Falcão Narrando
O celular tocou de novo quando eu ainda tava com o corpo quente da última distração e a mente voltando devagar pro lugar de sempre. O som cortou o ambiente da base como uma lâmina fina, precisa, dessas que não dá pra ignorar. Dei uma olhada na tela e, na mesma hora, senti aquela mistura estranha de respeito automático com leve impaciência.
— Fala, coroa — atendi, encostando de costas na mesa, já imaginando que aquilo não ia ser conversa curta.
Do outro lado da linha, a voz do meu pai veio calma demais, daquele jeito que ele usa quando quer parecer apenas um empresário preocupado, e não o homem que puxa fios invisíveis por trás de metade da cidade.
— Sua mãe tá preocupada com você, Natan.
Soltei um meio riso pelo nariz, mais por reflexo do que por graça.
— Comigo? Por quê? — respondi, olhando em volta, vendo tudo sob controle. — Tô em casa, pô. Tá suave. Tudo tranquilo.
Houve um breve silêncio do outro lado, aquele intervalo calculado que ele sempre usa antes de dizer algo que já vem preparado.
— Ela te ligou várias vezes hoje — continuou. — E você não atendeu nenhuma.
Franzi a testa por um segundo, e aí lembrei. Lembrei exatamente do horário. Lembrei do celular vibrando em cima da mesa enquanto eu tava ocupado demais pra prestar atenção em qualquer coisa que não fosse imediata. Respirei fundo, passando a mão pelo rosto.
— Ah… — murmurei, sem muito drama. — Eu tava ocupado na hora. Depois acabei esquecendo de retornar. Não foi por m*l.
Meu pai soltou um suspiro curto, daqueles que carregam mais coisa do que parecem.
— Quando sua mãe liga, você atende, Natan — disse, agora com a voz um pouco mais firme. — Ou retorna na hora. Você sabe como ela é. Daqui a pouco ela inventa de sair daqui pra ir aí ver por que o neném dela não atende o telefone.
Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ele não tava me vendo. Aquilo era verdade demais pra discutir. Minha mãe sempre foi assim: coração grande, medo acumulado e uma memória que nunca cicatrizou direito.
— É, eu tô ligado — respondi, num tom mais sério. — Vou ligar pra ela agora.
Antes que eu pudesse encerrar a ligação, ele continuou, como se tivesse segurado o assunto principal de propósito.
— E outra coisa. Vou precisar de você nas próximas semanas.
Revirei os olhos, encarando o teto de concreto como se ele fosse responsável por aquilo.
— Pra quê? — perguntei, já imaginando a resposta.
— Preciso que você dê uma passada em algumas boates — explicou, no mesmo tom controlado. — Ver como tá o esquema de bebida, fornecedores, essas coisas. Eu tô fora do país, não dá pra resolver tudo daqui.
Dei uma risada baixa, quase sem humor.
— Já é — falei. — Depois eu vou lá ver isso. Hoje não vou em lugar nenhum, não. Tenho baile aqui no morro. Outro dia eu resolvo.
Ele não insistiu. Nunca insistia. Meu pai sabia a hora de puxar e a hora de soltar a corda.
— Certo — respondeu apenas. — Mas não demora.
A ligação caiu, e por alguns segundos eu fiquei parado, olhando pro nada. Podia ser o dono de tudo ali, mas certas coisas ainda tinham peso diferente. Família sempre teve.
Peguei o celular de novo e rolei a tela até o nome que nunca vinha acompanhado de código, sigilo ou estratégia. Só vinha com um coração invisível em volta.
Liguei.
— Oi, mãe.
A resposta veio rápida demais, como se ela estivesse com o telefone na mão esperando.
— Meu filho… — a voz dela saiu carregada de alívio. — Eu tava tão preocupada com você. Te liguei tantas vezes, você não me atendeu.
Fechei os olhos por um instante. Aquele tom sempre acertava um lugar que bala nenhuma alcançava.
— Desculpa, mãe — falei, sem ironia nenhuma. — Eu tava muito ocupado na hora, depois acabei esquecendo. Não foi por m*l, juro.
— Não, tudo bem — ela respondeu, mas dava pra ouvir que não tava totalmente tranquila. — Eu só fiquei preocupada. Você sabe, né? Eu cresci aí. Eu vi tudo que seu avô virou… vi como aquilo terminou. E eu tenho tanto medo que aconteça a mesma coisa com você, Natan.
A imagem do meu avô veio na cabeça sem pedir licença. O Falcão Velho. Dono absoluto da Rocinha no tempo dele. Respeitado, temido, imortalizado em história — e morto atrás das grades. Um fim que minha mãe nunca aceitou.
— Mãe… — comecei, escolhendo as palavras. — Fica tranquila. Não vai acontecer nada comigo.
Ela suspirou do outro lado.
— Por que você não vem morar fora? — perguntou, a preocupação virando súplica. — Você é inteligente, fala quatro idiomas, estudou nas melhores escolas. Você podia ter outra vida, longe disso tudo.
Encostei no parapeito da base, olhando a favela lá embaixo, viva, barulhenta, real.
— Eu gosto da vida que eu levo, mãe — respondi com calma. — Eu gosto do que meu avô me ensinou. Aqui é minha casa. Sempre foi.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e eu sabia que naquele silêncio moravam todos os medos dela.
— Só promete que vai se cuidar — pediu, por fim. — A mamãe não aguentaria perder você.
Sorri sozinho, apesar do peso.
— Prometo — falei. — Fica tranquila. Tá tudo sob controle.
Desliguei a chamada e fiquei ali parado, sentindo o contraste absurdo entre os dois mundos que eu habitava. Pro morro, eu era o Falcão. Pro asfalto, o herdeiro Montenegro. Pra minha mãe eu ainda era só o filho dela. E, por ela, eu garantiria que a história não se repetisse. Mesmo que o caminho fosse o mesmo.