Apaixonada novamente

1293 Palavras
Apaixonada novamente Ao adentrarmos o quarto de dona Maria me deparei com uma senhora bem envelhecida, numa cadeira de rodas. — Mãe? Olha quem veio te ajudar. — Ele disse. Ela virou a cadeira e ao me ver, seus olhos encheram de lágrimas. Eu não me lembrava daquela mulher ser assim emotiva. — Isabela? — Oi, dona Maria. — Eu me aproximei e lhe dei um abraço ao qual ela retribuiu apertadamente. — Como soube? — Vi um anúncio no jornal, do senhor Ricci. — Olhei para ele. — Ah, Matteo por favor, senhor Ricci era meu velho. — Certo, senhor. Eles se entreolharam e sorriram com empatia. — Meu filho não é um senhor, Isabela. E como está sua mãe? E seu pai? — Estão bem, em BH. — E você fez Enfermagem? — Ela perguntou. Matteo se sentou na cama dela. — Sim, fiz um curso de dois anos. Sei fazer tudo que a senhora precisar. Ela se mostrava bastante emotiva. Pelo canto dos olhos notei que Matteo baixou a cabeça. — Eu vou fazer um café e trago para as senhoritas. — Disse ele. Rapidamente me levantei. — Eu posso fazer o café! Ele se mostrou contrariado. — Você não é empregada dessa casa há mais de dez anos, Isabela. Ele disse e saiu do quarto rumando para a cozinha. — Ele é um amor,não é? — Muito. Tive que concordar e muito. Algum defeito aquele homem tinha que ter. Eu não queria perguntar o que ela teve, pela proximidade talvez, mas tinha que saber. Fiquei esperando ela dizer alguma coisa. — Isabela, eu tive um tumor na coluna. Os médicos combateram e eu estou bem mas não posso mais andar e você sabe... — A higiene pessoal? — Sim, mas outras coisas também, remédios na hora, que eu esqueço, estou hipertensa e Matteo trabalha muito. — Eu compreendo. Se ele me aceitar, eu vou ser sua enfermeira. Sorrimos uma para a outra. Ela tinha mudado muito, parecia uma mulher mais agradável e calma. O que o sofrimento faz a algumas pessoas... as transforma. — Ele já aceitou, você foi a segunda a aparecer mas a outra menina fumava. — Ahhh.... — Sorri, vitoriosa. Conversamos sobre a casa, amenidades, meu curso até Matteo aparecer. Ele trazia uma bandeja com três xícaras de café e estava um pouco mais sisudo. Parecia apenas preencher um protocolo enfadonho. Senti tristeza em seu olhar e até alguma frustração. Ele nos ofereceu as xícaras e foi tão polido quanto podia ser. Sentou-se ao lado de sua mãe, na cama e me observou de cima a baixo. Eu não vi aquele gesto de maneira direta mas sim pelo canto dos olhos e aquilo me encheu de curiosidade. — Isabela, vamos conversar agora? — Sim, senhor Ri...Matteo. — Lembrei de sua correção. — Me acompanha até a sala? Mãe, vou tratar de assuntos chatos com ela, está bem? — Claro, meu filho. Eu nem tinha sequer provado um gole de seu café. Levantei-me da cama e o acompanhei até a sala. Eu esperava que ele se decidisse por não me contratar, talvez por me conhecer e achar que sua mãe não se sentiria confortável. Ele parou na sala e apoiou as mãos na cintura me olhando. Ele parecia pensar bem, ficou mudo por longos minutos. — Isabela, minha mãe requer cuidados constantes, acho que você notou. Eu fiquei muito magoado com seu pai quando saiu daqui nos deixando sozinhos para cuidar de tudo. — Ele estendeu a mão — Eu entendo, não pense que eu não compreendo, ele queria um ensino melhor para seus filhos, não podia voltar ao quilombo. Mas eu estou disposto a passar por cima de tudo isso porque você nos conhece desde que nasceu e conhece minha mãe muito bem. — Sim. — Cruzei minhas mãos a frente do corpo em um gesto de submissão e nem sei porque fiz aquilo. — Então... — Ele cruzou os braços, baixando o olhar — Acho que já podemos falar em pagamento, eu posso te oferecer três salários, tudo que você precisa está aqui e basicamente você precisa tomar conta dela, dar os remédios, fazer a higiene e levá-la para tomar sol. Ela gosta muito. E anda bem depressiva... Ele ergueu aquele olhar lindo para mim e Deus! Como tinha ficado ainda mais bonito com a idade! Eu demorei a responder qualquer coisa notando a sua barba e alguns fiozinhos brancos que nasciam discretamente nela e nos pontos luminosos de sua íris que refletiam a luz das janelas. — Então? — Hã? Ah! — i****a Isabela! — Eu aceito senhor...Matteo! Três salários? É uma oferta muito boa! Boa? Era tentadora demais, eu jamais conseguiria isso na cidade, infelizmente os profissionais da saúde não são reconhecidos nem bem remunerados. Ele deu um discreto sorriso de lado que era sua marca registrada. — Então — Bateu as mãos a frente do corpo — Acho que temos um acordo? — Sim, temos. Eu estava muito animada e ele pareceu estar aliviado de achar alguém e era só isso. Porque seria outra coisa, sua tonta? — Eu não posso cuidar dela, estou sempre viajando e sempre no escritório, acho que ela fica deprimida e chorosa, sabe como é? — Sim, sei. — Então, pode ocupar o quarto que era dos seus pais, eu tenho outros quartos de outras funcionárias, a cozinheira e a faxineira. Você conhece todos, com certeza e não vai encontrar dificuldade de se acomodar, ou vai? — Não, claro que não. Muito obrigada, Matteo. — De nada, Isabela, acho que será bom para ela ter alguém conhecida por perto. — Sim, eu entendo. Basicamente eu estava em pânico. A minha paixão adolescente tinha acabado de me contratar para voltar a babar por ele. Bem, não era para isso mas era isso que terminaria acontecendo. A minha paixão, que era para morrer e sumir da minha mente, simplesmente tinha se reforçado a décima potência e estava latejando no meu peito e em outras partes de mim. Aquele homem exercia frenesi máximo sobre mim. De repente, o que era para acabar, estava somente recomeçando. Que i*****l você é, Isabela... Porque sonhar com ele de novo? Você é n***a, bonita, mas n***a, nunca será notada por ele. Você foi e sempre será uma criança para ele, mesmo com vinte e três anos. Ele te viu crescer, nunca vai te enxergar como mulher. Você já devia ter acordado para isso há quinze anos atrás! — Você ficou uma bela moça, Isabela... Eu já ia começar a caminhar pelo corredor para ir para o meu novo quarto na casa quando ouvi aquela frase partir daquela boca. Congelei. Engoli em seco e voltei meu corpo para ele, tentando não parecer histérica. — Obrigada, senhor Matteo. — O jantar é as vinte em ponto, não se atrasem. Ele sorriu e me deu as costas para ir para fora. Como um homem joga uma granada dessas no seu colo e não repara que você vai fazê-la explodir em sua mente? Eu vi unicórnios, elefantes cor-de-rosa, algodão doces por todos os lados quando entrei no quarto. Enfm me joguei na cama com o peito explodindo de amor e com aquela frase b***a na minha cabeça. Ele tinha reparado em mim. Pela primeira vez na minha vida. Era óbvio dizer que se ele tivesse reparado há quinze anos atrás seria um pedófilo mas agora não precisava mais, eu tinha a maioridade e ele estava soltinho. Pobre homem, viúvo... Eu não devia ter aqueles pensamentos com um homem que certamente ainda devia sofrer a morte da esposa mas era impossível deixar de me imaginar com ele. Pelo menos na minha fértil imaginação e nas minhas cartas eu podia sonhar livremente com ele. Droga, eu estava apaixonada de novo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR