Capitulo 42

1356 Palavras
Lita esperou Isadora dormir para entrar no quarto da mãe. A casa estava silenciosa, daquele silêncio que não traz paz, só espaço para pensamentos demais. A mãe dobrava roupas com calma, óculos na ponta do nariz, quando percebeu a filha parada à porta. — Senta — disse, antes mesmo de Lita pedir. Ela sentou na beira da cama, mãos inquietas no colo. Por alguns segundos, não falou nada. A mãe a observava em silêncio, como sempre fez nos momentos importantes — sem pressionar, mas sem desviar. — Eu tô cansada, mãe — Lita começou, a voz baixa. — Cansada de fingir que tá tudo bem. A mãe pousou a roupa dobrada. — Então não finge comigo. Foi ali que Lita desatou. Contou sobre Rogério, sobre a Argentina, sobre como tudo parecia bonito por fora e pesado por dentro. Falou do dinheiro, das viagens, dos jantares caros onde ela se sentia deslocada, medida, observada. Falou do controle disfarçado de cuidado, das cobranças silenciosas, do cansaço que não passava nem depois de dormir. — Eu me sentia pequena — confessou. — Como se tivesse que agradecer o tempo todo por estar ali. Como se amor fosse dívida. A mãe fechou os olhos por um instante, respirando fundo. — Filha… riqueza nenhuma compensa quando a gente vai se perdendo. Lita assentiu, lágrimas finalmente escapando. — Eu aguentei porque achei que era o certo. Pela estabilidade. Pela Isadora. Mas cada dia era mais exaustivo. Eu voltava pra casa vazia de mim. Depois, contou sobre Roberto. Sobre os almoços, as conversas, a coragem dele em se abrir. Contou do sentimento antigo que ele revelou, do cuidado ao falar, do respeito ao não exigir resposta. E, por fim, da oferta. — Ele me convidou pra integrar o corpo docente da faculdade — disse, quase num sussurro. — Uma nova carreira. Um recomeço. Não como favor… como reconhecimento. A mãe arregalou os olhos, surpresa boa. — E o que você sentiu? Lita pensou antes de responder. — Medo. E esperança. Ao mesmo tempo. Como se alguém tivesse me lembrado de quem eu era antes de tudo parar. A mãe segurou a mão da filha com firmeza. — Você nunca deixou de ser essa mulher. Só ficou ocupada sobrevivendo. — Mas e se eu estiver idealizando? — Lita questionou. — E se eu estiver trocando uma segurança por um sonho que pode não dar certo? — Filha — a mãe disse com doçura dura —, segurança que machuca não é segurança. É prisão confortável. Lita respirou fundo, sentindo o peso e o alívio daquelas palavras. — Eu não sei se tô pronta pra amar de novo. Nem pra decidir tudo agora. — E ninguém tá te pedindo isso — respondeu a mãe. — Só te pediram verdade. E você deve isso a si mesma. Elas ficaram em silêncio por alguns minutos. Um silêncio bom, de acolhimento. — Seja qual for sua escolha — a mãe completou —, eu fico com a Isadora, eu te apoio, eu te sustento no que der. Mas não quero te ver apagando de novo. Lita abraçou a mãe com força, como não fazia há anos. — Obrigada por me lembrar que eu posso escolher. Quando voltou para o quarto, sentiu algo diferente no peito. Ainda havia dúvidas, medos, caminhos incertos. Mas havia também uma base firme: a certeza de que não estava sozinha — e de que sua vida podia, sim, caber nela outra vez. A Manhã da Verdade A manhã chegou cedo demais. Lita acordou antes do despertador, com aquela sensação incômoda de que não havia mais como adiar. Isadora ainda dormia, a casa estava silenciosa, e o cheiro de café fresco parecia marcar o início de algo definitivo. Ela sabia: aquele dia não comportava meios-termos. Pegou o telefone e ligou para Rogério. Ele atendeu rápido, a voz segura, como sempre. — Bom dia… aconteceu alguma coisa? — Aconteceu — respondeu Lita, direta. — A gente precisa conversar. De verdade. Encontraram-se algumas horas depois. Rogério estava impecável, terno claro, relógio caro, postura de quem entra em qualquer lugar sabendo que pertence a ele. Lita notou isso logo de início — e, pela primeira vez, aquilo não a impressionou. — Eu preciso saber — ela começou, sem rodeios — o que você realmente sente por mim. E até onde você está disposto a ir por mim, não pelo que eu represento ao seu lado, mas pelo o que eu sou. Uma mulher n***a, mãe solo, técnica da segurança do trabalho da sua empresa, uma funcionaria como qualquer outra mulher. Pobre sem carro, sem cartão de credito com limite alto, enfim quero que você me olha como realmente eu sou. Rogério franziu a testa, incomodado. — Eu te dou tudo, Lita. Conforto, segurança, acesso. O que mais você espera? Eu sei de tudo isso, e nada disso importam quando você estiver do meu lado. Ela respirou fundo. Aquela resposta dizia mais do que ele imaginava. — Eu espero ser vista. Respeitada. Ter espaço pra crescer. Não viver me sentindo em dívida só porque você pode pagar tudo, ou porque sou sua funcionaria, sombra de estar dormindo com o dono da empresa. — Mas esse é o mundo real — ele rebateu. — Relações são trocas. Eu ofereço estabilidade, você oferece presença. Não vejo problema nisso. Ali, Lita entendeu. Não houve grito, nem discussão. Apenas clareza. — E se eu quiser mais do que presença? — perguntou. — E se eu quiser ser inteira? Rogério suspirou impaciente. — Eu não vou mudar quem eu sou. Nem diminuir minha vida pra caber em inseguranças, num mundo que acontece apenas na sua cabeça. Suas escolhas não vai mudar quem eu sou. Infelizmente meu nome tem um peso, e todos que estiver do meu lado vai ter vantagem por conta disso. Ela assentiu devagar. — Então é isso que você tem pra me oferecer. Ele ficou em silêncio, mas não tentou segurá-la. Talvez nunca tivesse aprendido como. O que mais você quer ou espera? Eu gosto de você e comigo você não precisa se preocupar com nada nem com trabalho, nem com dinheiro Entendi – disse Lita. Horas depois, Lita encontrou Roberto. O clima era outro. Simples. Sem armaduras. Ele percebeu no rosto dela que algo importante estava para ser dito, mas não apressou. Esperou. — Eu conversei com ele — Lita começou. — E eu precisava fazer isso antes de falar com você. Roberto assentiu. — Obrigado por me dizer. Ela continuou: — Eu não sei ainda onde nós dois podemos chegar com esse sentimento. Não quero te enganar. Mas sei exatamente o que senti hoje: pela primeira vez alguém me perguntou quem eu sou, não o que eu aceito. Roberto manteve o olhar firme, respeitoso. — Eu não preciso que você decida sobre nós agora. Só preciso que você decida sobre você. Lita sorriu, emocionada. — E é isso que eu estou fazendo. Falou então sobre a proposta da faculdade. Sobre o medo. Sobre Isadora. Sobre o desejo de voltar a escrever, ensinar, existir para além da sobrevivência. — Eu aceito a oportunidade — disse, com convicção. — Não por nós. Por mim. Roberto sorriu, aliviado e orgulhoso. — Você merece esse lugar há muito tempo. Ela se levantou, sentindo o corpo mais leve. — Quanto a sentimentos… eu quero ir devagar. Sem pressa. Sem dívida. Até porque não vou mentir eu sinto algo pelo Rogerio e não é nada fácil, entrar numa nova empresa e deixar seus sentimentos de lado. Na época da faculdade eu até tive um cruch no senhor ou melhor em você, mas sabia que aquilo estava fora do escopo até porque relacionamento entre professor e aluno é falta de ética — É o único jeito que eu aceito — ele respondeu. Quando Lita saiu, o céu parecia mais claro do que nos outros dias. Não porque tudo estivesse resolvido, mas porque, finalmente, ela tinha escolhido o caminho que não a diminuía. Naquela manhã, Lita não escolheu o homem mais rico. Não escolheu a promessa mais fácil. Escolheu a si mesma — e o direito de construir uma vida onde amor não fosse exaustão, mas possibilidade.
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