Caterine Volkova
Dizem que a beleza é um dom, mas em Vladivostok, ela se parece muito mais com uma maldição.
O vento cortante da Rússia batia contra o meu rosto enquanto eu caminhava apressada em direção à lanchonete Ogorodnik. Eu usava um casaco três vezes maior que o meu número, na tentativa vã de esconder as curvas que insistiam em atrair o tipo errado de atenção. Mas não adiantava. Mesmo sob as camadas de lã barata e o cachecol que subia até o meu nariz, meus olhos — de um azul que minha mãe chamava de "oceano de gelo" — sempre me entregavam.
Entrei na lanchonete e o sino acima da porta tocou, anunciando meu atraso de cinco minutos.
— Volkova! — a voz de Yelena, minha chefe, chicoteou o ar. — Menos tempo se admirando no espelho e mais tempo no esfregão. O chão não vai se limpar sozinho.
Eu não tinha me olhado no espelho. m*l tive tempo de lavar o rosto com água gelada antes de sair de casa. Apenas assenti e fui para o vestiário imundo colocar o avental manchado de gordura.
O dia seguiu o roteiro de sempre. Homens com cheiro de vodka e fumaça sentavam-se ao balcão e, antes mesmo de pedirem o café, soltavam comentários que me faziam ferver por dentro.
— Ei, boneca, quanto custa o sorriso? Ou o resto? — um caminhoneiro com dentes amarelados perguntou, tentando segurar minha mão enquanto eu entregava a conta.
Eu puxei o braço com uma força que o surpreendeu, mantendo a expressão neutra que aprendi a usar como escudo.
— O café custa cem rublos. Meu sorriso não está no cardápio — respondi seca, dando as costas sob o riso debochado dos amigos dele.
Minhas pernas latejavam quando meu turno finalmente acabou. Saí com o envelope de pagamento da semana — estava mais leve do que deveria, provavelmente Yelena descontou os cinco minutos de atraso. No caminho para casa, parei na mercearia de esquina e contei as moedas para comprar um pedaço de pão, um pouco de repolho e, se desse sorte, uma lata de conserva.
A conta nunca fechava.
Subi as escadas do nosso prédio, onde o cheiro de mofo e esgoto era onipresente. Ao abrir a porta, o silêncio do apartamento de um cômodo só me atingiu. Minha mãe estava deitada, envolta em três cobertores, o rosto pálido e as bochechas encovadas. Ela era uma versão minha, trinta anos no futuro, destruída pela doença e pela fome.
— Caterine? É você, meu anjo? — a voz dela era um sussurro quebradiço.
— Sou eu, mamãe. Comprei pão fresco — menti, enquanto o pão já estava duro como pedra.
Aproximei-me da cama e toquei sua testa. Ela estava quente de febre, mas tremia de frio. Olhei para a nossa dispensa: estava quase vazia. O frasco de remédio dela tinha apenas um comprimido no fundo. Senti um nó fechar minha garganta.
Eu era a mulher mais bonita daquele bairro miserável. Todos os dias, algum homem me oferecia uma saída rápida em troca da minha dignidade. E todos os dias, eu dizia não. Mas, enquanto observava minha mãe lutar para respirar e o frio da Rússia invadia as frestas das janelas quebradas, uma pergunta terrível martelava na minha mente:
Até quando eu conseguiria manter o orgulho se o preço era ver minha mãe morrer de fome?
Limpei uma lágrima antes que ela congelasse no meu rosto e comecei a picar o repolho. Eu precisava de um milagre. E eu sabia, no fundo da minha alma, que o destino não dava nada de graça para garotas como eu.
O fogareiro elétrico de uma boca só demorava uma eternidade para esquentar. Joguei o repolho picado e as sobras de batata na água rala, mexendo devagar enquanto o vapor subia, aquecendo meu rosto por um breve instante. Aquela sopa não tinha gosto de nada, mas era o que separava a fome do desespero.
Forcei um sorriso, respirei fundo e me aproximei da cama.
— Pronto, mamãe. O jantar está servido — eu disse, ajudando-a a se sentar. Ela parecia tão frágil, como se um vento mais forte pudesse levá-la.
— Como foi o dia, Caterine? — Ela perguntou, antes de ser interrompida por uma tosse seca que me rasgou o peito. — Yelena tratou você bem? Aqueles homens... eles foram respeitosos?
Eu acariciei a mão dela, escondendo as marcas vermelhas no meu pulso onde aquele caminhoneiro me apertou mais cedo.
— Foi maravilhoso, mamãe — menti, com uma perfeição que me assustava. — A lanchonete estava cheia de gente educada hoje. Uma senhora até me deu uma gorjeta extra porque gostou da rapidez do serviço. Yelena está quase me promovendo, você acredita?
Minha mãe sorriu, um brilho de orgulho surgindo em seus olhos cansados. Ela queria acreditar. E eu precisava que ela acreditasse. Eu não podia contar que Yelena me chamou de imprestável, nem que um homem nojento me ofereceu rublos para vê-la no fundo do beco.
— Você é tão linda, minha filha. Às vezes tenho medo de que este lugar te engula — ela sussurrou, aceitando a colher de sopa que eu levei à sua boca.
— Bobagem. Eu sou forte, lembra? — Pisquei para ela, sentindo o nó na garganta apertar. — Logo, logo vamos ter dinheiro suficiente para comprar aquelas vitaminas que o médico recomendou. Talvez até possamos nos mudar para um lugar onde a calefação realmente funcione.
— Você merece o mundo, Caterine. Não apenas as sobras desta cidade.
Fiquei ali, sentada aos pés da cama, contando histórias inventadas sobre clientes gentis e gorjetas inexistentes até que ela pegasse no sono, embalada pela falsa segurança que minha voz proporcionava.
Quando os roncos leves começaram, meu sorriso caiu. O silêncio do apartamento voltou a ser pesado. Olhei para as minhas mãos — mãos que deveriam estar segurando livros ou pincéis, mas que estavam ficando ásperas de tanto esfregar balcões por centavos.
Fui até a pequena janela. Lá fora, Vladivostok continuava indiferente à nossa dor. Eu sabia que a promoção de Yelena era uma mentira. As vitaminas eram um sonho distante. E a única coisa real era que, amanhã, eu teria que colocar aquele casaco largo de novo e enfrentar os lobos por um pedaço de pão.
Eu faria qualquer coisa para salvá-la. O problema era que a "qualquer coisa" estava começando a parecer a única opção que me restava.