lá embaixo visse a pele exposta, o vestido rasgado, a desordem.
Não queria que ninguém me visse assim.
No andar de cima, Dante abriu a porta do quarto e entrou primeiro, como se verificasse o espaço. Como se alguém pudesse ter invadido a mansão dele em quinze minutos.
Eu entrei logo depois.
A luz baixa deixou tudo mais íntimo do que eu queria.