24. Dante

1111 Palavras
Eu saí da biblioteca com o peso da conversa grudado na nuca. A mansão principal sempre parecia mais fria depois que alguém dizia uma verdade que eu não queria ouvir. O corredor era amplo, silencioso, e mesmo assim eu sentia olhos em mim, não de homens armados, não de seguranças. Olhos invisíveis. Olhos do nome Valentini. Eu desci dois degraus da escada e vi Bianca. Ela estava no hall, com um vestido claro e o cabelo preso de qualquer jeito, mas o rosto dela tinha aquela expressão que eu já aprendi a respeitar: a de quem não se assusta fácil. Bianca não era parte do nosso mundo por ingenuidade. Ela era parte porque tinha sobrevivido. Ela me encarou como se eu fosse uma notícia r**m. — Dante — ela disse, e o meu nome na boca dela soou como repreensão. Eu parei. — Bianca. Ela cruzou os braços, me analisando de cima a baixo como se procurasse sangue na minha roupa. — Eu soube que você matou um homem por causa da Elena. Eu senti minha mandíbula travar. — Quem te contou isso? Bianca deu um sorriso curto, sem humor. — Querido, aqui dentro as paredes têm ouvidos e o Luca tem uma boca enorme. Eu respirei fundo, lento. A vontade de mandar ela calar a boca veio automática... e morreu no mesmo instante. Porque Bianca não era um soldado. Era a esposa do Salvatore. E, pior: ela era o tipo de pessoa que enxergava o que a gente tentava esconder até de si mesmo. — Não foi "por causa dela" — eu respondi, duro. — Foi por respeito. Bianca inclinou a cabeça, como se ouvisse uma criança mentindo. — Claro — ela disse, doce demais pra ser verdadeiro. — Por respeito. Eu dei um passo pra passar por ela. Bianca não saiu da frente. — Você sabe o que isso significa, né? — ela continuou, a voz baixa. — Não pra você. Pra ela. Eu segurei a irritação no peito. — Eu sei me virar. — Eu não tô falando de você — ela disse. — Eu tô falando da garota que vocês puxaram pra dentro de um mundo onde gente morre por olhar errado. O nome "garota" me incomodou. Elena não era um detalhe. Não pra mim. E era exatamente isso que eu não podia admitir em voz alta. — Ela vai ficar bem — eu falei. Bianca me encarou com uma firmeza quieta. — Vai? — ela perguntou. — Porque eu já vi esse tipo de "proteção" virar castigo. Eu senti o golpe, porque ela tinha acertado. Eu mandei Elena de volta pra boate pra me afastar. E isso era, sim, um castigo. Pra ela. Pra mim. Pros dois. — Eu não pedi sermão — eu disse. Bianca finalmente se moveu, abrindo passagem, mas a voz dela veio como lâmina suave nas minhas costas. — Então não se comporte como um homem que precisa de um. Eu continuei andando. Não porque eu tinha vencido. Porque eu não tinha resposta. Lorenzo estava no escritório dele, claro. O lugar parecia um tribunal. Madeira escura, móveis impecáveis, telas com relatórios abertos, dois celulares sobre a mesa como se fossem extensões do corpo dele. Lorenzo não era só o Don. Ele era o cérebro do império que fingia ser limpo. Ele não levantou quando eu entrei. Só ergueu os olhos, frios, calculando. — Você demorou — ele disse. Eu fechei a porta atrás de mim. — Eu passei no Salvatore. Lorenzo fez um som baixo, quase um riso. — Você passou pra pedir benção? Eu avancei até a mesa e parei, apoiando as mãos no tampo. — Eu passei porque ontem virou bagunça. Lorenzo encarou minhas mãos, depois meu rosto. — Ontem você transformou um evento público em exemplo — ele corrigiu. — Bagunça é o que eu tô limpando desde então. Eu senti o sangue esquentar. — Ele provocou. — Provocou — Lorenzo concordou. — E você deu o que ele queria: um espetáculo. Eu estreitei os olhos. — Ele queria me testar. — Ele queria te expor — Lorenzo corrigiu de novo, a voz sem emoção. — E conseguiu. Eu respirei pelo nariz, devagar. — Você vai resolver? Lorenzo recostou na cadeira, cruzando as mãos. — Eu já resolvi metade — ele disse. — Os vídeos "desapareceram" das câmeras certas. Os celulares que filmaram foram confiscados por "segurança privada". Os convidados importantes vão receber uma versão oficial: ataque, ameaça, proteção do evento. Eu senti um gosto amargo. — E o corpo? Lorenzo me observou por um segundo longo. — O corpo não é problema — ele disse. — O problema é o nome Cavalli e a reação. Eu fiquei em silêncio. Isso eu entendia. Lorenzo pegou um dos celulares, leu uma mensagem, e continuou como se estivesse falando do tempo. — Eles vão querer resposta. E vão usar isso como desculpa pra pressionar nossas rotas. Eu cerrei os punhos. — Então a gente pressiona de volta. Lorenzo ergueu o olhar, e o gelo nos olhos dele cortou. — Com cabeça, Dante. Não com sangue por impulso. — Não foi impulso — eu rosnei. Lorenzo se inclinou um pouco, a voz ficando mais baixa. — Você matou um homem porque ele olhou pra uma garota. O silêncio caiu pesado. Eu senti meu estômago afundar. — Não é uma "garota" — eu respondi, e a forma como a frase saiu me denunciou. Lorenzo não perdeu o controle da expressão. Mas eu vi o brilho de atenção, como se ele tivesse acabado de achar uma peça importante. — Elena — ele disse, como quem nomeia um problema. — Então é verdade. Eu quis voltar no tempo e engolir minha própria frase. — O que é verdade? — eu retruquei. Lorenzo recostou na cadeira de novo, tranquilo demais. — Que você tem um ponto fraco — ele disse. — E que metade do submundo já percebeu. Eu dei a volta na mesa com um passo duro. — Fala baixo. — Aqui dentro não existe "baixo", Dante — Lorenzo respondeu. — Existe controle. E você perdeu o seu na frente de todo mundo. Eu senti a raiva subir, mas a voz do Salvatore ecoou na minha cabeça: proteger sem destruir. Eu respirei. — O que você quer que eu faça? Lorenzo me encarou como se eu fosse uma ferramenta que precisava ser recalibrada. — Que você não sai mais com ela em público por um tempo — ele disse. — reforça a segurança na boate. Sem estardalhaço. E que você aprende a não reagir com o dedo no gatilho quando te provocam. Eu soltei um riso curto. — Você tá pedindo pra eu virar você.
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