- Rugge! - Falei ao vê-lo.
- Oi baixinha. - Ele disse com um imenso sorriso. - Como você está? - Fez um leve cafuné em mim
- Bem. - Falei ao sorrir para o homem, de quem eu já tanto gostava.
Rugge ia me visitar sempre que possível, ele falava que nunca me abandonaria, pois era meu amigo, e eu não sabia o porquê, mas eu confiava nele, e cada vez que ele ia embora era como se um pedaço de mim fosse com ele, mesmo sabendo que depois ele voltaria. Eu gostava tanto dele, não sei explicar direito o que eu sentia, mas no fundo do meu peito, eu desejava tê-lo como pai, mesmo achando que isso não aconteceria.
Eu não contava nada para ele sobre as coisas que se passavam no abrigo, sobre os maus tratos que eu sofria, do que eu vi no banheiro, eu não podia contar, eu queria dizer tudo para Rugge sobre o que eu vi, mas tinha medo dos meninos quererem se vingar de mim e fazerem o mesmo comigo, e eu não queria isso.
- Me tira daqui! - Pedi começando a chorar. - Eu não quero ficar aqui.
- Ah Kim, se eu pudesse te levaria agora mesmo comigo, mas não é tão fácil assim, ah, se fosse...
- Mentira! - Falei furiosamente e aos prantos. - Você não quer me levar com você. Você não gosta mais de mim.
Sai correndo, pois escutei Rugge gritar meu nome, mas nem olhei para trás, estava muito triste, queria poder ir embora, queria ter uma casa, uma família... Fui para meu quarto, ou melhor, para quarto das meninas. Deitei em minha cama e chorei muito. Era tanta mudança, primeiro a morte dos meus pais, depois fui para um abrigo onde sou constantemente maltratada, não aguentava mais tudo isso, eu só queria um lugar que eu me sentisse protegida, segura e amada. Ah, por que meus paizinhos tiveram que me deixar? Os papais das crianças não deveriam morrer, eu era pequena e precisava deles, se pelo menos eles tivessem me levado junto...
- O que houve, Kim? - Perguntou Mila ao entrar no quarto e me ver chorando.
- Eu não quero mais ficar aqui. - Falei aos prantos.
- E você acha que alguém aqui quer? Ninguém gosta desse lugar, mas não temos pra onde ir.
- E se a gente fugisse? - Sentei na cama e olhei para minha amiga.
- E ir pra onde? Dormir na rua? Não, muito obrigada. Tô fora.
Ela tinha razão, não podia fugir e dormir na rua, podia ser perigoso, lembro que quando meus pais eram vivos, eles sempre me falavam dos perigos das ruas e que nela habitam pessoas ruins, que roubam crianças e nos fazem m*l, tinha medo de encontrar alguém r**m assim, e apesar de tudo, eu ainda preferia ter um teto, uma cama quentinha e comida.
Eu havia ficado muito chateada com Rugge por ele não me tirar daquele lugar asqueroso, mas depois que a raiva passou eu me arrependi de ter falado daquele jeito com ele, e fiquei com muito medo dele não ir mais me visitar, não queria que isso acontecesse.
Na semana seguinte, eu estava dormindo e me acordei com vontade de ir ao banheiro. Tinha medo de ver aquela cena novamente. Fui vagarosamente, e ao me aproximar escutei um choro, espiei sem que me vissem, e se tratava dos mesmos garotos abusando novamente da Ágatha. Sai sem que notassem minha presença, e fui até a sala da diretora, que ainda estava no local arrumando umas coisas, para minha sorte. Eu tinha medo do que eles poderiam fazer se soubessem que eu contei, mas eu não podia deixá-los fazerem essas coisas, eu não sabia do que se tratava, mas algo dentro de mim me dizia que era errado.
- O que houve, querida? - Perguntou docemente. - Precisa de algo?
- Sim. Preciso contar uma coisa.
- Claro. Pode dizer… - Deu um leve sorriso.
- Hã… Eu vi o Fábio, o Júnior, o Marcelo, o Augusto e o Alfredo machucando a Ágatha e o Maurício.
- Machucando como? Estavam batendo nos menores?
- Não. Eles estavam fazendo coisas feias com os dois.
Relatei tudo o que eu havia visto, ela achou que era mentira, a princípio não acreditou muito em mim, mas eu falei que eles estavam no banheiro com a Ágatha e ela resolveu ir ver para ter certeza. Resultado? Os cinco foram pegos no flagra.
No dia seguinte, ao acordarmos, eles já não estavam. A diretora só disse que eles foram transferidos para um outro lugar, mas não deu detalhes. Fiquei aliviada em saber disso, pois eu sabia que agora eles não machucariam mais ninguém.
Ruggero foi me visitar no dia seguinte, fiquei muito feliz em vê-lo, e por saber que ele não havia me abandonado como eu fiquei com medo que ele fizesse.
- Você pode dizer o que for, pedir pra eu nunca mais vir aqui, e mesmo assim eu continuarei vindo te ver e sabe por quê? Porque você é minha amiga e amigos são assim, as vezes brigam, as vezes falam coisas que não querem, mas depois se entendem e fica tudo bem de novo. - Disse Ruggero.
- Desculpa tio, eu não quis falar nada daquilo, eu te adoro muito e não vou mais brigar com você, me desculpa?
- Hey, claro que sim, minha princesinha. - Me acariciou levemente no rosto.
Sorri e o abracei.
Ah, se eu soubesse tudo o que ele estava fazendo sem me contar certamente eu não diria nada do que eu disse. E eu nem imaginava que minha vida estava para ganhar um rumo novo.
Dia após dia, semana após semana, mês após mês, tudo seguia igual, Fabiane me dando castigos sempre por motivos bobos, as Ana´s implicando comigo diariamente, elas também pegavam no pé dos meus amigos, mas eu era o alvo principal, elas tinham uma enorme implicância comigo mesmo sem eu saber o verdadeiro motivo, talvez fosse inveja por eu ter vários amigos e elas não, mas ninguém mandava as duas serem chatas.
Era meu aniversário. Eu estava fazendo seis anos. O primeiro aniversário que eu passaria sem os meus pais. Sempre nessa data, era dia de festa, meus pais organizavam uma big festança com todos meus amigos, e faziam em um salão que tinha vários jogos, cama elástica, piscina de bolinhas, era muito legal, eu sempre me divertia bastante. Planejávamos que esse ano o tema seria Super Heróis, e eu me vestiria de Mulher Maravilha, pena que nada disso chegou a acontecer. Antes o meu aniversário era o meu dia preferido do ano, agora era apenas mais um dia triste como todos os outros.
- Um passarinho vermelho me contou que hoje é o seu aniversário. - Disse Ruggero.
- É sim. - Falei com um leve sorriso.
- Por isso, eu trouxe dois presentes pra você.
- O que é? - Perguntei com um enorme sorriso.
- O primeiro é esse aqui. - Disse ao me entregar uma caixa.
Abri rapidamente, estava curiosa para saber o que era, e se tratava de uma linda boneca doutora.
- Gostou?
- Amei! Obrigada. - Falei ao lhe abraçar fortemente.
- E o segundo presente é esse. - Disse ao me mostrar uma folha com um monte de coisas escritas.
- Um papel? - Perguntei sem entender do que se tratava.
- Não é um simples papel. É o comprovante de que agora em diante você terá um lar e muito amor.
- Como assim? - Perguntei ainda sem entender nada.
- Kim, você quer ser a minha filhinha?
Meu Deus! Não conseguia acreditar naquilo que meus ouvidos haviam escutado. Rugge queria me adotar? Ele queria ser meu pai e queria que eu fosse sua filhinha? É sério isso? Não, não pode ser…