Eu saí da biblioteca com o peso da conversa grudado na nuca.
A mansão principal sempre parecia mais fria depois que alguém dizia uma verdade que eu não queria ouvir. O corredor era amplo, silencioso, e mesmo assim eu sentia olhos em mim, não de homens armados, não de seguranças. Olhos invisíveis. Olhos do nome Valentini.
Eu desci dois degraus da escada e vi Bianca.
Ela estava no hall, com um vestido claro e o cabelo preso de qualquer jeito, mas o rosto dela tinha aquela expressão que eu já aprendi a respeitar: a de quem não se assusta fácil. Bianca não era parte do nosso mundo por ingenuidade. Ela era parte porque tinha sobrevivido.
Ela me encarou como se eu fosse uma notícia r**m.
— Dante — ela disse, e o meu nome na boca dela soou como repreensão.
Eu parei.
— Bianca.
Ela cruzou os braços, me analisando de cima a baixo como se procurasse sangue na minha roupa.
— Eu soube que você matou um homem por causa da Elena.
Eu senti minha mandíbula travar.
— Quem te contou isso?
Bianca deu um sorriso curto, sem humor.
— Querido, aqui dentro as paredes têm ouvidos e o Luca tem uma boca enorme.
Eu respirei fundo, lento. A vontade de mandar ela calar a boca veio automática... e morreu no mesmo instante. Porque Bianca não era um soldado. Era a esposa do Salvatore. E, pior: ela era o tipo de pessoa que enxergava o que a gente tentava esconder até de si mesmo.
— Não foi "por causa dela" — eu respondi, duro. — Foi por respeito.
Bianca inclinou a cabeça, como se ouvisse uma criança mentindo.
— Claro — ela disse, doce demais pra ser verdadeiro. — Por respeito.
Eu dei um passo pra passar por ela.
Bianca não saiu da frente.
— Você sabe o que isso significa, né? — ela continuou, a voz baixa. — Não pra você. Pra ela.
Eu segurei a irritação no peito.
— Eu sei me virar.
— Eu não tô falando de você — ela disse. — Eu tô falando da garota que vocês puxaram pra dentro de um mundo onde gente morre por olhar errado.
O nome "garota" me incomodou. Elena não era um detalhe. Não pra mim. E era exatamente isso que eu não podia admitir em voz alta.
— Ela vai ficar bem — eu falei.
Bianca me encarou com uma firmeza quieta.
— Vai? — ela perguntou. — Porque eu já vi esse tipo de "proteção" virar castigo.
Eu senti o golpe, porque ela tinha acertado. Eu mandei Elena de volta pra boate pra me afastar. E isso era, sim, um castigo. Pra ela. Pra mim. Pros dois.
— Eu não pedi sermão — eu disse.
Bianca finalmente se moveu, abrindo passagem, mas a voz dela veio como lâmina suave nas minhas costas.
— Então não se comporte como um homem que precisa de um.
Eu continuei andando. Não porque eu tinha vencido. Porque eu não tinha resposta.
Lorenzo estava no escritório dele, claro.
O lugar parecia um tribunal. Madeira escura, móveis impecáveis, telas com relatórios abertos, dois celulares sobre a mesa como se fossem extensões do corpo dele. Lorenzo não era só o Don. Ele era o cérebro do império que fingia ser limpo.
Ele não levantou quando eu entrei. Só ergueu os olhos, frios, calculando.
— Você demorou — ele disse.
Eu fechei a porta atrás de mim.
— Eu passei no Salvatore.
Lorenzo fez um som baixo, quase um riso.
— Você passou pra pedir benção?
Eu avancei até a mesa e parei, apoiando as mãos no tampo.
— Eu passei porque ontem virou bagunça.
Lorenzo encarou minhas mãos, depois meu rosto.
— Ontem você transformou um evento público em exemplo — ele corrigiu. — Bagunça é o que eu tô limpando desde então.
Eu senti o sangue esquentar.
— Ele provocou.
— Provocou — Lorenzo concordou. — E você deu o que ele queria: um espetáculo.
Eu estreitei os olhos.
— Ele queria me testar.
— Ele queria te expor — Lorenzo corrigiu de novo, a voz sem emoção. — E conseguiu.
Eu respirei pelo nariz, devagar.
— Você vai resolver?
Lorenzo recostou na cadeira, cruzando as mãos.
— Eu já resolvi metade — ele disse. — Os vídeos "desapareceram" das câmeras certas. Os celulares que filmaram foram confiscados por "segurança privada". Os convidados importantes vão receber uma versão oficial: ataque, ameaça, proteção do evento.
Eu senti um gosto amargo.
— E o corpo?
Lorenzo me observou por um segundo longo.
— O corpo não é problema — ele disse. — O problema é o nome Cavalli e a reação.
Eu fiquei em silêncio. Isso eu entendia.
Lorenzo pegou um dos celulares, leu uma mensagem, e continuou como se estivesse falando do tempo.
— Eles vão querer resposta. E vão usar isso como desculpa pra pressionar nossas rotas.
Eu cerrei os punhos.
— Então a gente pressiona de volta.
Lorenzo ergueu o olhar, e o gelo nos olhos dele cortou.
— Com cabeça, Dante. Não com sangue por impulso.
— Não foi impulso — eu rosnei.
Lorenzo se inclinou um pouco, a voz ficando mais baixa.
— Você matou um homem porque ele olhou pra uma garota.
O silêncio caiu pesado.
Eu senti meu estômago afundar.
— Não é uma "garota" — eu respondi, e a forma como a frase saiu me denunciou.
Lorenzo não perdeu o controle da expressão. Mas eu vi o brilho de atenção, como se ele tivesse acabado de achar uma peça importante.
— Elena — ele disse, como quem nomeia um problema. — Então é verdade.
Eu quis voltar no tempo e engolir minha própria frase.
— O que é verdade? — eu retruquei.
Lorenzo recostou na cadeira de novo, tranquilo demais.
— Que você tem um ponto fraco — ele disse. — E que metade do submundo já percebeu.
Eu dei a volta na mesa com um passo duro.
— Fala baixo.
— Aqui dentro não existe "baixo", Dante — Lorenzo respondeu. — Existe controle. E você perdeu o seu na frente de todo mundo.
Eu senti a raiva subir, mas a voz do Salvatore ecoou na minha cabeça: proteger sem destruir.
Eu respirei.
— O que você quer que eu faça?
Lorenzo me encarou como se eu fosse uma ferramenta que precisava ser recalibrada.
— Que você não sai mais com ela em público por um tempo — ele disse. — reforça a segurança na boate. Sem estardalhaço. E que você aprende a não reagir com o dedo no gatilho quando te provocam.
Eu soltei um riso curto.
— Você tá pedindo pra eu virar você.