CIDADE CINZENTA

1693 Palavras
Saindo do campo Mayfileds com a sensação de que poderia ter ficado mais um pouco, fui direto para casa. O bar do Ted era o lugar mais oposto que existia daquele campo. Lá havia barulho, pessoas e nenhum sentimento prazeroso, a não ser, claro, se prazer resumisse a um cochilo na calçada após litros de álcool barato. — Sabe, eu gosto muito dela. Gosto mesmo. Já contei o dia em que fizemos amor no telhado aqui do sobrado? — perguntou o rapaz, bufando um ar podre, com seus olhos semiabertos. Ele segurava uma garrafa de rum na mão esquerda, enquanto a direita, tentava encontrar o bolso de sua calça, mas estava excessivamente bêbado para conseguir fazer isso. — Fica para uma outra hora, Ted, preciso arrumar aquela casa. Está uma bagunça. — Sua tia nunca te contou sobre aquela vez? Deus! Foi insano! — continuou, ignorando-me. Ted já não olhava para mim. Na verdade nem sabia para qual direção olhar. Passando por ele e pelos rapazes espalhafatosos, subi as escadas até o primeiro piso e entrei no apertado local que eu chamava de cafofo. A bagunça continuava exatamente do jeito que eu deixara e com toda certeza ela continuaria ali se eu não fizesse algo a respeito. Tia Betty dizia que o melhor jeito para começar a organizar a vida, é começando pela sua casa. E foi com embasamento neste conselho, que iniciei uma faxina pesada. Retirei todas as sujeiras da sala, varri o tapete, utilizei o aspirador de ** para não deixar resquícios de nada, liguei para o técnico vir arrumar a televisão velha e por fim lavei uma pilha de louças que já estavam servindo de lar para moscas. A sala e a cozinha eram juntas se não por um pequeno balcão que as dividia. Enxugar a louça vendo os noticiários pessimistas do jornal com tia Betty já fazia parte da rotina e apesar disto não ser um entretenimento satisfatório, ainda me fazia falta. Pensando melhor, muitas coisas supérfluas que fazíamos juntas já dava um sentimento nostálgico, mesmo que essas nostalgias fossem apenas de semanas atrás. Um dia sem ela realmente fazia diferença. Aquela velha rabugenta. Sorri. Um jazz melancólico tocava no radio lá embaixo. Um ato de despedida. Era a parte da noite em que os bêbados voltavam a ficar tristes quando o efeito do álcool se dissipava de seus corpos, trazendo-os de volta para a realidade, uma bem triste, por sinal. Por essas e outras eu preferia estar lavando uma pilha de pratos podres, do que experimentar a felicidade instantânea. Se fossemos medir na balança o que é ser feliz de verdade e o que é ser feliz de mentira, poderíamos ver que ambas causam o mesmo efeito, já que nem em uma e nem em outra a duração seria a longo prazo. O que os alcoólatras do bar do Ted não sabiam é que quanto mais eles procuravam um modo de ser feliz, mais infelizes eles tendiam a ficar. O segredo é não procurar nada. Ir atrás de algo que nem sabemos se existe é uma atitude impertinente. Agora era a vez de meu quarto. Dobrei meus lençóis, retirei os copos e pratos de minha escrivania, passando um pano úmido e fechei a janela que estava escancarada, deixando o frio festejar pela casa. O quarto de tia Betty era o único bem ajeitado. Lá havia uma cama de solteiro e uma comoda com um abajur bege. A decoração ficava por conta do tempo, que transformara a tintura branca da parede em diversas manchas de mofo e um quadro solitário, pendurado no centro dali também fora atingido pela velhice, com suas bordas de madeiras corroídas por cupins que nem deviam estar mais vivos. Ainda assim, tudo estava em ordem. A unica coisa que nunca ficou em ordem para tia Betty, foi a vez em que ela me disse ter perdido sua filha no dia do parto, e aquele único retrato corroído era a lembrança mais importante de seu passado. Uma boneca de pano, que seu parceiro, Ted Robson comprara no dia que soube da gravides. Ela também revelou que foi no mês em que perdera sua filha que me encontrara sozinha na estrada. Pouco antes de me atropelar, a senhora rabugenta estava saindo de Londres para morar no interior e recomeçar sua vida. O destino como sempre não concordou e recomeçou tanto a minha quanto a dela de modos diferentes do previsto. Uma coisa era certa, juntas somávamos mais do que sozinhas. Uma complementava a outra, apesar de tia Betty nunca ter dado o braço a torcer para deixar chama-la de mãe, logo compreendi que a palavra tia, aqui significa: Mãe, amiga, conselheira e louca. Após a longa limpeza nos cômodos, imaginei uma cena vergonhosa de tia Betty com Ted se atracando no telhado ao olhar para cima e escutar pombos pousando nas telhas. Aquilo foi o suficiente para encerrar o dia, deitada em meu quarto. Peguei três cobertas e me enrolei entre elas. Antes de cair em um sono profundo, coloquei meu dedo indicador em minha nuca, alisando o furo que tinha ali, um furo nunca cicatrizável. Imaginar que meus sonhos eram projetados por maquinas de uma diretora psicopata me dava calafrios, mas pensar que agora depois de dezesseis anos, eu finalmente pudesse sonhar livremente o que quisesse, já me reconfortava. Aos poucos, todos os meus pensamentos foram desaparecendo. Um êxtase que sentimos apenas ao cair da noite. Lembranças da internação de tia Betty e da ida ao campo Mayfileds, haviam sido engavetadas. No dia seguinte, no período da tarde, juntei forças para encarar meu querido estranho amigo, Feen e dizer quais os meus sentimentos ao realizar sua lição de casa. O encontro não era em seu escritório, mas sim em sua própria residencia, como desejava que fosse. Seria uma visita surpresa. A chuva estava determinada em castigar a cidade pelo resto daquela tarde, então apressei os passos após uma viagem conturbada de ônibus e cheguei ao local desejado. Parada em frente ao edifício mais alto de um bairro nobre, onde dificilmente podia-se ver seu fim, peguei do bolso o papel do endereço que Feen me entregara, enquanto com a outra mão, segurava firme o guarda-chuva. O prédio continha inúmeras janelinhas espelhadas e pequenas áreas de sacadas, todas copiadas e coladas uma em cima da outra, diferenciando-as pela decoração de cada morador. A entrada continha portões de ferro escuro com o simbolo do edifício acima, cravado seu nome em letras prateadas e reluzentes. No geral era um lugar propriamente dito: Edifício lumiose, que vinha da palavra iluminado. — Boa tarde, eu gostaria de visitar o Feen, do apartamento vinte e sete, por favor — pedi ao apertar o interfone. — Pois não, irei contata-lo, você pode aguardar em nosso hall — concluiu uma voz feminina do outro lado. O portão logo se abriu em dois, permitindo minha entrada. Da cintura para baixo, tudo estava úmido devido as poças de água que eu pisara, no entanto meus cabelos continuavam arrumados e bem penteados. Apesar da chuva, a ventania não a acompanhara. No hall, duas poltronas cor creme enfeitavam o local ao lado de vasos com plantas pequenas e esdruxulas. Luminárias cumpridas, uma de cada lado, com a iluminação fraca, deixava aquele pequeno local confortável para sentar e ler alguma coisa na companhia de uma boa xícara de café pelo resto da tarde. Enquanto eu me ajeitava em uma das poltronas e analisava os quadros que retratavam pessoas robustas e algumas paisagens na parede em minha frente, notei o numero decrescer debaixo do elevador, um pouco além dali. Logo alguém sairia daquela caixa de metal ao meu encontro. E de fato saiu, após as portas de aço inox escovado se abrirem. Doutor Feen trajava uma blusa de frio preta com as mangas arregaçadas até o cotovelo, calças jeans escuras, e um sapato social preto fosco. Seus cabelos loiros, estavam bagunçados de uma forma bonita. Ao me ver, abriu um pequeno sorriso e seu olhar ficou sereno. O rapaz não estava com seus óculos ovais. — Me pegou de desprevenido! Eu já estava de saída — dizia ele, cumprimentando-me com um abraço. — Poxa! Desculpa ter te atrapalhado, se quiser eu volto outro dia. Não tem problema. — Não diga bobagens, olha o tempo que está la fora. Para ser sincero eu estava mesmo esperando que alguém impedisse meu compromisso, não estava com vontade nenhuma de sair nesta chuva para atender meu cliente com problemas de auto estima. O transito a esta hora é implacável. — Realmente — concordei enquanto entravamos no elevador e Feen apertara o botão de numero vinte e sete. Quando as portas se fecharam, ficamos silenciosos, esperando. Pensei ter escutado aquelas musicas de espera que reproduzem incansavelmente nos elevadores, mas não era do elevador que o som fora produzido. — Você mora com sua tia. Ela está bem? — perguntou após alguns segundos. — Ela está internada. Parada cardíaca, mas já estava melhor quando fui visita-la. — Poxa, que bom. Deve ser uma boa mulher. — Ela é sim — enquanto o elevador subia, dando leves trancos, o som que vinha de algum lugar intensificava-se. Parecia de algum instrumento, só não lembrava qual. — Chegamos — avisou. A porta novamente se abriu e saímos para um local igualmente apertado, com portas em todos os cantos das paredes, a de numero vinte e sete ficava bem na frente e era exatamente de lá que o som vinha. — Você disse ter um irmão no dia daquela consulta, é ele que esta aí? — Sim, ele mesmo — respondeu, pescando o molho de chaves do bolso de sua blusa. Feen encaixou uma das chaves e alavancou a maçaneta. Ao abrir a porta, pude ter certeza de que aquele som era de um instrumento muito familiar e naquela sala enorme, clara, com moveis novos e bem cuidados, uma pessoa sentada de costas em um banquinho branco, ao final do comodo, frente a uma janela retangular de vista para a cidade, domava habilmente o tal instrumento. Meu coração começara a se agitar como de costume quando algo extraordinário acontecia. — Pan, aquele ali é o Brok. O melhor violinista que conheço.
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