09

1750 Palavras
Caterine Narrando O turno terminou quando minhas pernas já não respondiam direito. O relógio na parede da Ogorodnik parecia zombar de mim, avançando lento demais para quem precisava correr contra o tempo. Tirei o avental encardido às pressas, enfiei o casaco ainda com cheiro de gordura e saí quase tropeçando na porta, sem olhar para trás. Naquele dia, eu não tinha espaço para humilhação, comentários ou cansaço. Tudo o que importava era o peso do dinheiro escondido no bolso do meu casaco e o rosto febril da minha mãe martelando na minha mente. O vento gelado cortou meu rosto assim que pisei na calçada, mas eu não diminuí o passo. Caminhei rápido, quase correndo, desviando das pessoas como se cada segundo fosse um inimigo. A farmácia da esquina ainda estava aberta, as luzes brancas iluminando aquele espaço que, para mim, parecia um santuário. Empurrei a porta com força, sentindo o sino tilintar acima da minha cabeça, e fui direto ao balcão, sem dar tempo para o medo me fazer desistir. O farmacêutico me reconheceu na mesma hora. Era sempre o mesmo ritual: eu chegando cansada, contando moedas, escolhendo o remédio mais barato. Mas naquela noite foi diferente. Tirei o papel amassado do bolso, onde eu tinha anotado tudo o que o médico havia recomendado semanas atrás e que eu nunca tinha conseguido comprar. Antitérmico mais forte, antibiótico, vitaminas, xarope para a tosse, algo para fortalecer o pulmão dela. Um a um, fui pedindo, com a voz firme, mesmo sentindo o coração acelerar a cada caixa colocada sobre o balcão. Quando ele disse o valor total, minhas mãos tremeram por um instante. Respirei fundo antes de pegar o dinheiro. As notas que Olga tinha colocado no meu bolso pareciam queimar entre meus dedos. Eu contei devagar, com cuidado, temendo que não fosse suficiente. Mas foi. Pela primeira vez em muito tempo, não precisei pedir desconto, nem devolver nada para trás. O farmacêutico colocou tudo em uma sacola grande, e eu senti algo estranho se formar no meu peito não era alegria, era alívio. Um alívio tão forte que quase doía. Saí da farmácia apertando a sacola contra o corpo, como se alguém pudesse tentar arrancá-la de mim. Voltei a correr pelas ruas geladas de Vladivostok, ignorando o frio que queimava meus pulmões. Cada passo era guiado por um único pensamento: chegar a tempo. Subi as escadas do prédio com as pernas trêmulas, o coração batendo forte demais, e abri a porta do apartamento quase sem fôlego. O cheiro de mofo e de remédio velho me recebeu como sempre. Minha mãe estava deitada, encolhida sob os cobertores, a respiração curta, irregular. Joguei a bolsa no chão e fui direto até ela, tocando sua testa com cuidado. Ainda estava quente, mas havia algo diferente ali. Talvez fosse só esperança, mas eu me agarrei a isso como quem se agarra a uma tábua no meio do mar. — Mamãe… eu voltei — murmurei, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. Preparei tudo com atenção, como se cada gesto pudesse fazer diferença. Separei os comprimidos, li as instruções duas vezes para não errar, coloquei água fresca no copo rachado que usamos há anos. Ajudei-a a se sentar devagar, apoiando seu corpo frágil contra o meu, sentindo o peso dela e o quanto tinha emagrecido. Dei o remédio, uma dose de cada vez, esperando ela engolir antes de oferecer o próximo. Quando terminei, preparei um chá quente e fiz um mingau simples, insistindo para que ela comesse ao menos algumas colheres. — Você não precisava… — ela sussurrou, com a voz fraca. — Isso deve ter sido caro… — Não fala agora — pedi, segurando a mão dela. — Descansa. Eu estou aqui. Fiquei ao lado da cama por horas, observando cada respiração, cada movimento do peito subindo e descendo. Troquei o pano frio na testa dela, ajeitei os cobertores, limpei o suor que escorria pelo seu rosto. Do lado de fora, a cidade continuava indiferente, mas dentro daquele quarto eu sentia, pela primeira vez em muito tempo, que não estava completamente impotente. Quando ela finalmente adormeceu em um sono mais profundo, sentei no chão, encostada na cama, abraçando os joelhos. Meus músculos doíam, minhas mãos ainda tremiam, mas havia uma calma estranha no ar. Olhei para a sacola vazia da farmácia e, pela primeira vez, não senti apenas medo do dia seguinte. Ainda assim, no fundo da minha mente, a imagem de Olga voltou com força. O sorriso controlado, o dinheiro fácil, a promessa envolta em palavras bonitas. Aqueles remédios tinham um preço que eu ainda não entendia completamente. Mas, naquela noite, enquanto eu observava minha mãe dormir com a respiração um pouco mais estável, tudo o que eu conseguia pensar era que, se salvar a vida dela exigisse um pacto com o desconhecido, talvez eu já tivesse dado o primeiro passo sem perceber. E isso me assustava mais do que o frio da Rússia jamais conseguiu. Depois de ajeitar minha mãe na cama e conferir se os remédios estavam ao alcance da mão, fui até o banheiro. Tomei um banho demorado, deixando a água quente cair sobre o meu corpo cansado como se pudesse lavar também o peso daquele dia. Lavei o cabelo sem pressa, sentindo os dedos doerem de frio quando desliguei o chuveiro. Não era vaidade, era necessidade. Eu precisava me sentir minimamente humana depois de tantas horas sendo tratada como invisível. Vesti uma roupa simples, confortável, qualquer coisa que não apertasse nem chamasse atenção. Um pijama velho, macio, desses que já perderam a forma de tanto uso. Voltei para o quarto e me deitei ao lado da minha mãe, com cuidado para não acordá-la. Ela dormia profundamente, mas o sono não era tranquilo. O peito subia e descia com esforço, e o rosto ainda carregava os sinais da doença, mesmo depois dos remédios. Fiquei ali, observando cada detalhe dela. As linhas finas no rosto, as mãos magras, a fragilidade que tinha se instalado aos poucos, quase sem pedir permissão. Um nó se formou na minha garganta quando pensei em quantas vezes eu tinha voltado do trabalho exausta, contando moedas, fazendo escolhas impossíveis entre comida e medicamento. Trabalhei como pude. Aguentei humilhação, assédio, cansaço extremo. E, ainda assim, nunca foi suficiente. Só hoje, só por causa daquela mulher, a Olga. O nome voltou à minha mente com força. O jeito como ela falava, segura, elegante, como se tivesse controle absoluto sobre tudo ao redor. Lembrei das palavras dela na lanchonete, da forma como descreveu o Brasil, das promessas disfarçadas de oportunidade. Disse que trabalhava com agenciamento, com recepção de luxo, com mulheres bonitas sendo tratadas como rainhas. Disse que gente como eu não nasceu para esfregar chão e aguentar homem nojento passando a mão. Quantas vezes eu já não tinha ouvido aquilo? Você é linda demais pra esse lugar. Você devia estar em outro patamar. Você desperdiça sua beleza aqui. Sempre soou vazio. Até agora. Meu olhar desceu até a bolsa jogada no chão. Levantei devagar para não acordar minha mãe e fui até ela. Remexi entre as coisas até encontrar o cartão elegante que Olga tinha colocado no meu bolso. Dourado, discreto, com o nome dela e um número internacional. Fiquei alguns segundos parada, segurando aquele pequeno pedaço de papel como se ele pudesse mudar tudo ou destruir o pouco que eu ainda tinha. Voltei para a cama, sentei ao lado da minha mãe e peguei o celular. Meu coração acelerou quando digitei o número. Hesitei. Apaguei. Digitei de novo. Enviei a mensagem. “Oi, boa noite. Aqui é a Caterine. Estou passando só para te agradecer. Consegui comprar todos os remédios da minha mãe com o dinheiro que você me deu. Muito obrigada, de verdade.” Não demorou nem um minuto para a resposta aparecer. “Fico muito feliz em saber disso, querida. Eu disse que você conseguiria. Sua mãe é tudo para você, não é?” Engoli seco antes de responder. “Ela é tudo o que eu tenho.” Os três pontinhos surgiram quase imediatamente. “E você merece muito mais do que aquela lanchonete imunda e aquele povo nojento. Já te falei isso. Uma mulher como você não deveria nem passar perto daquele lugar.” Senti um arrepio percorrer minha espinha. Não era exatamente o que ela dizia, mas a forma como dizia. Como se me enxergasse de verdade. “Quando a gente vai sentar para conversar com calma?” — ela continuou. “Quero te explicar melhor como funciona o meu trabalho. Tenho certeza de que você vai gostar do que vai ouvir.” Respirei fundo, sentindo o peso da decisão se aproximando. “Eu não sei… agora está tudo meio confuso pra mim.” “Eu entendo.” “Mas confusão também é sinal de mudança.” Fiquei em silêncio por alguns segundos, olhando para minha mãe dormindo ao meu lado. Então a próxima mensagem veio. “Posso te pedir uma coisa?” “Claro.” “Você pode me mandar uma foto sua agora?” Meu corpo inteiro travou. “Agora? Mas eu estou deitada… nem estou arrumada.” A resposta veio rápida, quase suave demais. “Não tem problema nenhum. Eu não quero foto produzida. Quero você do jeito que é. Natural. Confia em mim.” Hesitei outra vez. Meu coração batia forte demais. Olga continuou. “Quero mostrar sua foto para uma pessoa importante. Alguém que entende de potencial. Assim consigo ter uma ideia de quanto podemos levantar com o seu perfil.” Levantar dinheiro. Essa parte ficou ecoando na minha cabeça. “É só para avaliar, Caterine. Nada acontece sem você querer. Eu jamais te colocaria em algo que não fosse bom para você.” Olhei para minha mãe mais uma vez. Ela se mexeu levemente, respirou fundo, depois relaxou de novo. Pensei nos remédios alinhados sobre a mesa, no alívio que senti ao vê-los ali. Pensei em quanto tempo aquele dinheiro duraria. Pensei em quanto custaria o próximo mês. Desbloqueei a câmera do celular. Tirei a foto sem pensar demais. Apenas eu, deitada, cabelo solto, rosto limpo, olhos cansados demais para fingir qualquer coisa. Enviei. O celular ficou mudo por alguns segundos. Segurei o aparelho com força, sentindo que, naquele exato instante, alguma coisa tinha mudado mesmo que eu ainda não soubesse exatamente o quê. E, no fundo do meu peito, uma sensação estranha começou a crescer: não era só medo. Era a consciência de que eu tinha acabado de abrir uma porta que talvez nunca mais conseguisse fechar.
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