28. Elena

1099 Palavras
A sala estava vazia, mas eu senti presença do mesmo jeito. Como se o espaço guardasse olhos dentro das paredes. Como se eu fosse sempre assistida, mesmo quando eu estava sozinha. Eu alonguei devagar, fazendo o corpo lembrar que ainda era meu. Estiquei as pernas, girei os ombros, toquei de leve o tornozelo. Doía. Eu respirei e ignorei. Dor eu conhecia. O que eu não conhecia era essa tensão que me atravessava por dentro sempre que eu pensava nele. Dante. A lembrança veio como um golpe: o toque no meu queixo, a voz baixa perto demais, a sensação de estar presa num mundo que cheirava a perigo e... a alguma coisa que eu não devia querer. Eu apertei os olhos por um segundo. Não pensa nele agora. Eu repeti as palavras de Ivy como uma oração. A porta abriu. Eu congelei. Não era ele. Era um dos homens dele: terno, rosto duro, olhos vazios. Ele não entrou, só ficou na porta como um aviso ambulante. — Tá na hora — ele disse. Eu engoli em seco. — Ele... — meu orgulho tentou sair pela boca, mas eu engoli antes. — Ele pediu alguma coisa? O homem me olhou como se eu tivesse perguntado a cor do céu. — O chefe mandou você subir. Mandou. A palavra bateu e abriu uma ferida nova: a sensação de ter sido devolvida ao meu lugar. Eu assenti, porque lutar contra isso ali era inútil. Quando a porta fechou, eu fiquei um segundo parada, respirando com cuidado, porque a vontade de chorar vinha ardida, vergonhosa. Eu não queria chorar por ele. Eu não queria chorar por mim. Eu só queria... parar de sentir. Mas meu corpo não sabia. Eu voltei pro camarim e me troquei sem falar com ninguém. A lingerie era preta. Simples. Colada no corpo como uma segunda pele. Eu prendi o cabelo, ajeitei a alça, passei perfume só o suficiente pra não parecer desleixo. Coloquei o salto com a atenção de quem monta uma armadura. A tira apertou. O tornozelo reclamou. Eu respirei fundo e firmei o pé no chão. Eu não ia mancar. Não hoje. Ivy apareceu ao meu lado no corredor, rápida, eficiente. — Olha pra mim — ela disse. Eu olhei. — Você tá com o rosto de quem quer sobreviver — Ivy falou. — Ótimo. Sobrevive. Mas não se entrega. Nem pra elas, nem pra eles, nem pra ele. Meu peito apertou com a última palavra não dita. — Eu não vou — eu menti. Ivy segurou meu queixo por um segundo, firme. — Não mente pra mim — ela disse. — Mente pra eles. Pra mim, você só faz o que precisa pra voltar inteira. Ela soltou meu rosto. — Vai. O corredor até o palco era curto, mas parecia uma travessia. O som do público veio mais forte. Eu ouvi meu nome ser dito em algum lugar — ou talvez eu tenha imaginado, porque eu já estava entrando naquele estado em que o corpo funciona e a mente só assiste. A cortina tremia com o ar condicionado e com a vibração da música. Quando a batida da minha música começou, o mundo ficou estreito, preciso. Eu dei o primeiro passo e a luz me atingiu. O palco me engoliu. O calor veio na hora, junto com o olhar deles. Centenas de olhos. Um mar de rostos que eu não precisava conhecer pra saber o que queriam: consumo, controle, fantasia. E eu ali, exposta, com o coração batendo alto demais. Eu agarrei o pole. O metal estava frio, e isso me ajudou. Me ancorou. Eu comecei a dançar. No começo, foi técnica. Movimento aprendido. Giro lento. Quadril marcando o ritmo. Mão subindo, corpo descendo. Eu ouvi os primeiros assobios e ignorei. Eu ouvi alguém gritar alguma coisa e deixei passar como vento. Eu fiz o que eu fazia desde que cheguei ali: sobreviver com elegância. Mas naquela noite havia outra camada. Eu sentia o meu corpo diferente. Não mais só medo. Havia uma faísca de desafio. Uma raiva quieta. Um "eu ainda tô aqui" que queimava por dentro. Eu desci pelo pole com cuidado, controlando o tornozelo, e sentei no chão do palco, lenta, como se cada segundo fosse calculado. Eu não olhei pra mesas específicas. Até olhar. Foi instinto. No alto, atrás do vidro escuro do camarote reservado, havia uma sombra. Não um rosto. Não uma certeza. Uma presença. Meu estômago virou do avesso. Eu senti o ar sumir, como se ele tivesse apertado minha garganta com a distância. Como se a simples ideia de estar sendo visto por ele fosse uma mão invisível no meu corpo. Meu coração tropeçou. Eu quase perdi o ritmo. Mas eu não perdi. Eu me obriguei a continuar, porque cair ali de novo seria morrer. Eu levantei, rodei uma última vez, e no final fiz a pose, firme, o queixo alto, como se eu não estivesse tremendo por dentro. Como se eu não tivesse um gosto de lembrança na boca. Quando a música terminou, eu saí sem pressa. Sem correr. Sem implorar. Atrás da cortina, o ar frio me acertou como tapa, e só então minhas mãos tremeram de verdade. Eu encostei no tecido por um segundo, respirando forte, tentando puxar o mundo de volta pro lugar. Ivy surgiu do nada, como sempre. — Boa — ela disse, curta. Eu assenti, sem saber o que responder. — Água — Ivy mandou pra alguém. Eu passei a mão no braço arranhado, e a ardência me lembrou que eu era de carne, não de luz. Eu queria dizer: eu vi. Eu queria dizer: ele tava lá? Eu queria perguntar: por que ele me mandou subir e não veio? Mas eu sabia que perguntas ali eram armas apontadas contra mim. Eu fui pro corredor lateral, onde dava pra respirar sem o olhar de todo mundo. Encostei a cabeça na parede fria por um segundo. E foi ali, naquele instante em que eu achei que ia desabar, que eu percebi outra coisa. Eu não estava chorando. Eu estava com raiva. Raiva das meninas. Raiva dos homens. Raiva da boate. Raiva de ter sido trazida pra um mundo onde eu tinha que ser forte na marra. E, principalmente, raiva dele. Porque Dante Valentini conseguia fazer eu me sentir segura e destruída com a mesma mão. Eu abri os olhos e encarei o corredor vazio. A noite só estava começando. E eu tinha a sensação terrível de que, em algum lugar acima, atrás do vidro escuro, alguém estava decidindo quanto de mim ainda seria necessário quebrar... até eu caber exatamente no lugar que ele queria.
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