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2132 Palavras
Pouco depois da meia-noite, Viorel estava atrás do volante de seu Bugatti Veyron, seguindo para o oeste na Sunset Boulevard, quando sua mãe ligou. — Querido. Você me ligou. O tom de voz agudo de Martha Hudson deixou-o tenso na mesma hora. Inacreditável como bastavam quatro palavrinhas para que a mais famosa mãe adotiva da Inglaterra, eleita m****o do Parlamento por Tiverton e uma santa aos olhos da maior parte do povo britânico, conseguisse transmitir tanta decepção. Por que fui ligar para ela? pensou Viorel, furioso. Estava furioso porque já sabia a resposta. Ligara porque, no fundo, ainda queria a aprovação de Martha. E não ia consegui-la. Tentou manter seu tom de voz casual. — Liguei. Achei que você e Johnny iam gostar de saber. Consegui um papel de peso hoje. Vou fazer Heathcliff no novo filme de Rasmirez. Johnny Hudson, o marido muito mais velho de Martha, era o pai adotivo de Viorel, mas este nunca o chamou de “pai” e Johnny nunca pedira que o fizesse. Os dois não eram íntimos. — Heathcliff? — A deputada Martha Hudson soou crítica. — Quer dizer que vão refilmar O Morro dos Ventos Uivantes? Eram oito da manhã na Inglaterra agora. Viorel imaginou o corredor da mansão de Martha em Devon — nunca vira o lugar como seu lar, apenas como a casa para a qual voltava nas férias do colégio interno: o papel de parede desbotado do período regencial, as cartas do eleitorado impecavelmente empilhadas na mesinha ao lado do telefone — e pensou em como aquilo estava distante agora. Não apenas geográfica, mas emocionalmente. Era outro mundo. — Isso mesmo, mãe — disse ele, cansado. — Dorian Rasmirez está fazendo o remake. Ele é um dos... — Mas por quê? — interrompeu Martha. — O original é uma obra de arte. Vamos encarar a verdade, meu querido, por mais boa vontade que você tenha, não vai conseguir fazer melhor que Olivier. Vai? Pronto, você conseguiu. Simples assim, a mãe de Viorel conseguira arruinar seu triunfo e tirar toda a alegria dele. Como sempre fazia. A opinião pública britânica reverenciava Martha por sua luta amplamente divulgada para resgatar o bebê Viorel de um terrível orfanato romeno. As memórias mais antigas de Viorel eram de pessoas estranhas se aproximando dele e dizendo o quanto ele tinha sorte e que mãe maravilhosa ele possuía. Na realidade, entretanto, sua infância fora terrivelmente solitária. Embora não lhe faltasse nada material, ele sabia que Martha Hudson nunca o amara de verdade. Não era nada pessoal. Martha Hudson nunca amou ninguém de verdade exceto Martha Hudson. Mas isso fazia com que Viorel se sentisse duplamente rejeitado, além de eternamente deslocado. Sua carreira o distanciou ainda mais da mãe. Martha Hudson jamais quis que o filho se tornasse ator. Queria que Viorel fosse médico. Em suas fantasias, ele voltaria para a Romênia, país em que nascera, para ajudar as crianças pobres e órfãs que ainda havia por lá — o ideal seria se sua volta fosse documentada pelos fotógrafos do Daily Mail, que nunca deixavam seus leitores se esquecerem do altruísmo de Martha (por adotá-lo, antes de mais nada) e de sua dedicação às causas das crianças de toda parte. Mas as coisas não aconteceram assim. Viorel, de forma egoísta, decidiu buscar fama e fortuna. Martha até podia perdoá-lo por tentar. O que a atormentava era que ele tinha conseguido, a ponto de ser infinitamente mais famoso do que ela algum dia seria. — Ganharei mais que o Olivier — disse Viorel. — Eles me ofereceram 5 milhões de dólares. Até Martha Hudson respirou fundo ao escutar a quantia. Era mesmo uma quantia de tirar o fôlego. Você está impressionada, sua vaca maldita, pensou Viorel. Agora admita. Mas é claro que Martha não admitiu. — Ah, bem. — Ela fungou de forma pouca graciosa. — Isso é muito bom, imagino. Mas dinheiro não é tudo, você sabe disso, querido. Agora preciso correr. Tenho uma reunião do comitê esta tarde e vou me atrasar para pegar o trem. Foi Terence Dee quem salvou Viorel da Inglaterra e das ambições sufocantes de sua mãe. Martha Hudson sempre vira o filho como um instrumento para se autopromover, um boneco adorável e fotogênico para fortalecer sua imagem como a pessoa caridosa do Partido Conservador. Mas Terence viu algo mais em Viorel: talento. Quando se formou em Eton, Viorel obedientemente seguiu a aposta da mãe e foi para Cambridge estudar Medicina em Peterhouse. Mas foi aí que o conto de fadas de Martha Hudson abruptamente chegou ao fim. Após entrar na Footlights, a famosa sociedade dramática de Cambridge, no final do primeiro ano, Viorel foi visto por um agente de Londres e escalado na mesma hora para fazer uma comédia romântica britânica, Bottom’s Up. O filme foi direto para vídeo, mas a performance apaixonada de Viorel como um vigarista conquistador foi boa o suficiente para chamar a atenção de Terence Dee, na época o mais poderoso agente de elenco de Hollywood. Com 50 e poucos anos, uma cabeleira loura desgrenhada e uma paixão por suéteres em tom pastel jogados casualmente por cima dos ombros, Terence Dee era um gay tão afeminado quanto qualquer drag queen de Las Vegas, e pode-se dizer que o primeiro interesse dele no delicioso jovem inglês não fora estritamente profissional. Mas estava claro que Terence não se incomodara com a falta de interesse de Viorel pelo próprio sexo em geral, e por Terence em particular. Logo conseguiu um empresário e um apartamento em Los Angeles para que o rapaz pudesse largar a faculdade e correr atrás da carreira de ator em tempo integral. Não foi preciso perguntar duas vezes para Viorel. Após uma breve e gelada despedida da mãe durante um almoço em Londres (e uma mais calorosa e longa de sua namorada Lucinda, a estrela de Bottom’s Up, e a mulher que finalmente tirara sua virgindade; apesar de sua incrível beleza, Viorel demorara para desabrochar), ele pegou um voo para o Aeroporto Internacional de Los Angeles e nunca mais olhou para trás. Isso fora cinco anos, seis filmes e várias centenas de mulheres atrás. E em todo aquele tempo, Viorel não voltara à Inglaterra nenhuma vez. Principalmente por causa de Martha, mas também porque queria deixar para trás sua infância tímida e solitária. O público americano podia idolatrá-lo pelo seu britanismo, aquele sotaque à la Hugh Grant que por alguma razão desconhecida fazia as garotas americanas desmaiarem, mas Vio Hudson se considerava um nativo de Los Angeles. Desde o primeiro dia, se apaixonara pela cidade: o brilho do sol, o otimismo, as mulheres lindas, liberais e sempre tão disponíveis. E o melhor de tudo: em Los Angeles, ninguém nunca ouvira falar da deputada Martha Hudson. Apesar de a imprensa americana inevitavelmente ter descoberto a história da adoção de Viorel quando criança, com a ajuda de uma excelente equipe de relações públicas, Vio conseguira afastar a imagem de vítima que o assombrara a vida inteira. Sim, ele era adotado. Sim, sua mãe era política. E daí? Agora a única coisa que importava era que ele era um astro, um jogador, um vencedor. Hollywood ofereceu a Viorel Hudson uma segunda chance para reinventar sua vida e, desta vez, foi nos seus termos. Ele tinha conseguido. E não precisava agradecer a ninguém pelo seu sucesso, a não ser a si mesmo. Depois do telefonema da mãe, Viorel chegou em casa em dez minutos. Deixara Rose Da Luca na cama no Château (mas não antes de pagar a conta e deixar o café da manhã e rosas encomendados para serem entregues a ela quando acordasse — não precisava ser um canalha com essas coisas). Por mais que gostasse de ir para a cama com mulheres lindas — e Rose era realmente linda, de um modo todo próprio —, Viorel tinha uma mania quase patológica de acordar sozinho e, sempre que possível, em sua própria cama. Usando hotéis para o sexo, ele conseguia compartimentar sua vida e proteger sua privacidade de forma satisfatória. Seu apartamento à beira da praia de Navy, um pequeno pedaço de terra entre Santa Monica e Venice, era seu santuário. Vio não tinha vergonha de adorar toda a atenção, o brilho e o glamour de Hollywood, mas até ele precisava saber que, no fim do dia, podia fechar a porta para toda essa loucura. O homem Viorel Hudson era extrovertido, sociável e charmoso. Mas o menino solitário e cheio de raiva que ele já fora um dia ainda precisava de uma fortaleza onde se refugiar. Escondido da rua atrás de um proibitivo muro de pedra cinzento no qual havia dois portões de aço reforçado, como os de uma prisão, o apartamento de Vio era literalmente sua fortaleza. Uma vez dentro, porém, a sensação de espaço, luz e amplitude era incrível. Na sala de estar, janelas que iam do chão até o teto ofereciam uma vista do oceano de cair o queixo, o mar cinza azulado banhando a praia de areia branca, deserta à exceção de um ciclista ou outro que aparecia naquele tranquilo pedaço do litoral. Na varanda, bebericando seu café, Vio às vezes esquecia que estava na cidade, tendo apenas o grasnar distante das gaivotas e o suave som das ondas para quebrar o silêncio. O apartamento não era enorme, considerando o padrão dos astros do cinema: por volta de 200 metros quadrados. Mas Vio fizera com que parecesse infinitamente maior com sua decoração simples e moderna, com as linhas geométricas e retas dos móveis e a tranquilizante paleta de cores de tons de branco e cinza que, de alguma forma, conseguia esquentar o ambiente no inverno e refrescá-lo no verão. Costumava pensar que, se não fosse ator, seria um bom designer, talvez até arquiteto. Sempre que cruzava a porta da frente, sentia uma gostosa onda de orgulho, como um pai que chega em casa e encontra um filho querido. Era o primeiro e único lugar em que já se sentira completamente à vontade, e ele amava o apartamento. Jogando as chaves no balcão da cozinha, ele tirou os sapatos e foi para a suíte master. Deixando o resto das roupas em uma pilha no chão — Cecilia, sua empregada, as recolheria pela manhã —, passou direto pelo banheiro e se enfiou debaixo de seus deliciosos e confortáveis lençóis Frette. Suas pernas e seus braços pulsavam de cansaço, Rose realmente o fizera suar, mas tinha muitas coisas na cabeça para conseguir dormir. Cinco milhões e meio de dólares. Por cinco semanas de trabalho. Que Deus abençoe Dorian Rasmirez! Viorel ainda não conhecia pessoalmente o grande diretor. Toda a negociação daquele dia acontecera através de seu agente. Imaginava quando seria chamado para a primeira leitura e quando terminariam de escolher as locações. Uma bizarra aura de sigilo já começava a envolver o filme, com Rasmirez fornecendo apenas as informações básicas para o agente de Viorel. Mas todo diretor tinha suas pequenas excentricidades. E algumas coisas se podia presumir como certas. Como se tratava de O Morro dos Ventos Uivantes, um clássico inglês, a maior parte do filme seria gravada na Inglaterra. Considerando todos os outros aspectos, conseguir o papel de Heathcliff era a realização de um sonho, mas Viorel não estava nem um pouco ansioso em voltar para casa. Pior ainda, de acordo com seu agente, corria um boato de que a maior parte das cenas internas seriam filmadas no antigo castelo da família de Rasmirez, que ficava justo na Romênia. Era uma reviravolta irônica do destino o fato de tanto Viorel como seu diretor terem nascido no mesmo país distante e pobre, embora estivesse claro que suas famílias vinham de extremos opostos da pirâmide social. Meus antepassados provavelmente poliram a prataria dos antepassados dele, pensou Viorel ironicamente. Se havia algum país no mundo que o entusiasmava menos que a Inglaterra era a maldita Romênia. Esperava que os boatos não fossem verdadeiros. O que era verdade, confirmado dois dias atrás, era que Sabrina Leon fora escalada para fazer Cathy Earnshaw, a protagonista feminina. Isso também preocupava Viorel. Sabrina podia ter o mais belo par de pernas (ou melhor, o mais belo traseiro) em Hollywood, mas também era uma enorme encrenca, o maior desastre de Hollywood desde Lindsay Lohan. Viorel não conseguia imaginar o que levara um profissional como Rasmirez a contratá-la, principalmente com as chamas do mais recente escândalo dela ainda ardendo pela indústria como um incêndio na floresta. Ela deve ter aceitado um cachê baixo. Talvez por isso ele tenha conseguido me oferecer um tão alto. Preferia fazer o filme sem a Inglaterra, a Romênia e Sabrina Leon. Mas por 5,5 milhões, eram três cruzes que estava disposto a carregar. Vá se f***r, Martha. Apagando a luz, ele finalmente pegou no sono, sonhando com a Inglaterra, Heathcliff e as coxas macias de Rose Da Luca.
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