32. Elena

1058 Palavras
O som de nossos corpos se encontrando, úmido, obsceno, ecoava no camarim pequeno. O vidro do espelho embaçou com nosso calor. Meu reflexo estava distorcido, marcado pelo prazer e pela submissão forçada que, em algum lugar profundo, eu sabia que era voluntária. Ele me olhava no espelho o tempo todo, seus olhos negros queimando com um fogo que prometia destruição e renascimento. — Dante! A investida que seguiu meu grito foi mais brutal, mais profunda, atingindo um ponto dentro de mim que fez estrelas explodirem na periferia da minha visão. Um orgasmo começou a se construir, não como uma onda suave, mas como um terremoto: profundo, traiçoeiro, inevitável. Ele sentiu meu corpo começar a se contrair em volta dele. Seus dedos se cerraram em meu quadril. — Não — ele rosnou. — Você não vem até eu mandar. Você segura. A ordem era impossível. O prazer era uma maré montante, incontrolável. Eu me debati, um choro de frustração e necessidade escapando de meus lábios. — Por favor... — Segura — a voz dele foi de aço, mas o movimento dos seus quadris não parou, continuando aquele ritmo implacável que me levava à beira do abismo e me impedia de cair. Foi tortura. A mais doce, mais c***l tortura. Lágrimas de pura sobrecarga sensorial escorreram pelos meus olhos. Meu corpo tremia incontrolavelmente, preso no limbo entre a agonizante necessidade de liberação e a submissão total à sua vontade. Ele me beijou o ombro, um beijo que era quase uma mordida. — Agora — ele sussurrou, o comando final. E foi como se um dique se rompesse. O orgasmo me atingiu com uma violência que me fez gritar, um som rouco e primitivo que não parecia meu. Meu corpo convulsionou em volta dele, ondas e ondas de puro choque elétrico me sacudindo, me deixando fraca, me fazendo esquecer de tudo: do medo, da raiva, do perigo. Ele segurou firme em mim, prolongando minhas convulsões com empurradas firmes e precisas, até que o próprio controle dele se quebrou. Com um rugido abafado que veio do mais profundo de seu peito, ele enterrou-se até o fim e explodiu dentro de mim, quente e profundo, seu corpo tremendo contra o meu em espasmos poderosos. Por longos segundos, o único som foi o de nossa respiração ofegante e caótica. O peso dele sobre mim, dentro de mim, era a única coisa real. Aos poucos, a realidade começou a voltar. O frio do espelho contra minha pele suada. O cheiro de sexo e perfume no ar. A visão de nossos corpos entrelaçados e marcados no reflexo embaçado. Ele se moveu lentamente, saindo de mim. A perda foi física, um vazio abrupto. Minhas pernas não me sustentariam, mas suas mãos me seguraram, me virando para enfrentá-lo antes que eu pudesse cair. Seu rosto estava sério, os traços ainda marcados pelo êxtase, mas os olhos já recuando para trás daquela muralha de gelo. Ele olhou para mim, para meu vestido rasgado, para meu corpo trêmulo, para meu rosto marcado pelas lágrimas e pelo prazer. Sem uma palavra, ele tirou o próprio paletó, um sobretudo caro e impecável, e o envolveu em meus ombros, cobrindo minha nudez e desordem. O gesto foi surpreendentemente gentil, mas a expressão dele não era. Ele pegou meu queixo entre o polegar e o indicador, forçando-me a olhar para ele. — A próxima vez que você sentir vontade de se defender — ele disse, a voz baixa e carregada de uma promessa sombria — você lembra. Que a sua defesa é eu. E que o seu castigo, também sou eu. Ele soltou meu queixo, deu um passo para trás, e a máscara do chefe, do homem impiedoso, estava de volta, intacta. Só os olhos, ainda escuros e ardentes, guardavam o eco do que acabara de acontecer. — Vamos — ele disse, virando-se para a porta. — Você não pertence a este lugar. E eu, envolta no casaco dele, com o cheiro dele em minha pele e o sabor dele em minha boca, segui-o em silêncio, sabendo que ele estava terrivelmente certo. Eu não pertencia àquele lugar. Eu saí do camarim como se o chão tivesse mudado de textura. Como se cada passo tivesse uma consequência. O corredor parecia mais longo, e a boate lá fora continuava viva, como se nada tivesse acontecido nos bastidores. Como se o mundo fosse c***l o suficiente pra seguir girando enquanto eu tentava juntar meus pedaços. O paletó dele estava sobre meus ombros, pesado, quente, cheirando a Dante. Aquele cheiro limpo e perigoso que eu já reconhecia com ódio e fome e medo. Eu queria arrancar, jogar no chão, pisar em cima. Mas eu também queria me esconder dentro dele, porque o tecido era uma parede. Eu odiava precisar de parede. Dante ia na frente, abrindo caminho sem tocar em ninguém. Os seguranças se moviam antes dele pedir. As pessoas desviavam sem entender por quê. E eu seguia, com a cabeça erguida, porque eu tinha aprendido que humilhação tem som e eu não ia dar esse som pra ninguém. Mesmo assim, eu sentia olhares. Não os olhos do público. Olhares de bastidor. Funcionários. Garçons. Meninas que ainda estavam por ali, fingindo que não viam, mas vendo tudo. Eu sentia o calor subir no meu rosto, aquela mistura horrível de vergonha e raiva. Porque eu sabia o que pareciam estar pensando: "Ela conseguiu." "Ela ganhou." "Ela é a escolhida." Como se eu tivesse escolhido alguma coisa. Como se eu tivesse pedido pra ser puxada pro centro do inferno. Dante parou no corredor perto da saída de serviço. A luz ali era mais fria, quase azulada. Ele se virou pra mim, rápido, e o olhar dele encontrou o meu como um gancho. — Fica perto — ele disse. — Eu já tô perto — eu respondi, e a minha voz saiu com um fio de veneno que eu não escondi. Um músculo no maxilar dele se mexeu, mas ele não discutiu. Só segurou o rádio de um dos homens e falou baixo, objetivo, em italiano rápido demais pra eu acompanhar. O homem assentiu e saiu. Dante voltou pra mim, a mão estendida. — Vem. Eu não peguei. Eu olhei pra mão dele como se fosse uma coisa estranha. Como se eu ainda não tivesse certeza se aquela mão era proteção ou prisão. Como se ela não pudesse ser as duas.
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