Ele abriu os olhos para um brilhante flash branco. Levou alguns momentos para a luz ofuscante silenciar, seus olhos piscando para se ajustar. Levou mais alguns momentos para ele perceber que não estava usando óculos. Mesmo assim, demorou mais alguns momentos para ele perceber que não estava em pé na floresta proibida. Não ... essa era a estação Kings Cross. Não havia trens. Não há passageiros ocupados em Londres. Sem passos apressados ou vozes sem corpo anunciando o próximo trem para chegar à plataforma 7. Era muito mais limpo do que Harry jamais se lembrava. A plataforma anteriormente coberta de cigarro era agora uma superfície impecável. Branco. Tudo estava branco. Os trilhos, os quadros de avisos, os bancos. Havia algo vermelho embaixo dos bancos.
Harry se inclinou sobre as mãos e os joelhos. A criatura estava enrolada em si mesma, na posição fetal. Encharcado de muco vermelho, aderindo a membros desnutridos e articulações ósseas. A criatura chorou. Um barulho patético e lamentável. Ele estendeu a mão para isso.
"Eu não me incomodaria com isso."
A cabeça de Harry levantou, agora percebendo que o banco estava ocupado. Um homem estava sentado lá, perigosamente familiar, mas tão difícil de identificar. Um terno preto se encaixava perfeitamente em sua forma, sem um vinco à vista. Dedos delicados entrelaçados, colocados deliberadamente em seu colo. Dentes afiados, bochechas altas e olhos verdes inteligentes. Cabelos grossos e encaracolados tão arrumados em comparação com o cabelo preto desgrenhado de Harry. Onde ele tinha visto esse rosto antes?
"Quem é Você?" Harry perguntou. O homem olhou para ele com uma expressão entediada.
"Depois de todos esses anos, você ainda não me reconhece?" O homem suspirou e deu um tapinha no banco ao lado dele. Harry hesitou. “É tarde demais para essa criatura. Deixe-a"
Os olhos de Harry permaneceram no ser. Seus gritos lamentáveis começam a irritar sua alma. Cada soluço, cada fungo. Ele o lascou no silêncio entre ele e o homem. De fato, irritou-o que o homem não parecesse incomodado por isso.
"Deve haver algo que eu possa fazer." Ele disse, alcançando a criatura novamente. O homem suspirou.
"Por que você acha que pode salvar tudo?" O homem disse. "Às vezes, a coisa mais gentil a fazer é deixá-lo morrer."
Ele vacilou, parando de tocar a criatura. Talvez isso fosse o melhor ... a criatura parecia estar com dor. Harry pegou sua varinha no bolso de trás, apenas para encontrá-lo vazio. Como se ele fosse corajoso o suficiente para realmente matar essa criatura. Mesmo que fosse em um ataque de compaixão. Com quem ele estava brincando? Ele decidiu se sentar ao lado do homem e olhou sem rumo através da plataforma.
"Onde estamos?" Ele disse, depois de alguns momentos de silêncio.
O homem fungou e olhou em volta.
"Estação Kings Cross."
"Porque estamos aqui?"
"Porque estamos aqui?" O homem ecoou de volta, olhando de lado para Harry. "Você faz muitas perguntas."
"E você não tem muitas respostas."
“Passei minha vida procurando respostas. Talvez fosse tolice acreditar que havia alguma." O homem disse secamente. Ele olhou para os trilhos do trem. "Gostaria de saber se haverá mais trens."
"Onde eles vão?" Harry perguntou.
"Outra pergunta. Gostaria de responder?"
"Tudo bem." Harry disse, seguindo o olhar do homem de volta aos trilhos. "Eu acho que vai para Hogwarts."
"É onde você quer estar?"
"É onde eu pertenço."
O homem assentiu.
“Então depois, quando Hogwarts tiver servido você o suficiente. Então para onde você vai?
"Eu ... eu nunca pensei tão à frente." Harry mordeu o lábio. Esse foi um bom argumento. O que havia depois de Hogwarts ... Vida. Ele adivinhou. O resto dele. O que quer que fosse ser. "Eu acho que estava tão animado por voltar a Hogwarts que nunca apreciei totalmente quando estava lá."
"Entendo." O homem se levantou e se espreguiçou. Ele se virou e estendeu a mão para Harry. "Caminhe comigo?"
"Para onde?"
"Para a eternidade, é claro."
Harry riu, balançando a cabeça. O homem levantou uma sobrancelha. Que homem estranho. Era uma estação de trem. Eles deveriam dar um passeio romântico ao vendedor de café? Esperam um pelo outro fora dos banheiros? Que idéia engraçada de um homem engraçado.
"Eternidade? Eternidade ... ” Seu sorriso caiu, o alfinete caindo em sua cabeça. "Eu estou morto?"
"Você está em paz." O homem deu de ombros, aparentemente despreocupado com a possibilidade de que sua vida também estivesse terminada. "Suponho que seja diferente."
Harry percebeu a aparência do homem mais uma vez. A voz do homem ... ele estava quase certo de ter ouvido isso antes. Suave, profunda. Ele retumbou em seu peito e se expeliu para o ar circundante com uma confiança fria. Aquele rosto, assustador, mas reconfortante. Um rosto que ele tinha visto um milhão de vezes antes, mesmo dormindo. Nos seus sonhos, nos seus pesadelos. Um rosto que sombreava seu futuro, vasculhava seu passado, permanecia em seu presente ... ele conhecia esse homem. Conhecia-o bem.
"Quem é Você?" Ele disse finalmente.
"A pessoa que sempre esteve com você."
O cérebro de Harry se encaixou. Ah, claro. Como ele não percebeu antes?
"Você é Tom Riddle?"
“A parte final de sua humanidade. Quando ele era um homem diferente. Quando eu era um homem diferente."
"Um assassino de crianças?"
"Um homem assustado." Tom olhou novamente para os trilhos. "Um homem diferente."
Harry olhou para ele por um momento. O que ele poderia dizer sobre isso? Que o homem que ele era havia machucado tantas pessoas? Que o homem que ele era havia rasgado parte da alma? Como ele pôde começar a descrever a mágoa que experimentara porque Tom estava "assustado". Todos aqueles anos de abuso, trancado no armário, faminto, espancado, intimidado. Em ocasiões familiares arruinadas, aniversários que ele não fazia ideia de que havia perdido. Dos abraços e beijos carinhosos que ele havia perdido de sua mãe. Dos dias de brincar com o pai? Dos anos de separação que enfrentara de seu padrinho, apenas para que ele se afastasse dele novamente. Como Teddy Lupin vai viver sem uma família. Como Teddy agora perdeu seu padrinho. Como o ciclo de mágoa e abuso acabou de girar novamente. Outra família arruinada por sua mão. A mão 'assustada'. Harry engoliu em seco. O que ele pode dizer sobre isso? Como ele ousa tentar obter simpatia dele.
Harry abriu a boca para falar, mas Tom simplesmente levantou a mão.
“Eu sei o que você quer dizer. Eu sei o que você quer que eu diga. Mas não vou dizer. Vivemos o tempo suficiente para saber que não vamos nos curvar."
"Você não se arrepende de nada?" A voz de Harry ficou tensa, sua raiva brilhando diante dele. Exasperado com a arrogância do homem diante dele.
Tom cantarolou: "Acho que já passamos do ponto de 'arrependimento', não é?"
"Na verdade não."
"O que o arrependimento vai fazer por você agora?"
"Não sei." Harry chutou o chão com o dedo do pé. "Alguma coisa."
Tom balançou a cabeça.
"Isso vai te asegurar-"
“-Por que você está dizendo esse tipo de coisa? Como se você se importasse?"
"Eu não teria passado a minha vida obcecado por você se não me importasse." Tom franziu a testa e sentou-se no banco. "Eu não me importo com você-"
"-Mentira-"
- "Eu me preocupo com minha alma. E desde que você se tornou parte involuntariamente, suponho que tive que aprender a me preocupar com você também."
Harry se afastou de Tom.
"Eu preferi quando você estava tentando me matar."
“Consegui matar você. O que devo ganhar ao manter a pretensão agora?
"Mas eu estou vivo."
"Você tem certeza?"
"Claro que tenho certeza."
“Interessante.” Tom cruzou as mãos novamente no colo. Ele estava certo, Harry supôs. Qual era o motivo de estar com raiva agora? A briga terminou. Definitivamente, sim. Pelo menos, a briga entre essa parte de Tom Riddle. Se ele estava com raiva, ele deveria ter feito algo sobre isso antes de acabar em um banco na Estação Kings Cross. Era um desperdício forçar-se a ter outra briga quando lutar não significaria absolutamente nada. A voz de Tom o puxou para fora dos pensamentos dele. "Então, suponho que você retornará o trem para Hogwarts?"
"Eu pensei que não havia ..."
Os olhos de Harry foram para o quadro de avisos. Lá estava, em amarelo pálido em um cinza desbotado. Hogwarts. Embora o tempo estivesse borrado e o horário de partida obscurecido. Não foi preciso um gênio para descobrir o que isso significava. Ele certamente não se sentia morto. Ele certamente não se sentia vivo também. Ele olhou de volta para Tom.
"Suponho que sim."
"Ainda não está aqui." Tom declarou o óbvio, olhando para o quadro.
"Ainda não está aqui." Harry ecoou.
"O que significa que há algo mantendo você aqui ... Há algo que você queria dizer?"
Harry engoliu em seco. O que você diz a um inimigo ao longo da vida? Como você pode traduzir anos de sofrimento e tristeza em algo significativo? Quantas pessoas tiveram que morrer por algo tão pequeno, tão e******o? Como você pode resumir dezoito anos de trauma a alguém que o conhecia tão bem quanto você? Houve um grande ditado, um forro fantástico? Algo que o chocaria em silêncio? Algo para tornar sua eternidade dolorosa ... é isso que Harry queria? Harry ficou quieto por um momento.
"Por quê?"
"Porque o que?"
"Por que eu?"
Tom colocou a mão na de Harry. Era mais quente do que ele esperava, aqueles dedos longos parecendo mais humanos do que na vida real. Não é mais o pesadelo, mas algo que oferece um conforto vago em resposta à pergunta que assombrava Harry desde criança. Por que era ele, a criança espancada debaixo da escada? Por que ele, a criança desnutrida com barras na janela? Por que ele, a criança sem um verdadeiro guardião? Por que ele, a criança testemunhando o assassinato de seus amigos? Por que ele, um garoto propaganda de uma guerra para a qual nunca se inscreveu? Por que ele, 'Salvador do Mundo Mágico'? Os olhos de Harry começaram a lacrimejar, lágrimas que se recusavam a parar, apesar do esfregar das mangas.
“Acho que não posso dar a resposta que você deseja. Você quer que eu diga que é por causa da profecia, que é claro, faz parte dela. Você quer que eu diga que é porque seus pais estavam perigosamente perto da minha ruína. Você quer que eu diga que é porque você é um escolhido especial, como eles dirão que você é". Tom apertou sua mão. "A resposta não é tão direta."
"Você poderia mentir?"
“Acho que fui uma das únicas pessoas em sua vida que nunca mentiu para você. Não vou mudar agora". Tom sorriu. Harry, apesar de si mesmo, soltou uma risada amarga. "Eu poderia mentir. O que você gostaria que fosse a mentira?
"Algo que faz essa dor de cabeça valer a pena."
"Você acredita que a verdade não vale a pena?"
"... estou preocupado que a verdade seja mesquinha."
"Isso é algo completamente diferente." Tom balançou a cabeça e soltou a mão de Harry. “Eu não sou fonte de falsa sabedoria, como Dumbledore. Talvez tenha sido ele quem o encontrou aqui.
"Ele teria me dito para voltar."
"Ele faria."
"Você iria?" Harry perguntou.
"Eu não ligo. Volte e lute comigo até a morte. Vá em frente e encontre a Eternidade. É a única escolha verdadeira que você poderá fazer. Não me deixe te parar.
“E a resposta para minha pergunta? Por que eu?"
Tom parou, parando um momento para examinar o rosto de Harry. A resposta, é claro, não mudaria nada. Foi um gesto vazio. Vazio, sem sentido e totalmente inútil. Não daria a Harry de volta os anos de infância roubada. Era improvável que ele encerrasse. Certamente não restauraria seus amigos de volta à vida. Por que ele? Por que ele?
"Por que não."
O Expresso de Hogwarts apareceu. Com tinta vermelha brilhante e vapor cinza estragando o branco perfeito de seu santuário. Por algo que lhe trouxe tanta alegria, Harry ficou chocado ao sentir-se m*l ao vê-lo. Talvez fosse porque era o fim da conversa. Talvez fosse porque isso significava que não havia mais nada a ser ganho com essa conversa. Talvez seja porque Harry estava sendo pressionado a fazer sua escolha.
"Parece que isso foi suficiente para você." Tom pensou, parado ao ver o trem, como se fosse um mentor respeitado. "Você sente que eu respondi sua pergunta?"
"Não. Na verdade não." Harry disse, olhando de volta para Tom. "Não me sinto satisfeito com essa resposta."
Tom assentiu, mas não concordou. Foi um aceno de entendimento. Um terreno plano em que Harry não estava errado por estar insatisfeito com a resposta, mas isso não importava. A verdade foi dita. Esse foi o fim de tudo.
"Nada vai mudar isso." Tom disse, seguindo Harry enquanto se dirigia para o trem. "Eu te disse minha verdade."
"Eu sei."
"Então... você vai voltar?"
"Eu tenho algumas coisas a fazer ... você vai esperar por mim?"
Tom piscou surpreso.
"Você quer que eu espere por você?"
Harry assentiu.
“Se você quiser. Eu fiz muito por conta própria. A última coisa que quero fazer é morrer sozinho... você me deve isso."
Tom observou Harry embarcar no trem. Harry se inclinou para fora de uma das janelas, aguardando a resposta de Tom.
“Você é estranho Harry. Não demore muito."
"Você gostaria disso, hein?"
"Quanto mais cedo você sair, mais cedo voltará."
O trem começou a se afastar. Separando as almas perdidas uma da outra. Isso machuca. Harry sentiu como se estivesse perdendo um pedaço dele, os fios que os prendiam desgastando quanto mais o trem se afastava da plataforma. Honestamente, ele não ficou surpreso. Ele viveu com o Lorde das Trevas ocupando espaço em seu coração por toda a sua vida acordada. Todas as memórias que ele já experimentara, Tom fora testemunha. Pela primeira vez, ele realmente iria viver sozinho.
Talvez seja por isso que ele sentiu a necessidade de acenar, não adeus, mas como parte de sua promessa de retornar.
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